Rudolf Bultmann (1884 – 1976) foi um dos
maiores estudiosos do Novo Testamento do
século passado, e provavelmente o maior
representante do liberalismo teológico
na área dos estudos bíblicos (embora ele
mesmo não se considerasse um liberal). A
carta, obviamente, é fictícia, bem como
os comentários jocosos que irão aparecer
assinados por Bultmann...
Sei que você não pode mais me ouvir. Não
quero parecer covarde escrevendo para quem
já morreu. Mas, não tive a oportunidade de
conhecê-lo enquanto você ainda vivia
(tornei-me cristão um ano após a sua morte).
Além do mais, você sabe que escrever é dar a
cara à tapa, mesmo depois de morto. E o que
coloco aqui é baseado nas coisas que você
escreveu e que, depois de sua morte, ainda
falam.
Começo expressando minha profunda
admiração pela sua cultura, seu
conhecimento, domínio do grego e do
latim e pela lógica de seus
posicionamentos. Posso não concordar com
você em praticamente tudo que você
concluiu, mas seria injusto deixar de
reconhecer seu valor e talento como
pesquisador, erudito e escritor para os
estudos no Novo Testamento e para a
hermenêutica.
Reconheço também a sua piedade. Sei que sua
religiosidade foi moldada no pietismo
alemão, o qual valorizava a piedade
individual e defendia uma vida cristã
consistente. Pelo que li, você era membro
dedicado da Igreja Luterana na Alemanha e um
excelente pregador. Li recentemente que você
também pregava sermões natalinos e fiquei
curioso em saber como você conseguia fazer
isto, uma vez que não acreditava realmente
que Jesus de Nazaré era o Filho de Deus
encarnado.
Sabe, caro doutor, pode ser que sua intenção
real, ao dizer que o Novo Testamento está
cheio de mitos, lendas e estórias fabricadas
pela fé da Igreja, tenha sido libertar o
kerygma
de uma determinada visão mitológica de
mundo. Você aparentemente intencionava
alcançar o homem moderno, que tem uma visão
de mundo moldada pelo cientificismo, que não
acredita mais em milagres, e que já tem uma
explicação científica para tudo o que
acontece. Você queria desmitologizar o Novo
Testamento e apresentar a este homem
racionalista um Evangelho que não o
ofendesse e que ele pudesse aceitar sem
perder a sua respeitabilidade científica.
Quero dizer que reconheço que sua intenção
era boa e seu alvo, legítimo. Devemos
envidar todos os esforços para falar à nossa
geração. Vejo neste propósito seu uma
intenção missionária, que aprecio e com a
qual concordo.
Mas, se você pudesse ver hoje o
resultado de sua estratégia, desconfio
que ficaria desconsolado em ver que não
funcionou como você queria. Seria
injusto acusá-lo de esvaziar as igrejas
na Europa, Estados Unidos e outros
locais. A secularização geral da Europa
também contribuiu para isto. Mas o fato
é que onde suas idéias mais radicais
foram adotadas por professores liberais
de teologia e pastores, as igrejas
secaram, se esvaziaram e morreram. Pode
ter sido coincidência. Mas a verdade é
que este homem moderno, por mais
científica que seja sua mentalidade,
quando ele vai aos domingos para a
igreja, quer saber como pode alcançar
paz interior, perdão para sua
consciência culpada, reconciliação com
Deus e ter esperança da vida eterna –
coisas que o Jesus histórico com sua
mensagem existencialista que você
apresentou, depois de despi-lo de sua
divindade, não pode oferecer.
Se você pudesse ver alguns de seus
seguidores hoje entenderia melhor o que
eu quero dizer. Uma parte deles não
consegue contribuir em nada para a
Igreja, o que era sua intenção inicial,
caro Rudolf. Eles acabam virando
acadêmicos, dando aulas em escolas de
teologia secularizadas ou nos seminários
das denominações históricas e
tradicionais, onde nem sempre dizem o
que pensam (há exceções, é claro). Não
ouvi ainda falar de algum que seja um
pastor reconhecido, plantador de
igrejas, evangelista, que ame missões e
que tenha feito sua igreja crescer -
embora eu deva reconhecer que conheço
alguns fundamentalistas que também são
assim, secos e infrutíferos. Mas, a
diferença, caro doutor, é que um pastor
liberal (é assim que chamamos, certo ou
errado, quem adota suas idéias) que não
planta igrejas, não evangeliza, não tem
interesse em missões, está sendo
coerente com aquilo que acredita;
enquanto que um pastor conservador que
não planta igrejas, não evangeliza nem
tem interesse em missões está sendo
inconsistente para com o Cristianismo
histórico tradicional.
Eu gostaria de poder lhe dizer que suas
idéias morreram e que hoje praticamente
não tem mais ninguém que seriamente as
defenda. Mas, não, não posso dizer isto.
Lembra do Karl Barth, que viveu na sua
época, e com quem você trocou
correspondências por mais de 30 anos?
Vocês dois tinham muita coisa em comum,
embora também diferenças. Pois é, acho
que ele acabou levando a melhor, pois
muitos de teus discípulos acabaram
virando bartianos ou neo-ortodoxos – é
assim que os chamamos – e embora falem a
língua dos ortodoxos (daí o nome
neo-ortodoxia) ainda conservam em grande
parte aquele seu ceticismo radical para
com a veracidade e historicidade do Novo
Testamento. Estes neo-ortodoxos detestam
ser identificados como liberais, mas ao
final, não sendo realmente uma nova
ortodoxia, o melhor nome para eles
deveria ser neo-liberais mesmo.
Por último, não poderia deixar de lhe
dizer que a premissa maior de seu
programa de desmitologização – aquela de
que o homem moderno tem uma mentalidade
científica e não acredita mais em
milagres – acabou se provando falsa: o
homem moderno continua cada vez mais
religioso, apesar dos esforços dos ateus
evangelistas (não que você tenha sido
ateu), como Richard Dawkins, Sam Harris
e Christopher Hitchens, e do crescimento
da mentalidade secularizada no mundo
ocidental.
Termino aqui. Espero sinceramente não
ter entendido mal as coisas que você
escreveu. Digo isto, pois mostrei o
esboço desta carta a um amigo, um jovem,
erudito, inteligente e capaz teólogo,
seu admirador, e ele me disse que
discordava totalmente de mim. Não
tivemos tempo de aprofundar nossa
conversa e discutir os pontos de
discordância. Mas, pelo que tenho lido
das tuas obras, acredito que não fui
injusto para com tuas idéias.
Sinceramente,
Augustus