A Vida Centrada no Eu

No texto original do livro de Ester, a palavra 'rei' aparece
cento e sessenta e nove vezes, o nome 'Assuero' é citado
vinte e nove vezes e a palavra 'reino' aparece em onze
ocasiões. O nome de Deus, no entanto, não é citado uma única
vez. Pode-se concluir que a história é centrada em Assuero e
que ele é o personagem principal da narrativa. Caso
contrário, como explicar a sua presença em todo o livro? O
rei Assuero representa o 'eu', conseqüentemente, sua
personagem representa a vida centrada no 'eu'. Uma vez que o
livro de Ester está repleto de sombras do 'eu', é possível
perceber por que o nome de Deus tenha desaparecido da
narrativa.
Sempre que o 'eu' rouba a cena, Deus afasta-se
silenciosamente. Nesse aspecto, o livro de Ester
assemelha-se muito a Romanos 7, também repleto da palavra
'eu' - ao todo quarenta e oito citações - em contraste com a
palavra Espírito Santo, que aparece uma única vez. No
entanto, há uma grande mudança no capítulo 8, o número de
menções da palavra 'eu' diminui, aumentando as menções ao
Espírito Santo - pelo menos dezenove. O livro de Ester
aparenta ser como o capítulo 7 do livro de Romanos, no
entanto, é ao capítulo 8 que o seu desenrolar se assemelha.
Podemos então afirmar que Romanos 7 e 8 são chaves para o
livro de Ester.
O fato de Paulo mencionar muitas vezes a palavra 'eu' em
Romanos 7, e as constantes menções ao rei Assuero no livro
de Ester lembra-nos de um pássaro dos Estados Unidos,
chamado 'Me'. Ele canta uma única melodia o dia inteiro, não
para de entoar 'Me', de seu interior flui somente a palavra
'Me', nunca muda, é sempre 'Me'. Por isso recebeu o nome
'Me'. Na língua inglesa, a palavra 'Me' é o pronome objeto
para 'eu'. Esse pássaro não canta 'piu-piu', mas entoa 'eu-eu'
todos os dias. O que o pássaro 'Me' cantarola é exatamente a
'canção' que Paulo entoa no capítulo 7 de Romanos. É também
a música de Assuero no livro de Ester. Na realidade, não é
essa também a canção do homem natural, todos os dias? Ele
pensa constantemente em seu 'eu', sua preocupação é 'eu', o
que ama é 'eu', por conseguinte, o que expressa é 'eu'. Para
muitos de nós é 'eu' em tudo e tudo é 'eu'. Ao acordar sou
'eu', o meu sonho é 'eu'.
Certa vez, na cidade de São Paulo, um grupo de irmãos
chineses reunido lia o livro de Ester. Ao chegar no trecho
referido, eles tomaram emprestado a melodia do Disney - "Um
pequeno mundo" - para cantar a música do pássaro 'Me'. Em
português a palavra 'Me' é o pronome 'eu', mas na
congregação havia irmãos que somente conheciam a língua
chinesa e a pronúncia de 'eu' em chinês é 'fã'. Assim, eles
trocaram o 'eu' por 'fã'. Quando todos cantaram
simultaneamente a música do pássaro 'Me', uns cantavam 'eu',
outros cantavam 'fã'. Unindo as duas palavras, obtém-se a
expressão 'eu-fã'. O resultado dessa união sino-brasileira
não foi somente cômico, mas muito ilustrativo.
Coincidentemente essa combinação alertou que verdadeiramente
somos 'eu-fãs', ou seja, todos fãs do 'eu'. Hoje temos fãs
de futebol, fãs do xadrez, fãs do cinema, mas acima de tudo,
o homem é fã de si mesmo, inclusive o cristão.
Os cristãos devem pedir misericórdia ao Senhor, pois muitas
vezes dizem amá-lO, mas na verdade, o que ainda amam mais
neste mundo é o seu próprio eu. Seus pensamentos estão
repletos de si próprios, são um verdadeiro rei Assuero. Se
não tivessem riqueza alguma, não hesitariam em deixar o
Senhor reinar! Mas o homem natural acredita que tem algo de
bom em si mesmo, o que o faz pensar constantemente ao seu
respeito: "Se sou o centro, ao formar uma família, serei o
centro. Também sou o centro na congregação. Cristo morreu
por mim na cruz. Cristo me ama por minha causa". É bom
sabermos que Cristo nos ama, o problema é quando nos
tornamos o centro! Desse modo, apesar de amar ao Senhor, o
resultado é semelhante ao livro de Ester, a presença de Deus
e Seu nome não são vistos claramente enquanto a expressão do
homem natural e o seu nome ficam em destaque. Isso leva ao
louvor dos homens e faz com que o nome de Deus não seja
louvado, nem a Sua glória reconhecida.
A Forte Luz do Eu
Quantas vezes o cristão permite que Cristo ocupe o primeiro
lugar em todas as coisas, decide que Ele será o centro de
sua vida, e submete-se a Ele? Quando a luz por trás é muito
forte, ainda que Deus seja o personagem principal, só é
possível ver a Sua sombra, ter uma vaga impressão daquilo
que Ele é. É isso o que percebemos no livro de Ester, é
possível ver a obra de Deus, todavia é impossível ver o Seu
nome.
Ao olharmos, de dentro para fora, para uma pessoa diante de
uma janela no sol do meio-dia, percebemos apenas a sua
silhueta. O seu rosto não pode ser visto porque a luz que
está no fundo é muito forte. Isso explica porque não se lê o
nome de Deus no livro de Ester. A luz de Assuero destacou-se
muito e só podia-se ver a sombra de Deus por meio de Suas
obras. Isso é um alerta para todos os que amam e servem ao
Senhor. Quantas vezes o nosso Cristo deveria estar na
posição de liderança, mas a vida do nosso 'eu' é tão forte,
nossa alma tão vívida e nossos pensamentos tão grandiosos
que, o que os outros claramente vêem é a nós mesmos, ao
invés da Sua beleza e da Sua glória, as quais perdemos no
processo. As pessoas podem ver alguém que ama ao Senhor, mas
não conseguem tocá-lO.
Autor: Christian Chen
Extraído do livro "Um Vislumbre do Livro de Ester - O Gozo
no Espírito Santo" do irmão Christian Chen da Edições
Tesouro Aberto
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