O
LIVRO DOS MÁRTIRES
John Foxe



(Capa
de outra edição)
O LIVRO DOS MÁRTIRES
John Foxe
O Livro dos Mártires de John Foxe é um dos mais
famosos livros da literatura Protestante.
Escrito por John Foxe e publicado pela primeira vez em
latim, em 1559, e depois em inglês, em 1563.
Expõe a história de sofrimento e perseguição de
mártires famosos como John Wycliffe, John Huss,
William Tyndale, Martinho Lutero, Thomas Cranmer,
começando pelo próprio Jesus Cristo e até o
final do reinado de Maria I (chamada pelos
protestantes de Maria Sanguinária, devido às
perseguições que sofreram durante o reinado
dela), e outros, muitos deles desconhecidos da
maioria dos evangélicos brasileiros.
O Livro dos Mártires moldou por séculos a consciência
religiosa da Inglaterra. O livro contém uma
severa crítica ao catolicismo e busca dar apoio
à Igreja da Inglaterra, que fez o possível para
colocar uma cópia dele em todas as paróquias do
país.
Um clássico da literatura mundial, ignorado até
pouco tempo pelos cristãos do Brasil.
Por que ler esta obra em pleno século 21? Infelizmente
o tema do martírio religioso recusa-se a ser
relegado aos arquivos da História. É assunto tão
contemporâneo quanto as manchetes de hoje.
Cristãos em diversos países hoje vivem e
defendem a sua fé sob a ameaça de morte. Muitos
acabam pagando o preço máximo. E cada uma dessas
mortes suscita uma interrogação na consciência
de todo cristão: o que eu faria no seu lugar?
A reflexão inspirada pela morte dos mártires
pode nos levar ao cerne da nossa fé.

Sobre o Autor:

John Foxe
1517 - 1587
John
Foxe foi um dos mais influentes escritores da
Reforma na Inglaterra. Durante quarenta anos,
entre 1547 e a sua morte, ele produziu cerca de
quarenta obras, em Inglês e latim.
No entanto, tornou-se conhecido
principalmente por apenas um deles,
este que aqui disponibilizamos para sua
edificação.
John Fox (ou
Foxe) nasceu em Boston, no condado de Lincolnshire (Inglaterra) em 1517, onde se
diz que seus pais viviam em circunstâncias respeitáveis. Ficou órfão de pai numa
idade precoce, e apesar de que sua mãe logo voltou casar, permaneceu sob teto
paterno. Por sua precoce exibição de talento e disposição para o estudo, seus
amigos sentiram-se impelidos a enviá-lo a Oxford, para cultivá-lo e levá-lo à
maturidade.
Durante sua
residência em Oxford, se distinguiu pela excelência e agudeza de seu intelecto,
que melhorou com a emulação de seus companheiros de estudos, junto com um zelo e
atividade incansáveis. Estas qualidades cedo lhe ganharam a admiração de todos,
e como recompensa pelos seus esforços e conduta gentil foi escolhido
"Companheiro" do Magdalen College, o que era considerado como uma grande honra
na universidade, e que poucas vezes era concedido: só em casos de grande
distinção. A primeira exibição de seu gênio foi na poesia, e compus algumas
comedias latinas, que ainda existem. Mas logo dirigiu sua atenção a uma questão
mais séria, o estudo das Sagradas Escrituras: e a verdade é a que se aplicou à
teologia com mais fervor que prudência, e descobriu sua parcialidade para a
Reforma, que então tinha começado, antes de conhecer os que a apoiavam, ou os
que a tinham protegido. E esta circunstância veio a ser a origem de seus
primeiros problemas.
Diz-se que
afirmou em muitas ocasiões o que primeiro que o levou a seu exame da doutrina
papista foi que viu diversas coisas muito contraditórias entre si impostas sobre
os homens ao mesmo tempo; por esta razão sua resolução e esforço de obediência à
Igreja sofreram uma certa sacudida, e gradativamente se estabeleceu um desagrado
para o resto.
Seu primeiro
cuidado foi pesquisar a história antiga e a moderna da Igreja; determinar sua
origem e progresso; considerar as causas de todas aquelas controvérsias que
tinham surgido no intervalo, e sopesar diligentemente seus efeitos, solidez,
fraqueza, etc.
Antes de chegar
aos trinta anos tinha estudado os pais gregos e latinos, e outros autores
eruditos, as transações dos Concílios e os decretos dos consistórios, e tinha
adquirido um conhecimento muito competente da língua hebraica. A estas
atividades dedicava freqüentemente uma parte considerável da noite, ou até a
noite inteira; e a fim de relaxar sua mente depois de um estudo tão incessante,
acudia a um bosque perto do colégio, lugar muito freqüentado pelos estudantes no
final da tarde, devido a sua recôndita escuridão. Nestes passeios solitários
freqüentemente o ouviam emitir profundos soluços e suspiros, e com lágrimas
derramar suas orações a Deus. Estes retiros noturnos, posteriormente, deram
origem às primeiras suspeitas de seu afastamento da Igreja de Roma. Pressionado
para dar uma explicação de sua conduta, rejeitou inventar desculpas: expôs suas
opiniões e assim, por sentença do colégio, foi declarado convicto, condenado
como herege e expulso.
Seus amigos, ao
conhecerem o fato, sentiram-se profundamente ofendidos, e lhe ofereceram, quando
tinha assim rejeitado os seus, um refúgio em casa de Sir Tomás Lucy, de
Warwickshim, aonde foi chamado como preceptor de seus filhos. A casa está perto
de Stmatford-on-Avon, e foi este lugar que, poucos anos depois, foi cena das
tradicionais expedições de pesca clandestina do menino Shakespeare. Fox morreu
quando Shakespeare tinha três anos.
Posteriormente,
Fox se casou na casa de Sir Lucy. Mas o temor dos inquisidores papistas os fez
fugir rápido dali, porquanto não se contentavam com castigar delitos públicos,
mas começavam também a meter-se nos segredos particulares de famílias. Começou a
considerar o que devia fazer para livrar-se de maiores inconvenientes, e
resolveu dirigir-se à casa de seu sogro.
O pai de sua
mulher era cidadão de Coventry, e suas simpatias não estavam contra ele, e era
provável que o pudesse persuadir, por causa de sua filha. Resolveu primeiro ir à
casa dele, mas antes, mediante cartas, ver se seu sogro o receberia ou não.
Assim fez, e como resposta recebeu a seguinte mensagem: "Que parecia-lhe difícil
aceitar em sua casa alguém que sabia que era culpável e que estava condenado por
um delito capital; e que tampouco ignorava o risco em que incorreria ao
aceitá-lo; não obstante, agiria como parente, e relevaria seu próprio perigo. Se
mudasse de idéia, podia acudir, sob a condição de que ficaria tanto tempo como
desejar; mas se não podia persuadir-se, que devia contentar-se com uma estadia
mais breve, e não pôr em perigo nem a ele nem a sua mãe".
Não se devia
rejeitar nenhuma condição; além disso, foi secretamente aconselhado por sua
sogra a acudir, e para não temer a severidade de seu sogro, "porque talvez era
necessário escrever como o fazia, mas se se der a ocasião, compensaria suas
palavras com ações". De fato, foi melhor recebido por ambos do que havia
esperado.
Deste modo se
manteve oculto durante um certo tempo, e depois empreendeu viagem a Londres,
durante a última parte do reinado de Henrique VIII. Sendo desconhecido na
capital, encontrou-se frente a muitas dificuldades, e até ficou reduzido ao
perigo de morrer de fome, se a Providência não se tivesse interposto em seu
favor da seguinte forma:
Um dia, estando
Fox sentado na Igreja de São Paulo, esgotado após longo jejum, um estranho
sentou-se a seu lado e o cumprimentou cortesmente, colocando uma soma de
dinheiro em sua mão e exortando-o a recuperar o bom ânimo. Ao mesmo tempo o
informou que depois de poucos dias se abririam a ele novas expectativas para seu
futuro mantimento. Nunca pôde saber quem era o estranho, mas depois de três dias
recebeu um convite da Duquesa de Richmond para encarregar-se da educação dos
filhos do Conde de Surrey, que estava encarcerado na Torre, junto com seu pai, o
Duque de Norfolk, pelos ciúmes e a ingratidão do rei. Os filhos assim confiados
a seu cuidado foram Tomás, que sucedeu no ducado; Henry, depois Conde de
Northampton; e Jane, que chegou a ser Duquesa de Westmoreland. E no cumprimento
destes deveres deu plena satisfação à duquesa, a tia dos meninos.
Estes dias de
calma prosseguiram durante a última parte do reinado de Henrique VIII e os cinco
anos do reinado de Eduardo VI, até que Maria herdou a coroa, e, pouco depois de
sua chegada, deu todo o poder aos papistas.
Por esse tempo
Fox, que ainda estava sob a proteção de seu nobre pupilo, o duque, começou a
suscitar a inveja e o ódio de muitos, particularmente do doutor Gardiner, que
era então Bispo de Winchester, e que posteriormente chegou a ser seu maior
inimigo.
Fox percebeu
isto, e vendo que começava uma terrível perseguição, começou a pensar em
abandonar o reino. Tão pronto como o duque conheceu suas intenções, tentou de
persuadi-lo para permanecer ali, e seus argumentos foram tão poderosos e
expressados com tanta sinceridade que abandonou o pensamento de deixar seu asilo
por enquanto.
Naquele tempo o
Bispo de Winchester tinha uma grande amizade com o duque (tendo sido pelo apoio
de sua família que havia negado a dignidade da qual então gozava), e
freqüentemente o visitava para apresentar seu serviço, quando pediu várias vezes
poder ver seu antigo tutor. No princípio o duque negou a sua petição, alegando
numa ocasião sua ausência e outra vez, indisposição. No final aconteceu que Fox,
não sabendo que o bispo estava em casa, entrou na sala em que o duque e o bispo
estavam conversando; porém, ao ver o bispo, retirou-se. Gardiner perguntou de
quem se tratava, respondendo o duque que era "seu médico, que era algo rude,
sendo recém chegado da universidade". "Gostei de sua cara e de seu aspecto",
respondeu o bispo, "e quando tiver ocasião o farei chamar". O duque entendeu
estas palavras como presságio de um perigo iminente, e considerou que era hora
de que Fox abandonasse a cidade, e inclusive o país. Assim, fez preparar tudo o
necessário para sua fuga em secreto, enviando um de seus servos a Ipswich para
alugar uma nave e fazer todos os preparativos para a partida. Também arranjou a
casa de um de seus servos, um granjeiro, para alojamento até que o vento fosse
favorável. Tudo disposto, Fox despediu-se de seu nobre protetor, e com sua
mulher, que então estava grávida, partiu em segredo rumo à nave.
Apenas se
tinham alçado a vela quando sobreveio uma violenta tempestade, que durou todo o
dia e toda a noite, e que no dia seguinte os empurrou de volta para o mesmo
porto de onde tinham partido. Durante o tempo em que a nave esteve no mar, um
oficial, enviado pelo bispo de Winchester, tinha irrompido na casa do camponês
com uma ordem de arresto contra Fox ali onde estivesse, para devolvê-lo à
cidade. Ao saber das notícias, o granjeiro alugou um cavalo, sob a aparência de
partir de imediato da cidade; porém voltou secretamente aquela mesma noite, e
fez acordo com o capitão da nave que zarpasse rumo a qualquer lugar assim que o
vento mudasse, somente desejando que saíssem, sem duvidar que Deus prosperaria
sua empresa. O marinheiro aceitou, e depois de dois dias seus passageiros
desciam em terra, sãos e salvos, em Nieuport.
Depois de
passar uns poucos dias naquele lugar, Fox empreendeu viagem rumo a Basiléia,
onde encontrou um grupo de refugiados ingleses que tinham abandonado seu país
para evitar a crueldade dos perseguidores, e se associou a eles e começou a
escrever sua "História dos Atos e Monumentos da Igreja", que foi publicada
primeiro em latim em Basiléia, em 1554, e em inglês em 1563.
Durante aquele
intervalo, a religião reformada voltou a florescer na Inglaterra, e a decair
muito a facção papista após a morte da Rainha Maria. Isto induziu a maioria dos
exilados protestantes a voltar ao seu país natal.
Entre outros,
ao aceder Elisabete no trono, também voltou Fox. Ao chegar, achou em seu
anterior pupilo, o Duque de Norfolk, um fiel e ativo amigo, até que a morte o
privou de seu benfeitor. Depois deste acontecimento, Fox herdou uma pensão que o
duque havia-lhe legado, e que foi ratificada por seu filho, o Conde de Suffolk.
E não se deteve
aqui o bom sucesso de Fox. Ao ser recomendado à rainha pelo seu secretário de
estado, o grande Cecil, sua majestade o nomeou assessor de Shipton, na catedral
de Sallsbury, o qual foi de certo modo obrigado a aceitar, porque foi muito
difícil de ser convencido a isso.
A voltar a
instalar-se na Inglaterra, dedicou-se a revisar e ampliar seu admirável
Martirológio. Com um cuidado prodigioso e um estudo constante terminou a sua
célebre obra em onze anos. tratando de alcançar uma maior correção, escreveu
cada linha deste extenso livro por si mesmo, e transcreveu sozinho todos os
registros e documentos. Porém, como conseqüência de um trabalho tão fervoroso,
ao não deixar parte de seu tempo livre de estudo e não se permitir nem o mínimo
recreio que a natureza reclama, sua saúde ficou tão reduzida, e tão consumido e
alterado, que aqueles amigos e parentes seus que só o viam de tanto em tanto mal
podiam reconhecê-lo. mas, embora cada dia se esgotava mais, prosseguiu com seus
estudos com tanta diligência como costumava, e ninguém pôde persuadi-lo a
reduzir o ritmo de seus trabalhos. Os papistas, prevendo o prejudicial que seria
para a causa deles aquela história de seus erros e crueldades, recorreram a
todas as artimanhas para rebaixar a reputação de sua obra; porém sua malícia
acabou sendo favorável tanto para o próprio Fox como para a Igreja de Deus em
geral, porquanto fez com que o livro fosse intrinsecamente mais valioso, ao
induzir a sopesar, com a mais escrupulosa atenção, a certeza dos fatos que
registrava, e a validade das autoridades das que obtinha sua informação.
Mas em quanto
se achava assim infatigavelmente dedicado a impulsionar a causa da verdade, não
descuidou por isso os outros deveres de sua posição; era caridoso, compassivo e
solícito ante as necessidades tanto espirituais como temporais de seus próximos.
Visando ser útil de modo mais extensivo, embora não tinha desejos de cultivar a
amizade dos ricos e dos poderosos a seu próprio favor, não declinou a amizade
daqueles que a ofereciam desde as mais elevadas posições e nunca deixou de
empregar sua influência entre eles em favor dos pobres necessitados. Como
conseqüência de sua probidade e caridade bem conhecidas, foram freqüentemente
entregues somas de dinheiro por parte de pessoas ricas, dinheiro que aceitava e
distribuía entre os que padeciam necessidades. Também acudia ocasionalmente à
mesa de seus amigos, não tanto em busca de prazer como por cortesia, e para
convencê-los de que sua ausência não era ocasionada por temor a expor-se às
tentações do desejo. Em resumo: seu caráter como homem e como cristão era
irrepreensível.
Embora as
recentes lembranças das perseguições sob Maria a Sanguinária agregaram amargor a
sua pluma, é de destacar que ele era pessoalmente o mais conciliador dos homens,
e embora rejeitasse de coração a Igreja de Roma na qual tinha nascido, foi um
dos primeiros em tentar a concórdia dos irmãos protestantes. De fato, foi um
verdadeiro apóstolo da tolerância.
Quando a peste
açoitou a Inglaterra em 1563, e muitos abandonaram seus deveres, Fox permaneceu
em seu posto, ajudando os desvalidos e agindo como "portador- de esmolas" dos
ricos. Se disse dele que jamais pôde refutar ajuda a ninguém que o pedir em nome
de Cristo. Tolerante e com um grande coração, exerceu sua influência perto da
Rainha Elisabete para confirmá-la em sua intenção de manter a cruel prática de
dar morte aos que mantiverem suas convicções religiosas contrárias. A rainha
tinha-lhe em grande respeito, e se referia a ele como "Nosso Pai Fox".
Fox teve gozo
nos frutos de sua obra enquanto ainda vivia. Seu livro viu quatro grandes
edições antes de sua morte, e os bispos deram ordem de que fosse colocado em
cada igreja catedral da Inglaterra, onde amiúde estava acorrentado, como a mesma
Bíblia naqueles tempos, num tripé, ao qual tinha acesso o povo.
No final, tendo
brindado longo serviço tanto à Igreja como ao mundo mediante seu ministério por
meio de sua pluma, e pelo brilho impecável de uma vida benevolente, útil e
santa, entregou humildemente sua alma a Cristo, em 18 de abril de 1587, aos
setenta anos de idade. Foi sepultado no presbitério de St. Giles, em Cripplegate,
paróquia na qual tinha sido vicário durante certo tempo, no começo do reinado da
rainha Elisabete.
