VIVER NÃO CANSA
Autor:
Ricardo Gondim

Viver não cansa, o que fatiga são as perguntas
imbecis de quem não quer ter opinião própria, os comentários emburrecedores de
quem não gosta de pensar, as lógicas dos religiosos que adoram encabrestar e
serem encabrestados.
Viver não cansa, o que exaure é precisar debater
com quem só lê a ‘Veja’; é ter que ouvir a opinião de quem adora o Diogo
Mainardi; é ter que debater com quem aprendeu toda a Verdade com o Max Lucado e
se acha apto para converter o mundo islâmico.
Viver não cansa, o que desespera é ter que calar
diante das vaidades maquiadas como piedade; é ter que respeitar os narcisismos
travestidos de desprendimento; é ter que fazer vista grossa diante dos escroques
de colarinho clerical: “porque eles também podem estar ganhando almas e
despovoando o inferno”.
Viver não cansa, o que chateia é ter que explicar
para fariseus de plantão que beber um cálice de vinho não significa automática
embriaguez, que dançar a valsa na formatura da filha não é pactuar com o mundo;
é ter que arrazoar com analfabetos funcionais para mostrar-lhes que não existe
diferença entre música cristã e do mundo (Só existe música boa ou ruim!).
Viver não cansa, o que amarga é ter que ficar
calado diante dos maiores descalabros éticos, “porque a igreja ‘X’ está
crescendo e o que importa são os resultados”; é ter que assistir a um monte
de gente se esforçando para jogar a dignidade do Evangelho pelo ralo e precisar
engolir seco porque: “aquela igreja 'X' é como um hospital de emergência onde as
pessoas se convertem, mas depois procuram as igrejas sérias”.
Viver não cansa, o que horroriza é conseguir
detectar as agendas escondidas dos Benny Hinns da vida, a volúpia por
poder dos que vivem das politicagens denominacionais, os cinismos teológicos dos
evangelistas triunfalistas e ainda assim precisar explicar-se porque não
participa de eventos, de marchas e de conferências ao lado deles: “já que o
Corpo de Cristo não pode se dividir”.
Viver não cansa, o que exaure é ver as igrejas
lotadas de incautos em busca de um Mega Milagre porque: “ao fazerem a sua parte,
Deus ficará obrigado a fazer a dele”; é saber que cada campanha de oração que
“vai destrancar os cadeados do céu”, na verdade, foi projetada para arrancar
mais dinheiro dos simples; é notar que muitos nas elites religiosas não diferem
em nada dos políticos que só sabem defender seus interesses.
Viver não cansa, o que debilita é ter que lidar
com a fofoca de quem não tem brilho próprio; é ter que admitir que vários fazem
do sacerdócio um jeito de progredir com um esforço mínimo; é saber que a
indústria da “música gospel” fatura em cima da vaidade de cantores que jamais
dariam certo fora das igrejas e que, para compensar a falta de talento, vivem a
fazer biquinhos, vertendo lágrimas forçadas.
Viver não cansa, realmente, não cansa.
Faz bem à alma lidar com jovens grávidos de sonhos, com mulheres íntegras, que
não medem esforços para acolher os esquecidos e com anciãos que destilam uma
sabedoria acumulada pela experiência.
Os poetas com suas intuições, os músicos com suas
percepções, os professores com sua erudição, os pastores com sua dedicação,
continuam a encantar.
Os atletas com sua disciplina, os profetas com sua veemência, os missionários
com sua coragem, são um bálsamo que cura as feridas da desesperança.
Viver é tão bom que dá ganas de continuar,
continuar...

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