CONSEQÜÊNCIAS DE SER ALVO DE PIADAS NA ESCOLA

Por Dra. Silvana
Martani*
Em todos os tempos se presenciou na escola, ou mesmo nos
cursos complementares, alunos que são chacoteados pelos
colegas o tempo todo com brincadeiras muito desagradáveis,
fazendo com que estes não tenham a menor possibilidade de
reagir ou mesmo reclamar. O escolhido do grupo faz de conta
que não liga, brinca um pouco para disfarçar a vergonha, até
pede para os colegas darem um tempo, mas nada adianta: ele é
a bola da vez e nada pode mudar isso.
Revidar não adianta. Se o alvo da chacota se irritar ou
reagir, a chateação vai aumentar ou mesmo piorar. Se ele
fizer de conta que não se importa, o grupo vai "caprichar"
na atormentação para provocar alguma reação. Esse
comportamento é chamado de bullying.
O bullying compreende todas as formas de atitudes
agressivas, repetidas e intencionais que ocorrem sem
motivação aparente adotadas por um ou mais estudantes contra
outro. Essas ações causam angústia e dor e são mantidas
dentro de uma relação desigual de poder através de apelidos,
ofensas, gozações, provocações, humilhações, exclusão,
isolamento, intimidação e perseguições. Além de tiranizar,
aterrorizar e ferir o aluno por meio de chutes, tapas,
roubos e outras ações de caráter violento.
A maioria das escolas negam que isso acontece em suas salas.
Dizem que isso é coisa da idade, que os colegas só estão
brincando, que não podemos levar a sério as brincadeiras de
mau gosto. Claro que em muitos momentos os alunos são
inadequados uns com os outros sem a intenção de magoar; as
brincadeiras passam dos limites; os apelidos são carinhosos
ou nem tanto, mas não ofendem de fato, e isso é coisa da
idade sim.
Mas do que estamos falando é do apelido jocoso, da
brincadeira que ofende e deprecia e que acontece todos os
dias. Do prazer mórbido que os colegas sentem em maltratar o
outro e de vê-lo sofrer e, com isso, se sentirem "poderosos"
e "donos" do colega. Também da humilhação perante as risadas
e da exclusão declarada dos grupos que marca o ano escolar
do começo ao fim.
Não existe regra definida para ser um alvo de bullying,
todos são alvo em potencial. Basta marcar por qualquer
diferença ou ter alguma dificuldade, ou mesmo, ser uma
pessoa mais sensível. Todos podem ser escolhidos e não basta
estar integrado em um ano escolar pois, no ano seguinte, por
qualquer razão, o integrado pode ser o escolhido.
Os autores deste tipo de comportamento são normalmente
aqueles indivíduos que dispõem de poucos recursos
emocionais, não se sentem queridos, não têm uma família
estruturada, se sentem abandonados e menosprezados e este
modelo normalmente é aprendido com seus pais e parentes.
Para estes indivíduos, a prática do bullying é, de alguma
forma, motivada pela necessidade de incluir alguém em sua
realidade mesmo que precariamente, pois não desfruta de um
aparato atraente, tanto emocional quanto intelectual, para
atrair e manter as pessoas ao seu lado de uma maneira
positiva e honesta. Existe uma grande possibilidade de, na
maioria dos casos, este indivíduo se manter violento e
infeliz e sem possibilidade de se relacionar adequadamente,
podendo se marginalizar.
O que potencializa definitivamente uma pessoa a se tornar
alvo é a fragilidade emocional associada a diferença de
padrão. Estar fora do padrão exige um fortalecimento dos
recursos emocionais para enfrentar as reações dos colegas e,
muitas vezes, o indivíduo acaba sucumbindo e se abatendo, o
que gera um empobrecimento de sua auto-estima e o impede de
procurar ajuda ou reagir. Com isso, a insociabilidade e a
passividade aumentam fazendo despencar tanto o rendimento
escolar, quanto a freqüência e interesse na escola.
Este quadro pode levar os jovens a desenvolverem uma série
de doenças emocionais ou físicas devido ao stress a que
estão expostos diariamente entre elas: depressão, síndrome
do pânico, gastrite, colite, asma, bronquites e distúrbios
alimentares.
Como podemos perceber, carrasco e vítima traduzem suas
fraquezas em atitudes opostas estabelecendo uma relação de
co-dependência aterrorizante. Essa situação vivida no
ambiente escolar e de lazer é capaz de contaminar, ou mesmo,
inviabilizar todos os desdobramentos que as relações grupais
são capazes de favorecer como, por exemplo, as escolhas
futuras e a profissão.
Para que esse tipo de conduta seja neutralizada nas escolas
deve haver um esforço de pais e orientadores, pois os danos
aos alvos são muito severos. Os pais devem avisar
professores e orientadores se suspeitarem que seus filhos
sejam vítimas do bullying e não devem permitir que a questão
seja mal investigada ou sub-valorizada, pois é muito difícil
para as escolas admitirem esta situação.
Aprendizagem é um processo muito difícil que deve promover a
apreensão dos fatos, do conhecimento e da possibilidade de
ser feliz e a vivência traumática não deveria fazer parte do
pacote que contratamos na escola.
* Dra. Silvana Martani é psicóloga especialista em obesidade
da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de
São Paulo.