RESPOSTA À CALAMIDADE
Autor:
Caio Fábio
Então,
disse Eliseu: Ouvi a palavra do SENHOR; assim diz o SENHOR: Amanhã, a estas
horas mais ou menos, dar-se-á um alqueire de flor de farinha por um siclo, e
dois de cevada, por um siclo, à porta de Samaria. Porém o capitão a cujo braço o
rei se apoiava respondeu ao homem de Deus: Ainda que o SENHOR fizesse janelas no
céu, poderia suceder isso? Disse o profeta: Eis que tu o verás com os teus
olhos, porém disso não comerás.
Quatro homens
leprosos estavam à entrada da porta, os quais disseram uns aos outros: Para que
estaremos nós aqui sentados até morrermos? Se dissermos: entremos na cidade, há
fome na cidade, e morreremos lá; se ficarmos sentados aqui, também morreremos.
Vamos, pois, agora, e demos conosco no arraial dos siros; se nos deixarem viver,
viveremos; se nos matarem, tão-somente morreremos.
Levantaram-se
ao anoitecer para se dirigirem ao arraial dos siros; e, tendo chegado à entrada
do arraial, eis que não havia lá ninguém. Porque o Senhor fizera ouvir no
arraial dos siros ruído de carros e de cavalos e o ruído de um grande exército;
de maneira que disseram uns aos outros: Eis que o rei de Israel alugou contra
nós os reis dos heteus e os reis dos egípcios, para virem contra nós.Pelo que se
levantaram, e, fugindo ao anoitecer, deixaram as suas tendas, os seus cavalos, e
os seus jumentos, e o arraial como estava; e fugiram para salvar a sua vida.
Chegando,
pois, aqueles leprosos à entrada do arraial, entraram numa tenda, e comeram, e
beberam, e tomaram dali prata, e ouro, e vestes, e se foram, e os esconderam;
voltaram, e entraram em outra tenda, e dali também tomaram alguma coisa, e a
esconderam. Então, disseram uns para os outros: Não fazemos bem; este dia é dia
de boas-novas, e nós nos calamos; se esperarmos até à luz da manhã, seremos
tidos por culpados; agora, pois, vamos e o anunciemos à casa do rei.
Vieram, pois,
e bradaram aos porteiros da cidade, e lhes anunciaram, dizendo: Fomos ao arraial
dos siros, e eis que lá não havia ninguém, voz de ninguém, mas somente cavalos e
jumentos atados, e as tendas como estavam. Então, os porteiros gritaram e
fizeram anunciar a nova no interior da casa do rei.
Levantou-se o
rei de noite e disse a seus servos: Agora, eu vos direi o que é que os siros nos
fizeram. Bem sabem eles que estamos esfaimados; por isso, saíram do arraial, a
esconder-se pelo campo, dizendo: Quando saírem da cidade, então, os tomaremos
vivos e entraremos nela.
Então, um dos seus servos respondeu e disse: Tomem-se, pois, cinco dos cavalos
que ainda restam na cidade, pois toda a multidão de Israel que ficou aqui de
resto terá a mesma sorte da multidão dos israelitas que já pereceram; enviemos
homens e vejamos. Tomaram, pois, dois carros com cavalos; e o rei enviou os
homens após o exército dos siros, dizendo: Ide e vede. Foram após eles até ao
Jordão; e eis que todo o caminho estava cheio de vestes e de armas que os siros,
na sua pressa, tinham lançado fora. Voltaram os mensageiros e o anunciaram ao
rei.
(II Reis 7:1-15)
Corria o
ano de 850 a.C., aproximadamente. Jorão, monarca de Israel, celebriza-se
fatidicamente por ser autor de atos malignos, adotando um comportamento à margem
dos critérios de Deus.
O tempo no qual
as cenas trágicas descritas no capítulo 7 de II Reis ocorrem é extremamente
óbvio: tempo de miséria e de fome. O versículo 24 do capítulo 6 nos mostra a
razão. É que havia um cerco, uma opressão estrangeira, uma forte redução na
produtividade do povo israelita, que se viu sitiado, preso a uma estagnação
econômica absoluta. O sítio estrangeiro teve como conseqüência fome e
improdutividade, pela impossibilidade de se sair ao campo para render o que se
podia render no trabalho, já que estavam aprisionados dentro da própria cidade.
As implicações econômicas conseqüentes resumem-se na mais terrível e angustiante
miséria.
Mas o que se pode
prever como resultado deste sítio estrangeiro é facilmente enumerável em três
itens básicos. Inicialmente, conforme o versículo 25 diz, adveio uma fome
tenebrosa, caracterizada pela elevação assustadora do custo de vida. Registra-se
aí que a cabeça de um jumento ficou a preço de caviar; o esterco de pomba, lá na
feira, atingiu uma especulação absurda em termos comparativos ao que se pedia.
Outro item daquela
situação trágica é a miséria absoluta documentada pelo episódio das duas mães
(vv.28 e 29). Esta é uma narrativa espantosa! Trata-se de duas mulheres
famintas, que propõem cozer um dos dois filhos, e comê-lo. Ao acabar a ração,
cozinhariam o segundo, e assim sobreviveriam por mais algum tempo. Fizeram isto
com o primeiro, mas a paixão materna da outra mulher recusou-se a servir o filho
como opção de alimento para a semana seguinte. É a essa altura que o problema é
levado ao rei.
Essas narrativas a
respeito de uma época tenebrosa nos trazem à mente situação muito próxima a
nossa realidade no mundo atual, quando se sabe que na Etiópia sete milhões de
seres humanos estão sitiados pela miséria, definhando, tornando-se pele e ossos;
na Somália, o desespero leva seres humanos a brigarem por comida misturada ao
lixo; e ainda de maneira mais próxima, no nordeste brasileiro, nossos
conterrâneos famintos já passaram pela experiência de comer camaleão para
sobreviverem; e mais que alguns de nossos concidadãos nas favelas se alimentam
de ratos!
O último item dessa
tragédia, que aparece no v 27, descreve a derrota interior do líder da nação,
que revela o mais absoluto pessimismo, a mais profunda amargura, dor e falta de
opção possíveis. "Se o Senhor não te acode, donde te acudirei eu?", diz ele à
mãe.
A miséria, o
desemprego, a elevação do custo de vida e os conseqüentes dramas familiares, a
desmotivação da liderança e a ação das classes dominantes, que manipulam, que
têm a responsabilidade de imprimir o ritmo das coisas no país, não são um
fenômeno à antiga do reinado de Jorão. Tudo isso faz parte da nossa realidade
cotidiana, das imposições da vida em torno de cada um de nós.
No entanto, em meio a
essa tragédia, Eliseu o homem de Deus, o profeta do Senhor, profetiza que Deus
proporcionaria uma saída para seu povo. Isto está dito no capítulo 7, versículos
1 e 2, onde ele afirma: "Amanhã, a estas horas mais ou menos, a oferta será
maior que a procura. Vai haver abundância. Deus fará um milagre; a situação se
resolverá." Todavia, para que o milagre aconteça, quais são os seres humanos
aptos, capacitados a viver neste tempo? Para se viver no tempo da abundância
basta ser humano. Mas para viver no tempo de calamidade importa ter mais do que
a natural humanidade.
No tempo de crise,
dor, miséria, desemprego; de custo de vida elevado, pânico, perplexidade, quando
não há portas abertas nem saídas, requer-se um homem que tenha mais do que um
otimismo mediano. Pede-se dele um esforço que ultrapasse muitas vezes aquilo que
nossa humanidade natural produz. Quais serão os seres humanos capacitados a
viver neste tempo de crise?
Este texto
ironicamente nos responde. A resposta é extremamente irônica, quase absurda, e
cala tudo quanto possa constituir-se arrogância. Inicialmente, o versículo 3 do
capítulo 7 diz que têm de ser pessoas que sabem o que é padecer. Os heróis desse
tempo de crise não são os soldadinhos de chumbo, os capazes de grandes jogadas
diplomáticas, os grandes homens e potentados da história; são quatro leprosos! E
leprosos, naquele tempo - mais do que no nosso - eram homens estigmatizados,
seres cuja vida era de padecimento, existência de dor, de segregação, de
alienação.
Para vivermos neste
tempo onde tudo se reduz, onde tudo se achata, se esmaga; onde humilhações
acometem pais de família; onde o desemprego é uma realidade; onde a crise
provoca situações enervantes, estressantes, criando nos lares tumultos mentais
terríveis, precisamos saber o que é padecer. Precisamos ser gente que aceita ser
discriminada; gente que admite viver sem status; gente que admite a
realidade de uma vida solitária.
Essa é a lição dos
leprosos. Esses são os leprosos: os discriminados, sem status, solitários
- homens do padecimento, os únicos preparados para enfrentar abertamente a dor,
pois sabem o que é padecer. Num tempo como esse exige-se que nós que vivamos no
espírito de I Coríntios 7:29-31, que diz: "Isto, porém, vos digo, irmãos: o
tempo se abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se não o
fossem, mas também os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram,
como se não se alegrassem; e os que compram como se nada possuíssem; e os que se
utilizam do mundo, como se dele não usassem, porque a aparência deste mundo
passa".
Nesta passagem, a
mensagem que a Palavra de Deus nos traz é de desapego. Para vivermos neste tempo
temos de ter no coração e na alma a força do desapego. Isso me faz lembrar um
amigo que durante quinze anos gerenciou uma multinacional, com capital
estrangeiro, trabalhando com equipamentos eletrônicos aqui no Brasil. A empresa
cresceu, expandiu-se, entrou no ramo de computadores, tornou-se enorme, e ele
ocupando um alto cargo, de extrema importância. Depois de alguns anos chegou à
conclusão de que poderia ele mesmo estabelecer seu próprio negócio no ramo.
Mudou-se então para outra cidade, indo muito bem no princípio. Estabeleceu-se
ali com o maior capricho e conforto, num bom escritório, negociando com
componentes eletrônicos, computadores e toda a moderna parafernália para o bom
desempenho dos negócios. Na verdade ele ia de vento em popa; jamais teria
sonhado tanto.
De repente, quando a
crise acometeu a nação, ele foi atingido. Seu negócio começou a dar marcha à ré,
e entrar no redemoinho do dilúvio, até que soçobrou. Viu-se subitamente
destituído de tudo - sem o antigo emprego e sem capital - tendo de viver numa
situação humilhante na praça, no mercado. Resolveu então voltar para a cidade de
onde saíra. Agora, batendo de porta em porta, à procura de emprego, não sabia o
que fazer: a família insegura, filhos crescendo, os meses passando.
Mas esse homem
encontrou um caminho para responder a sua realidade. Aproximando-se da esposa,
disse-lhe: "Faça bolinhos de bacalhau". A mulher passou a encher bandejas desses
bolinhos, que ele oferecia pelas praias. Tabuleiros e tabuleiros foram
consumidos. E ele declarando: "Enquanto não puder voltar à situação que tinham,
não vão passar fome!" Fez isso durante meses. Mandou aumentar a mesa da copa; a
mulher agora fazia bolinhos em série; bandejas e bandejas que ele levava à praia
para vender. Aquele homem, com esse ir e vir de trabalho, conseguiu manter
dignamente a família, sair de todas as situações dramáticas e deprimentes,
estabelecendo-se por fim num sólido negócio, no qual veio a prosperar.
Para enfrentar este
tempo os homens têm de ser de fibra, gente que tem em si a força do desapego, e
que sabe o que é padecer. Caso contrário, o que sobram são estilhaços, nada
mais, das imensas pedras.
O texto também ensina
que para viver neste tempo as pessoas têm de entender que a ação é a única
maneira digna de se enfrentar a morte. A indolência, a morbidez, a apatia,
os braços cruzados, a negligência, a indiferença, a preguiça, a derrota sem luta
são indignos. O versículo 3 diz que aqueles homens perguntaram a si mesmos:
"Para que estaremos nós aqui até morrermos? Se vamos morrer, vamos então
enfrentar a morte com ação." Morrer sentado na indiferença é morrer
indignamente. A única forma de se enfrentar a tragédia é com ação. Ação de amor
à vida, ação de luta contra o mal, ação de serviço é a única maneira digna de se
enfrentar situações deprimentes e difíceis.
Quando eu tinha uns
doze anos de idade, fui convidado por meu pai a visitar um adversário seu, um
homem contra quem ele advogava uma causa. Vencida esta, estava determinado que
pagasse o que devia. Tratava-se de uma questão comercial: ele havia comprado
muita coisa do cliente de meu pai, falira e não repusera o valor da compra.
Paramos à porta da
loja, entramos e demos com aquele homem corpulento, prematuramente calvo, os
poucos cabelos embranquecendo, com um ar de extremo desânimo. Meu pai expôs-lhe,
então, as razões de sua visita. Ao ver-lhe lágrimas nos olhos, papai, que se
convertera meses antes, compadeceu-se tremendamente dele. Disse então a si mesmo
que não tinha condições de prensar contra a parede um homem que estava vivendo
em circunstâncias tão difíceis.
Penalizado,
disse-lhe: "Esqueça, por favor, que sou advogado. Esqueça que vim aqui para
fazer cobranças. Deixe-me falar-lhe de Jesus." E começou a falar-lhe da graça de
Deus, do amor de Cristo, de como Jesus poderia encher-lhe a vida, dar-lhe força
na adversidade. O homem chorou muito, chamou a esposa, o filho mais velho, e
juntos oramos.
No domingo, meu pai o
levou à igreja; no segundo também; e ele acabou se decidindo por Jesus Cristo.
Aquele homem deprimido, destruído, aprendeu que a única maneira digna de
enfrentar a morte é com ação. Foi à luta! Saiu em busca de emprego.
Tendo um certo nível
de conhecimento, tinha capacidade para gerenciar. Resolveu então procurar uma
empresa. Falando com o diretor, disse-lhe: "Eu queria um cargo. Trabalho com
chefia de seções, chefia do setor de pessoal etc..." Foi abrindo o leque de
opções de serviço. O diretor lhe disse: "Reconheço que o senhor tem um bom
currículo, mas infelizmente não estamos precisando desse tipo de serviço, nem
estamos interessados." Ele então ajuntou: "O senhor tem interesse em algum tipo
de serviço? Tem algum tipo de serviço para um homem honesto?" O homem respondeu:
"Sim, tenho, mas não para um homem do seu porte na vida. Tenho vaga para vigia
noturno". Ele disse: "Obrigado".
Então se despediu, o
diretor fechou a porta, mas pouco depois ele batia de volta. O homem disse do
outro lado: "Pode entrar." Aparece nosso amigo, sem paletó, sem gravata, mangas
arregaçadas, e diz: "Eu vim aceitar o emprego. Fui só mudar o jeito de vestir."
Isso aconteceu por
volta de 1968. Ele me disse que aquele diretor ficou tão impressionado que
declarou: "Um homem que tem a coragem que o senhor tem precisa ter um lugar de
chefia na minha indústria". E o colocou na posição da qual ele desistira.
Sim, a
única maneira de se enfrentar a morte com dignidade é com ação! Para viver neste
tempo, ainda diz o texto que importa que as pessoas entendam que a vida só
tende a melhorar. É o que diz o versículo 4: "Se nós entrarmos na cidade, há
fome na cidade morreremos lá. Se ficarmos sentados aqui, também morreremos.
Vamos então ao arraial do inimigo. Se nos deixarem viver, viveremos; se nos
matarem, apenas morreremos."
Do ponto em que
está, só tende a melhorar... O cristão, mais do que qualquer outro ser na vida,
pode viver esse projeto de existência. Porque a vida dele é a vida de um
sentenciado à morte; ele é alguém que carrega uma cruz, que abriu mão de bens,
valores, posição, de status; sua obsessão é o Reino de Deus. Romanos 6.12 diz
que ele tem de se considerar morto para o pecado, as paixões, o mundo, tudo,
enfim. Mas no nome de Deus ele vive aqui, e num certo sentido é o ser mais vivo
da Terra, paradoxalmente o mais morto do planeta. Paulo diz que ele é o lixo do
mundo, a escória de todos, a reação da bênção à força das maldições. É
ser morto para ser vivo em Cristo Jesus. Perde-se a vida para achá-la em Cristo.
Para o
cristão, essa é a atitude mais fácil: "Se ficar sentado aqui eu morro; se entrar
na cidade, morro também. Portanto, deixe-me enfrentar a vida. Se me matarem,
morro; se não me matarem, vivo." Só tende a melhorar, daqui para a frente! Isso
porque para o cristão a morte está encurralada: "O viver é Cristo e o morrer é
lucro!"
Somente quem já
morreu para esta vida tem condições de vivê-la com otimismo. Só quem não
considera como bens os bens deste mundo tem a coragem de se aventurar. Somente
os que já estão mortos é que têm a possibilidade de enfrentar a morte com
coragem. Apenas os que sabem, admitem, confiam em que todas as coisas cooperam
conjuntamente para o bem daqueles que amam a Deus reagem corajosamente à vida.
Por último, para
viver este tempo as pessoas têm de entender o "kairós" de Deus - o
tempo de Deus, o tempo da oportunidade, o tempo próprio, nevrálgico; o tempo
da conivência divina. Só os que entendem o tempo de Deus, a hora de Deus, é que
podem viver nesta conjuntura. O versículo 5 nos diz que depois que fizeram esta
reflexão, eles se levantaram ao anoitecer. Poderiam ter esperado o amanhecer.
Levantaram-se, porém, no tempo impróprio, humanamente falando: o sol se pusera,
a noite chegara, quando se dispuseram e foram.
O tempo de Deus nem
sempre é o melhor tempo, do ponto de vista humano. Ele, às vezes, vem vestido
com a cor do absurdo, do improvável. Contudo, para vivê-lo temos de ter no
coração discernimento, de modo a descobrir, em meio ao improvável, as
probabilidades da vontade de Deus, da hora de Deus, da urgência de Deus, do dia
"D" de Deus para nossa vida. Isso pode muitas vezes acontecer contra tudo e
todos, contra qualquer situação, contra a noite, contra a tribulação. Porque o
tempo de Deus vem não raras vezes numa hora humanamente ridícula. Mas quando é a
hora de Deus o milagre acontece!
Esses são
os homens, as mulheres, os seres humanos aptos a enfrentarem uma hora como esta.
Mas preste atenção: Que faz Deus por esses que têm coragem de agir no tempo
da calamidade? Que faz ele em favor desses cujo destemor se manifesta
através das tragédias circunstantes? Que faz em favor desses de espírito
indômito, que pela fé aceitam a guerra e os conflitos da vida? Os versículos 5 e
7 nos respondem. O 5 diz que eles - os leprosos, os inválidos, os débeis, os
improváveis, os derrotados aos olhos dos homens - "levantaram-se ao anoitecer'.
E diz o v 7 que os inimigos "fugiram ao anoitecer". Já imaginou a simultaneidade
dessas ações? Os leprosos se levantam ao anoitecer, e os inimigos, por sua vez,
fogem quando eles se levantam.
Deus manifesta uma
ação simultânea. Quando esses fracos se levantam com fé, com esperança em
nome do Senhor, em nome do Deus da vida e da sobrevivência, Deus se levanta
adiante deles. Aleluia! É a vitória do fraco. É a graça de Deus que se
aperfeiçoa na fraqueza. É a glória do nome do Senhor, que resolve se revelar nos
pequenos, nos fracos, nos humildes, nos débeis e naqueles que não são, para
reduzir a nada aqueles que são ou pensam que são. É o Deus batalhador, Deus
guerreiro, o Deus que peleja por aqueles que nele confiam. Eles se levantam e
Deus ergue-se diante deles. Faz ouvir tropel de exércitos; faz ouvir cascalhar
de rodas de carros; faz ouvir a terra tremer. Apavora o coração dos soberbos.
Estremece a alma dos dominadores, que fogem, deixando para trás mulas,
jumentas, carros, roupas, instrumentos de guerra, tendas, víveres, cereais,
tudo! Deixando como herança para os fracos seus próprios despojos. "Deus
alimentou os fracos e despediu vazios os arrogantes", disse Maria no seu cântico
magnífico.
Hoje, quem
sabe, é o dia e a hora de você ficar de pé, sair de seu abatimento, sua derrota,
sua depressão; sair desse quadro terrível de acomodação; expulsar de dentro de
si a visão sombria; exorcizar os demônios do medo que tomam conta da sua mente;
extirpar da lama esses pensamentos que impõem derrota. Quem sabe este é o dia de
você - frágil, débil, derrotado aos olhos dos homens e do mundo - ficar de pé em
nome de Deus? Pode ser que seja escuro, improvável, mas se for hora de Deus não
haverá opositor que lhe resista! Haverá uma ação simultânea. Deus fará complô
com você; será seu aliado - louvado seja o nome do Senhor!
Concluindo: já
vimos quem são os homens desta hora. Já vimos o que Deus fez em favor deles.
Vamos ver agora qual será a atitude dos que receberam o benefício de Deus nos
tempos da calamidade. Porque Deus nunca abençoa, favorece, beneficia, sem
que isso traga implicações. Quais devem ser as atitudes desses a quem o Senhor
beneficia no tempo da calamidade?
Primeiro, o
versículo 8 diz que eles devem tomar posse do que Deus lhes dá. Os
leprosos entraram de tenda em tenda e tomaram posse de tudo. Que ironia! É o dia
da caça, não do caçador. É o dia dos leprosos! Tome posse! Pode ser uma pequena
oportunidade, como a daquele homem que aceitou ser vigilante noturno. Tomou
posse! É algo, pegue! É o bolinho de bacalhau, segure! Tome posse do que Deus
lhe está dando.
E mais: eles
devem avaliar a sua responsabilidade, diz o v 9: "Este dia é dia de
boas-novas. Nós não estamos fazendo bem. Nós nos apoderamos sozinhos daquilo que
pode manter a vida". Quando Deus nos abençoa no tempo da calamidade, tanto
quanto a bênção que ele coloca diante de nós, cresce nossa responsabilidade.
Quem tem, numa época em que ninguém tem, tem para ter com extrema
responsabilidade, generosidade e altruísmo.
Por último,
eles decidem partilhar com outros o que receberam: vieram e bradaram aos
porteiros da cidade. Dividiram, compartilharam! (v. 10) Não é preciso ser
adivinho, profeta ou sábio para entender que muitos à nossa volta, numa ou
noutra área, de uma forma ou de outra, sofrem junto com a legião dos que sofrem
neste país sofrido, numa hora difícil. Sofrimentos variados: econômico,
profissional, quem sabe na área emocional, física ou psicológica. As variedades
que podem acometer em termos de dor uma infinidade de pessoas que cruzam conosco
- incógnitos, anônimos - são inúmeras. Mas a receita de Deus é a mesma. Sua
promessa é idêntica: "Levante-se com fé e andarei à sua frente". As implicações
são iguais e os resultados também. Aprenderemos a viver uma vida que seja, em
si, uma resposta à calamidade.

Extraído do livro “Resposta à
Calamidade”, de Caio Fábio. Ed. Vinde, 1995. Capítulo 1.

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