:. APOSTILA ÉTICA CRISTÃ

 


SEP - SEMINÁRIO EVANGÉLICO DE PATOS

ÉTICA CRISTÃ

Prof. Pr. Edson Poujeaux Gonçalves

 

Disciplina:                   ÉTICA CRISTÃ

Dept.                           Teologia Sistemática

C.H.Semanal: 02h

C.H.Total:                   30h

Créditos:                     02

 

Ética Cristã

 

1 - Ementa:    

                        Conceitos Básicos da Ética e contornos da Ética Cristã

II – Objetivos:

                        * Introduzir o aluno aos conceitos abordados pela Ética

                        * Estudar a base bíblica da Ética Cristã.

III – Conteúdo Programático:

            Unidade I – A Ética – Conceituações

* O Objetivo da Ética

                        - O Campo da Ética

                        - O Objetivo da Ética

                        - Problemas Morais e Problemas Éticos

                        - Ações do Homem e Ações Humanas

 

            Unidade II – Ética Cristã

* Definição da Ética Cristã

* Ética no Antigo Testamento

* Fundamentos da Ética no AT

- O caráter ético de Deus

- A natureza moral do homem

- A Lei de Deus

- Os Dez Mandamentos e a Lei Mosaica

- Ética nos Profetas

 
* Ética no Novo Testamento

-A ética nos evangelhos, nos escritos paulinos e nos outros escritos


Unidade III – Ética Aplicada

            * Visão Geral das Abordagens Éticas

            * Princípios da Ética Cristã

 

            * Algumas Questões Éticas Contemporâneas:

                        - O Cristão e o Aborto

                        - O Cristão e a Sexualidade

                        - O Cristão e o Divórcio

                        - O Cristão e a Pena de Morte

                        - O Cristão, a Eutanásia e o Suicídio

                        - O Cristão, os Transplantes e a Doação de Órgãos

                        - O Cristão, os Vícios e os Jogos

                        - O Cristão e a Política

                        - O Cristão e a Clonagem de Seres Humanos/ Células Tronco

                        - O Cristão e a Homofobia: casamento entre pessoas do mesmo sexo; adoção de

  crianças por homossexuais; pastores gays; igrejas para gays e lésbicas, etc.

 

 

IV Avaliação:

    Duas provas escritas e um trabalho individual

 

V Metodologia:

   Exposições didáticas, trabalhos em grupo e debates.

 

VI – Bibliografia: Ver na última página

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEP - SEMINÁRIO EVANGÉLICO DE PATOS

ÉTICA CRISTÃ

Prof. Pr. Edson Poujeaux Gonçalves

 

 

INTRODUÇÃO

 

CERTO OU ERRADO? DEPENDE

 

   Um adolescente perguntou ao outro, na escola: “Quem é seu pai?”, o que fez o colega enrubescer e ter dificuldade para responder. É que o rapazinho vive em companhia de sua mãe, que é lésbica, e esta, por sua vez, mora com uma mulher.

   Ao rapaz é ensinado que a união de pessoas do mesmo sexo é algo muito natural, normal, e há quem diga que é a forma de amor mais elevada que existe no mundo! Mas, na pratica, esse tipo de relação é ridicularizado por muitas pessoas, o que fez o rapazinho ficar envergonhado. Em torno dessa e de outras questões aflora o conflito entre o que é certo e o que errado.

   Já vivendo em pleno século XXI, a humanidade esta vivenciando uma era de relativismo exacerbado. O certo e o errado são conceitos que não fazem muito sentido para o homem da era pós-moderna. Tudo depende da pessoa, do tempo e do lugar.

   E mais que isso, o indivíduo é induzido a decidir sobre o que é certo ou errado, a seu critério, de modo individualista e subjetivo a todo o momento. Os programas de TV, por exemplo, “Você Decide”, estão na moda, com grande audiência por parte do público telespectador. Se a questão é posta diante de um ateu, de um dito agnóstico, ou de um religioso não-cristão, talvez ele se posicione ao lado dos que acham que tudo deve ser visto de modo natural, sem preconceito, etc.

   Uma revista de circulação nacional apresentou extensa reportagem, enfocando duplas de homossexuais, masculinos e femininos, em companhia de crianças por eles adotados, de modo irregular, pois no pais ainda não é legal a adoção e registro de crianças por pessoas do mesmo sexo. Vê-se sem muito esforço que a finalidade da matéria é passar para os leitores a idéia de que o homossexualismo é algo normal e que é perfeitamente natural que, não tendo filhos biológicos, passem a buscar filhos adotivos, com já acontece em alguns países do chamado primeiro mundo.

   Percebe-se que não existe a preocupação seria quanto a formação de uma criança, que é educada numa casa em que não existe a diferenciação entre os sexos, faltando, assim, a figura do pai ou mãe, tão importantes na formação da identidade de uma pessoa. A revista enfatiza que a opinião contrária é preconceito que não deve ser reforçado.

   Esse é apenas um dos muitos fenômenos sociais que levam a sociedade a refletir sobre a ética, a moral, os bons ou maus costumes. Outros desafios éticos continuam a se acentuar, tais como o aborto, a eutanásia, a pena de morte, a clonagem de seres humanos e outros que estão surgindo e haverão de surgir.

   Contudo, como a ética da sociedade é extremamente relativista, em termos de moral e costumes, o terreno é como um pântano, lodoso e escorregadio, do qual não se sabe onde estão os limites a serem observados. Cumpre-se o versículo em que Deus condena os relativistas do tempo do profeta Isaias, que diziam que o amargo era doce, e que o doce era amargo; que o escuro era claro, e que o claro era escuro – Is. 5:20.

   O Cristão, como sal da terra e luz do mundo, tem dificuldade em se movimentar num mundo em que os valores morais estão invertidos. Entretanto, tem a vantagem de não adotar como referencial ético a sociedade sem Deus.

   Enquanto os referenciais do mundo são movediços, instáveis e mutantes, ao sabor do tempo e do lugar, o guia infalível do crente em Jesus é a Palavra de Deus, que é Lâmpada para os pés e luz para o caminho.

   Assim, um crente fiel não só deve fazer diferença, mas seu comportamento deve ser um exemplo para a sociedade. É grande responsabilidade, perante Deus, a Igreja e o mundo. Para o crente em Jesus a Palavra de Deus é lâmpada e luz para o seu viver.

 

Unidade I - A ÉTICA 

- Conceituações

 

    Ética (do grego ethos, significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. De acordo com Champlin  e Bentes, ética é “ A teoria da natureza do bem e como ele pode ser alcançado”. Para Claudionor de Andrade, é o  “Estudo sistemático dos deveres e obrigações do indivíduo, da sociedade e do governo.(Dicionário Teológico, pg.121).

   A Ética diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar o bom modo de viver pelo pensamento humano.

 

- O Campo da Ética

   Dessa forma, a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens. No entanto a ética não se confunde com a moral. Isto porque a moral é a regulação dos valores, normas, e atitudes considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, costumes, a tradição cultural.

   Há muitas tentativas de justificação dos atos morais. Há entre os criminosos uma regra de comportamento que se diz moral. Isto significa que a moral é um fenômeno social particular (Interesses individuais ou de grupos) que não tem necessariamente compromisso com a coletividade e com a universalidade (exigência de toda teoria ética) isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens.

    Mas qual a saída para fugir do relativismo moral?  Mas então, todas e quaisquer normas morais são legitimas? Não deveria existir uma forma de julgamento das normas e validade morais? EXISTE! E essa forma é o que chamamos de ÉTICA.

     A ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade. Mas ela não é só teoria. A ética é um conjunto de princípios e disposições voltados para a ação. É uma referência para os seres humanos em sociedade, de modo que a sociedade possa se tornar cada vez mais humana.

 

- O objetivo da ética 

   “Estabelecer o que é certo e o que é errado”. (Dicionário Teológico, pg.121).

 

* Problemas Morais e Problemas Éticos

   Podemos considerar (a partir dos alemães kantianos) que a moralidade possui duas esferas:

   A moral (do latim moralis que significa costumes) se refere aos costumes, valores, regras e normas de conduta de uma sociedade ou cultura. (Dicionário Básico de Filosofia – Japiassú/Marcondes)

   A ética (do grego ethike diz respeito a costumes) tem por objetivo elaborar uma reflexão sobra a moralidade: a finalidade da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, a natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral (Dicionário Básico de Filosofia. Japiassu/Marcondes)

   Dessa forma, quando o homem enfrenta uma determinada situação que deverá decidir o que fazer, e quando utiliza uma norma de conduta aceita pela sociedade, estamos na esfera moral ou prática. Quando o homem reflete sobre seus atos, na tentativa de julgar se procedeu certo ou não, com justiça ou não, estamos na esfera da ética ou da teoria.

    Nas relações cotidianas entre os indivíduos, surgem continuamente problemas como estes:

[1] Devo cumprir a promessa que fiz ontem ao meu amigo, embora hoje perceba que o cumprimento me causará certos prejuízos?

[2] Se alguém, à noite, se aproxima de mim de maneira suspeita e desconfio que vá me atacar, devo agredi-lo primeiro a fim de não correr o risco de ser agredido, aproveitando que ninguém descobrirá o meu ato?

[3] Com respeito aos crimes cometidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados que os executaram, cumprindo ordens militares, podem ser moralmente condenados?

[4] Devo dizer sempre a verdade ou há ocasiões em que devo mentir?

[5] Quem, numa guerra de invasão, sabe que o seu melhor amigo está colaborando com o inimigo, deve calar, por causa da amizade, ou deve denunciá-lo como traidor?

[6] Podemos considerar bom o homem que se mostra caridoso com o mendigo e com instituições, mas que como patrão explora impiedosamente os operários e os empregados da sua empresa?

[7] Se um indivíduo procura fazer o bem e as conseqüências de suas ações são prejudiciais àqueles que pretendia favorecer, porque lhes causa mais prejuízo do que benefício, devemos julgar que age corretamente de um ponto de vista moral, quaisquer que tenham sido os efeitos de sua ação?

  

   Em todos estes casos, trata-se de problemas práticos, isto é, de problemas que se apresentam nas relações concretas entre indivíduos ou quando se julgam certas decisões e ações dos mesmos. Trata se, por sua vez, de problemas cuja solução não concerne somente à pessoa que os propõe, mas também a outras pessoas que sofrerão as conseqüências da sua decisão e da sua ação. As conseqüências podem afetar somente um indivíduo (devo dizer a verdade ou devo mentir?); em outros casos, trata-se de ações que atingem vários indivíduos ou grupos sociais (os soldados nazistas deviam executar as ordens de extermínio emanadas de seus superiores?). Enfim, as conseqüências podem estender-se a uma comunidade inteira, como a nação (devo guardar silêncio em nome da amizade, diante do procedimento de meu amigo traidor?).

   Em situações como estas que acabamos de enumerar, os indivíduos se defrontam com a necessidade de pautar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas. Estas normas são aceitas intimamente e reconhecidas como obrigatórias. De acordo com elas, os indivíduos compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela maneira.

   Nestes casos, dizemos que o homem age moralmente e que neste seu comportamento se evidenciam vários traços característicos que o diferenciam de outras formas de conduta humana. Sobre este comportamento, que é o resultado de uma decisão refletida e, por isto, não puramente espontânea ou natural, os outros julgam, de acordo também com normas estabelecidas, e formulam juízos como os seguintes: “X agiu bem mentindo naquelas circunstâncias”; “Z devia denunciar o seu amigo traidor”, etc.

   De um lado, temos atos e formas de comportamentos dos homens em face de determinados problemas, que chamamos morais. De outro lado, há juízos que aprovam ou desaprovam moralmente os mesmos atos. Todavia, tanto os atos quanto os juízos morais pressupõem certas normas que apontam o que se deve fazer. Assim, por exemplo, o juízo: “Z devia denunciar o seu amigo traidor”, pressupõe a norma “os interesses da pátria devem ser postos acima dos da amizade”.

   Na vida real, defrontamo-nos com problemas práticos do tipo dos enumerados, dos quais ninguém pode eximir-se. Para resolvê-los, os indivíduos recorrem a normas, cumprem determinados atos, formulam juízos e, às vezes, se servem de determinados argumentos ou razões para justificar a decisão adotada ou os passos dados.

   Tudo isto faz parte de um tipo de comportamento efetivo, tanto dos indivíduos quanto dos grupos sociais; tanto de ontem quanto de hoje. De fato, o comportamento humano prático-moral, ainda que sujeito a variação de uma época para outra e de uma sociedade para outra, remonta até as próprias origens do homem como ser social.

   A este comportamento prático-moral, que já se encontra nas formas mais primitivas de comunidade, sucede posteriormente, uma reflexão sobre ele. Os homens não só agem moralmente (isto é, enfrentam determinados problemas nas suas relações mútuas, tomam decisões e realizam certos atos para resolvê-los e, ao mesmo tempo, julgam ou avaliam de uma ou de outra maneira estas decisões e estes atos), mas também refletem sobre esse comportamento prático e o tomam como objeto da sua reflexão e de seu pensamento. Dá-se assim a passagem do plano da prática moral para o da teoria moral; ou, em outras palavras, da moral efetiva para a moral reflexa. Quando se verifica esta passagem, que coincide com o início do pensamento filosófico, já estamos propriamente na esfera dos problemas teóricos morais ou éticos.

   Diferentemente dos problemas práticos morais, os problemas éticos são caracterizados pela sua generalidade. Se na vida real um indivíduo enfrenta uma determinada situação, deverá resolver por si mesmo o problema de como agir de maneira a que sua ação possa ser boa, isto é, moralmente valiosa.

   Será inútil recorrer à ética com a esperança de encontrar nela uma norma de ação para cada situação concreta. A ética poderá dizer-lhe, em geral, o que é um comportamento pautado por normas, ou em que consiste o fim visado pelo comportamento moral, do qual faz parte o procedimento do indivíduo ou o de todos. O problema do que fazer em cada situação concreta é um problema prático-moral e não-teórico ético. Ao contrário, definir o que é o bom não é um problema moral cuja solução caiba ao indivíduo em cada caso particular, mas um problema geral de caráter teórico, de competência do investigador da moral, ou seja, do ético.

 

*Ações do Homem e Ações Humanas

   Se estamos estudando a ação, temos antes que estudar o Ser, de acordo com a afirmativa: "operare sequitur esse" (operar segundo o ser). Nós não agimos em desacordo com aquilo que nós somos. O Ser Humano é um animal racional. A ação vai seguir isso. Só que temos que dar ênfase ou ao animal, ou ao racional. Minha ação é proveniente o animal ou do racional? Se estou andando: é animal. Se eu estudei como matar uma pessoa: é racional.

   Todo ato humano é também ato do homem, mas nem todo ato do homem é ato humano. Ato humano é aquele que tem o concurso da razão. Todo ato realizado por influxo racional é ato humano. Quando agimos por influxo da vontade apenas (sem levar a razão em conta), nosso ato é do homem, mas não é um ato humano.

   As ações humanas, portanto são provenientes da faculdade sublime do homem, sua racionalidade. Os atos do homem são aqueles ligados ao animalesco, como locomoção, alimentação, reprodução etc.

Unidade II – Ética Cristã

- Definição da Ética Cristã

   Para o cristão, a ética pode ser entendida como um conjunto de regras de conduta, aceitas pelos cristãos, tendo por fundamento a Palavra de Deus. 

   Para os que crêem em Jesus Cristo como Salvador e Senhor de suas vidas, o certo ou o errado devem ter como base a Bíblia Sagrada, considerada como “regra de fé e prática”, conforme bem a definiram Lutero e outros reformadores.

   A ética cristã pode valer-se de argumentos filosóficos, de modo complementar, mas prescinde deles nas definições do que é certo ou errado.

   Os padrões da ética humana mudam conforme as tendências dos valores morais da sociedade. De país para país, verifica-se que há o fenômeno chamado de “nova moralidade”, que envelhece em pouco tempo. Entretanto, na visão de Rudnick, “a nova moralidade” que estamos experimentando desde os anos sessentas não é o tipo de atualização natural e necessária dos pontos de vista éticos, com base em nova informação. É, na verdade, uma revolução ética, na qual os princípios da ética cristã têm sido agredidos e repudiados por muitos. (Ética Cristã Para Hoje, pág. 18).

   Assim, temos que admitir que a ética cristã tem sua própria lógica e consistência, quando baseada na Bíblia, pois esta é infalível, imutável e inerrante. 

 

A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

    Desde a Criação do mundo, do homem, da mulher e a confiança em ambos depositada pelo Criador logo definiu qual deveria ser o padrão de conduta para merecer o recebimento das bênçãos Divinas: um compromisso estabelecido, uma palavra dada sempre devem ser mantidos. Esta é uma entre tantas lições que se aprende do pecado ocorrido no Éden.

   O Dilúvio que devastou o mundo a fim de purificá-lo com suas águas, poupou um único homem bom e justo, Noé e sua família, fornecendo uma prova ímpar sobre a importância de quem se conduz com moralidade no mundo.

   Jacó, apesar de tantas vezes ter sido enganado por seu sogro Labão, homem sem escrúpulos, que trocava um sem número de vezes sua palavra, cumpriu compromissos mesmo duvidosos afim de manter intacta sua integridade, o que o levou a sacrificar 20 anos de sua vida trabalhando sem trégua.

 

FUNDAMENTOS DA ÉTICA NO A.T.


O caráter ético de Deus


   A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas. Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv 11, 45; Sl 99, 9), justo (Sl 11, 7; 145, 17), verdadeiro (Sl 119, 160; Is 45, 19), misericordioso (Sl 103, 8; Is 55, 7), fiel (Dt 7, 9; Sl 33, 4).


A natureza moral do homem


   A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).


A Lei de Deus

   A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.


Os Dez Mandamentos e a Lei Mosaica

   A grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas “duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o seu próximo.

- Extratos da Lei Mosaica

- Se um homem der um soco no olho do seu escravo ou da sua serva, e, em consequência, eles perderem esse órgão, serão alforriados como compensação.

- Não se punirá o homicida antes de ouvidas as testemunhas. Ninguém será condenado pelo testemunho de um só.

- Aquele que ferir seu pai ou sua mãe será punido de morte.

- Aquele que ferir um dos seus concidadãos será tratado como o tratou: receberá fratura por fratura e perderá olho por olho, dente por dente.


Ética nos Profetas

    Alguns dos preceitos éticos mais nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas, especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de integridade com o semelhante.

   Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

   Padrão ético em textos proféticos

   Vários textos indicam para o dado inconteste de que os profetas trabalham com um conceito ético elevado:

- “Fostes vós que devorastes a vinha, o que roubastes do pobre está em vossas casas. Com que

direito esmagais o meu povo e calcais aos pés o rosto dos pobres?” (Isaías 3,14-15).

- “Teus chefes são rebeldes, parceiros de ladrões. Todos gostam de suborno e correm atrás de

presentes. Não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva não chega até eles” (Isaías 1,23).

- “Ai dos que decretam leis injustas e editam escritos de opressão: para afastar os humildes do

julgamento e privar do direito os pobres do meu povo, para fazer das viúvas suas presas e roubar

os órfãos” (Isaías 10,1).

- “Ouvi esta palavra, vacas de Basã, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos,

explorais os pobres e dizeis aos vossos maridos: Trazei-nos o que beber” (Am. 4,1).

- “Eles odeiam quem repreende no tribunal e detestam quem fala com sinceridade. Por isso:

porque oprimis o indigente e lhe cobrais um imposto de trigo, construístes casas de pedra lavrada, mas não as habitareis; plantastes esplêndidas vinhas, mas não bebereis o seu vinho. Pois conheço vossos inúmeros delitos e vossos enormes pecados” (Amós 5,10-12).

- “Ai do que constrói sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito; que faz trabalhar seu

próximo de graça e não lhe paga o salário” (Jeremias 22,13).

- “Eles não sabem fazer o que é reto” (Amós 3,10).

 

   Olhando-se esta pequena listagem de textos, à qual poderiam ser agregados muitos outros textos, constata-se que os profetas do antigo Israel elaboraram e trabalharam um conceito ético bastante elevado, que pode ser desdobrado nos seguintes pontos:

a) críticas ao poder por causa de explorações e opressões relacionadas com o sistema tributário característico daquela sociedade;

b) ênfase no respeito à ordem comunitária constituída e na prática da justiça;

c) respeito aos direitos dos empobrecidos como correspondente ético-moral da pertença à fé em Yahveh, o Deus de Israel.



 

A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO

- A ética nos evangelhos, nos escritos paulinos, nos outros escritos:


1. A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.


2. A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do “reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.


3. O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.


4. A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.


5. A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”.


6. Tipicamente em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)


7. Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23).


8. Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16)


9. Acima de tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2, 12.

Unidade III - Ética aplicada 

VISÃO GERAL DAS ABORDAGENS ÉTICAS

    Todas as abordagens éticas partem da necessidade de se responder a questões que envolvem o que é certo e o que é errado. Por exemplo: Mentir é sempre errado? Há situações em que deixar de falar a verdade é justificável para o cristão? O aborto é certo, se uma jovem crente for vítima de um estupro?

   O posicionamento do cristão, neste início de milênio, não é fácil de ser tomado, face às abordagens e questões éticas contemporâneas. É que, em termos de moral, de conduta, de costumes, que formam as culturas dos povos, o que se vê é um verdadeiro terreno escorregadio e pantanoso, em que nãos e sabe onde o certo termina, e começa o errado. Os limites da moral estão cada vez mais sendo elastecidos e abolidos. O que era certo há apenas 10 anos, hoje é visto como errado, o que era errado, agora é visto como certo...

   Diante disso, a sociedade sem Deus, materialista e hedonista, não tem referenciais seguros, em que se possa confiar.

   O profeta Isaias bem traduziu esse fenômeno, há quase mil anos antes de Cristo, quando bradou: “AI DOS QUE AO MAL CHAMAM BEM E AO BEM, MAL! QUE FAZEM DA ESCURIDADE LUZ, E DA LUZ, ESCURIDADE, E FAZEM DO AMARGO DOCE, E DO DOCE, AMARGO!” – Is. 5:20.

   Isso prova que a humanidade, não obstante o perpassar dos séculos, continua a mesma, em termos de ética e moral, sob o domínio avassalador dos formadores de opinião; principalmente nos tempos pós-modernos, com a influência dos meios de comunicação, notadamente da TV e da Internet, a rede mundial de computadores, que colocam dentro dos lares uma gama imensa de informações, as quais, na maioria dos casos, não permitem ao expectador uma filtragem daquilo que é certo ou errado.

   Admitindo que tudo isso seja verdade, como deve o cristão posicionar-se, face às questões éticas e suas abordagens mais comuns?

   A resposta não pode ser tão simples, mas o cristão tem a vantagem de possuir um código de ética extraordinário, que é a Bíblia Sagrada, por ele aceita como inspirada a revelada por Deus, através do Espírito Santo. Ele pode dizer com ousadia, como fez o salmistas: “LÂMPADA PARA OS MEUS PÉS É A TUA PALAVRA E LUZ, PARA O MEU CAMINH0” – Sl. 119:105. - Pode confiar no que disse Jesus em relação a sua Palavra: “O CÉU E A TERRA PASSARÃO, MAS AS MINHAS PALAVRAS NÃO HÃO DE PASSAR” – Mt. 24:34. - Essa afirmação é fundamental, é alicerce inabalável para o crente em Jesus. Ele sabe que tudo pode passar neste mundo, os homens, as idéias, as coisas, a moral, os usos e costumes, mas as palavras de Jesus não passarão.

 

- PRINCÍPIOS DA ÉTICA CRISTÃ

   Um jovem casado há poucos meses, descobriu que sua esposa houvera adulterado com um amigo de trabalho. Ao sentir-se traído, ficou frustrado e procurou sua sogra para desabafar e dizer que iria buscar a separação. A mãe d jovem adúltera procurou  consolar o genro, dizendo que não precisava ficar tão perturbado, uma vez que nos dias atuais isso é coisa muito comum. Bastava perdoar e conviver. No caso, o rapaz procurou o caminho do divórcio. É um exemplo simples e claro de que o modo de ver as coisas muda de geração para geração, mesmo as questões de princípios considerados consistentes. A sogra do jovem era de uma geração bem mais madura, mas sua forma de pensar estava ligada ao que é “comum”, “nos dias atuais”. O cristão, nesse ambiente, tem dificuldade para encontrar seu lugar.

   O modo de pensar e de agir, com base na ética cristã, tem amplo respaldo na Bíblia Sagrada. E dá lugar à definição de alguns princípios ou parâmetros éticos, que são bem claros e objetivos. Estes são diferentes dos princípios da sociedade sem Deus, os quais são inconsistentes, variáveis, mutáveis, e acima de tudo, relativísticos. Até mesmo as leis, que deveriam servir de fundamento para a conduta do indivíduo, variam conforme o tempo, a época, os costumes, as inovações e tudo o que mudar no meio social.

   A ética contemporânea é uma “abordagem ética, segundo a qual,  não existem normas objetivas a serem obedecidas. É a ausência de normas. Tudo depende das pessoas, e das circunstâncias. Jean Paul Sartre, um dos filósofos, defensores dessa idéia, diz que o homem é plenamente livre. Num dos seus textos ele escreve: "Eu sou minha liberdade"... "E não sobrou nada no céu, nenhum certo ou errado, nem alguém para me dar ordens... estou condenado a não ter outra lei senão a minha..." (Geisler, p. 30,31). Esse tipo de visão encontra abrigo na mente de muita gente, principalmente entre os mais jovens, que anseiam por liberdade, sem refletir muito bem sobre as responsabilidades que nossas ações incorrem. Na rebelião da juventude, na década de 60, os jovens, na França, bradaram: "é proibido proibir". Na onda do movimento hippie, muitos naufragaram, consumindo e consumidos pelas drogas, adotando um estilo de vida paradoxal, que visava, no entender de seus amantes, irem de encontro à sociedade organizada, passando por cima de suas normas e de seus valores.

   A moralidade moderna é um pântano lodoso, em que as pessoas, principalmente os adolescentes e jovens, afundam-se mais e mais.  A mídia também dá sua contribuição negativa para a ética e os bons costumes. Nas novelas, o falso “amor livre” é exaltado. A fornicação, o adultério, a prostituição, e o homossexualismo são divulgados, nas programações, ditas culturas, como se fossem algo perfeitamente normal. É comum, em certos programas televisados incentivarem-se os jovens a levarem seus namorados ou namoradas para dormir na casa dos pais, sob o argumento (falacioso) de que é mais seguro do que em outros lugares. É a segurança para a prática do pecado. Naturalmente, para essas pessoas, com essa mentalidade, não existe pecado.

   No Brasil, durante muito tempo, o adultério era visto como comportamento criminoso, de traição ao cônjuge fiel. Em nossos dias já não é mais o caso. É visto pela sociedade e pelos legisladores e magistrados como um comportamento irregular, mas não criminoso.  O chamado “jogo do bicho” é capitulado, no Código Penal, como contravenção, mas é tolerado, na prática, em todos os lugares do país.

   Em alguns países, o uso de drogas é considerado crime, até passível de pena de morte, como no meio islâmico.  Em outros é apenas uma contravenção, e, dependendo da droga, não é mais crime, e o Estado até ajuda ao dependente de tóxicos.

   Assim é a ética não-cristã. Varia conforme o tempo, o lugar, e o que a maioria da sociedade entende quanto ao que é certo e o que é errado. O cristão, na realidade, não pode guiar-se por quase nenhuma das abordagens éticas contemporâneas. O antinomismo não serve como referencial, pois prega a ausência de normas. Nela, o homem se faz seu próprio deus. A Bíblia diz : "Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Pv. 14.12). "De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem" (Ec 12.13; ver Pv 4.11,12; 6.23). Depois, é filosofia relativista. Cada um faz o que melhor entende. É o que ocorria com o povo de Israel, quando estava sem líder: "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos" (Jz 17.6; 21.25).  Aliás, em muitas igrejas, já impera o Antinomismo, quando muitos não obedecem a Bíblia, não há respeito a normas, e cada um faz o que acha melhor. E o servo de Deus não pode ser uma pessoa que vive sem adotar normas de conduta e de comportamento.

    Com o cristão, esse entendimento não tem acolhida, pois seu código de ética, que é a Bíblia Sagrada, aponta princípios firmes e permanentes, os quais podem e devem ser considerados e obedecidos, em todos os tempos, em todas as culturas, e em todos os lugares.          Diante da inadequação das abordagens éticas contemporâneas, resta ao cristão procurar guiar-se pelos princípios bíblicos de ética cristã:

 

- O Princípio da Fé – Rm. 14:22,23 – “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. 23  Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado”.

   O cristão não precisa recorrer a paradigmas humanos ou lógicos para posicionar-se quanto a atos ou palavras. Se tiver dúvidas, não deve fazer, pois “tudo o que não provém de fé é pecado”.

    Mas, e se não tiver dúvidas, pode fazer tudo o que aprova? Depende. Não é só uma questão de aprovar ou não aprovar. Alguém pode aprovar algo e fazer, por entender que é de fé.

   Para exemplificar, temos o caso daquele irmão, membro de uma igreja tradicional, que gostava de tomar cerveja nos finais de semana. Indagado, respondeu “não acho nada demais”. Porém, não soube fundamentar sua opinião na Bíblia. Ou seja, ele aprovava a bebida alcoólica, mas não fundamentava sua atitude na palavra. Ele acabou enfraquecendo na fé, seus filhos desviaram-se todos, envolvidos no vício da bebida, nas drogas e até na prostituição. Já nos ensina o Salmos 42:7  - “Um abismo chama outro abismo”.

   A pergunta a ser feita é: “O que pretendo fazer ou dizer é de fé, com base na Palavra de Deus, considerados, evidentemente, os abismos temporais e culturais?”. Se a resposta for positiva, a atitude será lícita. Se não, deve ser descartada, por ferir a ética cristã.

 

- O Princípio da Licitude e da Conveniência - Na primeira Carta aos Coríntios, vemos Paulo ensinar: “TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVÊM; TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS EU NÃO ME DEIXAREI DOMINAR POR NENHUMA” – I Co. 6:16 - “TODAS AS COISAS ME SÃO LICITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVEÊM” – I Co. 10:23a.

   Esse critério orienta o cristão a que não faça as coisas apenas porque são licitas, mas porque são licitas e convêm, à luz do referencial ético que é a Palavra de Deus. Há quem entenda esse principio, argumentando que se podemos fazer algo, é porque é licito. À luz da ética cristã, não é bem assim que se deve argumentar.

   Primeiro, diante de uma atitude ou decisão a tomar, é preciso indagar se tal comportamento está de acordo com a Palavra de Deus, se tem apoio nas Escrituras.

  Segundo, mesmo que seja lícito, se convém. Por exemplo: é lícito o crente tomar conhecimento de uma falta cometida por um irmão, e dizê-la a algumas pessoas? Dependendo do caso, podemos responder que sim. Mas há uma outra indagação: Convém dizer? Essa conveniência envolve não só a licitude em si, mas também a oportunidade de se dizer ou não. Conveniência e oportunidade devem juntar-se à licitude na aprovação ou não de uma atitude cristã.

   Tem aquele caso de um irmão que vendeu um automóvel usado a outro, recebendo a devida importância do comprado, membro da mesma Igreja local. Uma semana depois, o veiculo apresentou grave defeito, “Batendo motor”, como se diz na linguagem dos mecânicos. O comprador diante do prejuízo, procurou o vendedor e reclamou do fato. Este lhe disse que nada tinha a ver com o caso, pois já houvera vendido o veiculo, e que o comprador deveria assumir o dano, pois ocorrera em sua mão.

   Acontece que, o vendedor sabia que o carro esta preste a apresentar o problema, segundo um mecânico que examinara o carro. Mas silenciou quanto a isso, e passou o carro “para frente”, para um irmão seu em Cristo. Com isso, ele não se pautou pela ética da Palavra de Deus, e causou grande mal-estar entre as respectivas famílias.

   Fosse o vendedor um verdadeiro cristão, indagaria: “É lícito fazer isso?, e acrescentaria: “Convém a mim, como cristão, agir dessa forma?”. Decerto, se tais perguntas fossem feitas em oração, diante de Deus jamais teriam respostas positivas”.

   Interessante é dizer que, tempos depois, o vendedor desonesto sofreu grave acidente em outro veiculo, sofrendo danos materiais e humanos. Não terá sido uma cobrança do Juiz de toda terra? Não se deve brincar de ser crente, pois a diz a Bíblia: “NÃO ERREIS: DEUS NÃO SE DEIXA ESCARNECER; PORQUE TUDO O QUE O HOMEM SEMEAR, ISSO TAMBÉM CEIFARÁ”- Gl. 6:7.

   Conforme este principio o cristão deve indagar: “O que desejo fazer é licito? Convém fazer, segundo a Palavra de Deus?”. Se a resposta for positiva, diante da Bíblia, pode ser feito. Se não, deve ser rejeitado. O que é licito e conveniente não fere outros princípios bíblicos.

 

- O Princípio da Licitude e da Edificação - Diz a Bíblia: “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Co 10.23b). 

      Com base neste texto, não basta que alguma conduta ou proceder seja lícito, mas é preciso que contribua para a edificação do cristão. É um princípio irmão gêmeo do anterior. A ênfase aqui é na edificação espiritual de quem deve posicionar-se ante o fazer ou não fazer algo.

   Infelizmente, entre as pessoas que mais dão audiência para programas perniciosos, estão muitos crentes, de todas as igrejas evangélicas. No horário noturno, muitas irmãs, e até seus esposos; muitos jovens, ao invés de ir aos templos, cultuar a Deus, estão diante do televisor, assistindo novelas indecentes, recheadas de satanismo e de prostituição; milhares de crentes postam-se diante da TV, para assistir ao famigerado programa, em que pessoas são confinadas numa casa, para serem acompanhadas em suas reações carnais. 

   O índice de audiência é espantoso. As pessoas votam para ver quem vai ser despedido da “experiência” do reality show. Cada ligação telefônica engorda a renda da emissora de TV. É lícito? Para o cristão, cremos que não. Edifica? Muito menos. Pelo contrário. Tal tipo de programação contribui para a destruição dos valores morais, da família e da fé. Diz o salmista: “Atentarei sabiamente ao caminho da perfeição. Oh! Quando virás ter comigo? Portas a dentro, em minha casa, terei coração sincero. 3  Não porei coisa injusta diante dos meus olhos; aborreço o proceder dos que se desviam; nada disto se me pegará.” (Sl 101.2,3). 

   Conforme este principio o cristão deve indagar: “O que desejo fazer é licito? Se é lícito, tal coisa contribui para minha edificação e dos que estão a minha volta? Convém fazer, segundo a Palavra de Deus?”. Se a resposta for positiva, diante da Bíblia, pode ser feito. Se não, deve ser rejeitado. O que é licito e conveniente não fere outros princípios bíblicos.

- O Princípio da Glorificação a Deus

   “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31).

   Aqui, temos um princípio ético abrangente, que inclui não só o comer ou o beber, mas “qualquer coisa”, que demande um posicionamento cristão. 

   Esse princípio da glorificação a Deus é fundamental em momentos cruciais do comportamento cristão. Tenho orientado a juventude quanto ao comportamento a ser seguido pelo jovem cristão, por exemplo, no namoro. É grande a pressão do Diabo e da carne, para a prática do sexo antes do casamento. E há muitas pessoas, inclusive pastores, que preferem fechar os olhos, e deixar que os jovens pequem, alegando que os costumes mudaram, que não se pode fazer nada, etc. Ensino que, havendo uma pressão para a fornicação, basta o jovem ou a jovem indagar: “Posso fazer isso para a glória de Deus?”A resposta, obviamente, será não, se o jovem tiver um mínimo de temor a Deus, e respeito à sua palavra. 

   Diz Paulo: “Foge, também, dos desejos da mocidade; e segue a justiça, a fé, a caridade e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Tm 2.22). 

   Assim, qualquer atitude ou decisão a tomar, em termos morais, financeiros, negócios, transações, etc., tudo pode passar pelo crivo do princípio da glorificação a Deus, e o crente fiel, na direção do Espírito Santo, saberá responder sem maiores dificuldades.

 

- O Princípio da Ação em Nome de Jesus

   “E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).

A condição do crente para realizar ou deixar de realizar algo decorre da autoridade que lhe foi conferida pelo Nome de Jesus. Assim, quando o cristão se vê na contingência de tomar uma decisão, de ordem espiritual, ou humana, pode muito bem concluir pela ação ou não, se puder realizá-la no nome de Jesus, conforme orienta o apóstolo Paulo aos irmãos Colossenses.

   Suponhamos que um irmão é tentado a adulterar com uma mulher, amiga sua. Se ele se descuidar, não vigiando e orando, poderá cair. Mas, se diante da proposta diabólica, indagar: “Posso fazer isso ‘Em nome do Senhor Jesus?’” É lógico que, se ele tiver um pouco de temor a Deus, jamais irá fazer algo pernicioso em nome de Jesus. 

 

- O Princípio do Fazer Para o Senhor

   “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.23). 

   Na vida cristã, surgem verdadeiras armadilhas, como testes para a fé e a convicção do servo de Deus. Um exemplo marcante do desrespeito aos princípios éticos tem sido anotado, com relação à conduta de certos políticos evangélicos, em câmaras municipais, em assembléias legislativas e até no Congresso Nacional. Em momentos críticos, em que a nação exigia um posicionamento sério, ante as injustiças e a corrupção, houve casos em que certos políticos crentes ficaram ao lado daqueles que não atendiam aos legítimos interesses do povo, e muito menos do povo evangélico. Em troca de favores, de emissoras de rádio, de verbas públicas, de cargos públicos, houve casos em que cristãos agiram para agradar aos homens e não ao Senhor. Isso é antiético e anticristão.

   Esses homens esquecem-se do que fez Daniel, na Babilônia, quando manteve sua fé e conduta, diante de Deus, permanecendo em oração, mesmo sob a ameaça de uma lei injusta, elaborada pelos homens ímpios e invejosos. Preferiu ir para a cova dos leões, confiando no Deus Todo-poderoso, do que se encurvar à vontade de homens maus. Todos nós sabemos a história desse homem de Deus, que foi um modelo de integridade moral e espiritual, ao lado dos três jovens Hananias, Misael e Asarias. Estes preferiram ser lançados na fornalha de fogo ardente, aquecida sete vezes mais, a se encurvarem diante dos ídolos e dos homens.

 

- O Princípio do respeito ao Irmão Mais Fraco

   “Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos. Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize” (1 Co 8.9-13).

   No texto bíblico acima, vemos que o apóstolo ensinava sobre os que comiam coisas sacrificadas aos ídolos. Paulo diz que os mesmos tinham “fraca consciência” e que os que têm ciência, sentando-se à mesa no templo dos ídolos, podem induzir o que é fraco a pecar. “E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu... ferindo a sua fraca consciência, e pecando contra Cristo”.

   Desse texto, podemos tirar várias lições para a vida do cristão em relação aos outros irmãos mais novos na fé, ou mesmo antigos, que têm consciência fraca. O apóstolo chega ao extremo de dizer que se pelo manjar que come, um irmão se escandaliza, nunca mais haveria de comê-lo.

    Devemos sempre lembrar que, no meio da igreja local, há o “trigo”, que são os crentes fiéis, santos e cumpridores da Palavra. E há o “joio”, que são os crentes desobedientes, que não têm compromisso com Deus. Ver Romanos 8.13-20.

 

- O Princípio da Prestação de Contas

   “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos ide comparecer ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Pela minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus. De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14.10-12).

   Jesus, em seu ministério terreno, chamou a atenção para a prestação de contas, por ocasião de sua vinda em glória: “Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras” (Mt 16.27).

   Obras falam de atitudes, de comportamento, de ação. Em termos da ética cristã, não há dúvida de que cada pessoa prestará contas a Deus, no seu tribunal divino, do que fizer ou deixar de fazer. Isso em relação à prestação de contas futura, em termos escatológicos. Entretanto, aqui mesmo, nesta vida, há muitos de quem Deus tem cobrado a prestação de contas antecipadamente por causa de seus atos pecaminosos, e há, também, aqueles a quem o Senhor tem galardoado pelas suas boas obras ou atitudes.

   Diz a Bíblia: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito do Espírito ceifará a vida eterna. E não nos cansemos ide fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.7-10). 

 

- O Princípio do Evitar a Aparência do Mal

   “Abstende-vos de toda aparência do mal” (1 Ts 5.22).

   A aparência do mal pode prejudicar a reputação de um servo de Deus. A Bíblia, em sua sublime sabedoria, adverte o cristão para que tome cuidado não só com o mal, mas com sua aparência.

   O perigo em desrespeitar esse princípio reside no fato de se correr o risco de que alguém, imprudentemente, possa confundir a atitude de um servo ou serva de Deus, espalhando boatos inverídicos. Quando isso acontece, mesmo que haja um esclarecimento posterior, a pessoa torna-se alvo de críticas e insinuações malévolas que, uma vez espalhadas, são como penas que se soltam ao vento. Fáceis de se espalhar; difíceis de serem recolhidas.

 

Concluindo, no mundo atual, em que os absolutos foram todos desprezados, dando lugar ao relativismo exacerbado, o cristão só pode transitar, e posicionar-se corretamente, se souber observar os princípios éticos, emanados da Bíblia Sagrada. Tudo muda no mundo dos homens. Mas, diante de Deus, sua palavra tem valor absoluto, e pode ser o guia seguro e forte contra os vendavais do relativismo avassalador, que tem invadido, até, os arraiais das igrejas evangélicas. Relembrando, disse Jesus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.3); disse o salmista: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119.105).

 

 

BIBLIOGRAFIA:

1 - GEISLER, Norman L. Ética Cristã: Alternativos e questões contemporâneas. Sociedade   Religiosa Edições Vida Nova.

2  -   LIMA, Elinaldo Renovato. Ética Cristã. CPAD, Rio de Janeiro, 2002.

 

 

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