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SEP - SEMINÁRIO EVANGÉLICO DE PATOS
ÉTICA CRISTÃ
Prof. Pr. Edson
Poujeaux Gonçalves
Disciplina:
ÉTICA CRISTÃ
Dept. Teologia Sistemática
C.H.Semanal: 02h
C.H.Total: 30h
Créditos: 02
Ética Cristã
1 - Ementa:
Conceitos Básicos da Ética e contornos da Ética Cristã
II – Objetivos:
* Introduzir o aluno aos conceitos abordados pela Ética
* Estudar a base bíblica da Ética Cristã.
III – Conteúdo
Programático:
Unidade I – A Ética – Conceituações
* O Objetivo da
Ética
- O Campo da Ética
- O Objetivo da Ética
- Problemas Morais e Problemas Éticos
- Ações do Homem e Ações Humanas
Unidade II – Ética Cristã
* Definição da
Ética Cristã
* Ética no Antigo
Testamento
* Fundamentos da Ética no AT
- O caráter ético de Deus
- A natureza moral do homem
- A Lei de Deus
- Os Dez Mandamentos e a Lei Mosaica
- Ética nos Profetas
* Ética no Novo Testamento
-A ética nos evangelhos, nos
escritos paulinos e nos outros escritos
Unidade III – Ética Aplicada
*
Visão Geral das Abordagens Éticas
*
Princípios da Ética Cristã
*
Algumas Questões Éticas Contemporâneas:
- O Cristão e o Aborto
- O Cristão e a Sexualidade
- O Cristão e o Divórcio
- O Cristão e a Pena de Morte
- O Cristão, a Eutanásia e o Suicídio
- O Cristão, os Transplantes e a Doação de Órgãos
- O Cristão, os Vícios e os Jogos
- O Cristão e a Política
- O Cristão e a Clonagem de Seres Humanos/ Células
Tronco
- O Cristão e a Homofobia: casamento entre pessoas do
mesmo sexo; adoção de
crianças por
homossexuais; pastores gays; igrejas para gays e lésbicas, etc.
IV Avaliação:
Duas provas
escritas e um trabalho individual
V Metodologia:
Exposições
didáticas, trabalhos em grupo e debates.
VI –
Bibliografia: Ver na última página
SEP - SEMINÁRIO
EVANGÉLICO DE PATOS
ÉTICA CRISTÃ
Prof. Pr. Edson
Poujeaux Gonçalves
INTRODUÇÃO
CERTO OU ERRADO? DEPENDE
Um adolescente perguntou ao
outro, na escola: “Quem é seu pai?”, o que fez o colega enrubescer e ter
dificuldade para responder. É que o rapazinho vive em companhia de sua mãe, que
é lésbica, e esta, por sua vez, mora com uma mulher.
Ao rapaz é ensinado que a união
de pessoas do mesmo sexo é algo muito natural, normal, e há quem diga que é a
forma de amor mais elevada que existe no mundo! Mas, na pratica, esse tipo de
relação é ridicularizado por muitas pessoas, o que fez o rapazinho ficar
envergonhado. Em torno dessa e de outras questões aflora o conflito entre o que
é certo e o que errado.
Já vivendo em pleno século XXI, a
humanidade esta vivenciando uma era de relativismo exacerbado. O certo e o
errado são conceitos que não fazem muito sentido para o homem da era
pós-moderna. Tudo depende da pessoa, do tempo e do lugar.
E mais que isso, o indivíduo é
induzido a decidir sobre o que é certo ou errado, a seu critério, de modo
individualista e subjetivo a todo o momento. Os programas de TV, por exemplo,
“Você Decide”, estão na moda, com grande audiência por parte do público
telespectador. Se a questão é posta diante de um ateu, de um dito agnóstico, ou
de um religioso não-cristão, talvez ele se posicione ao lado dos que acham que
tudo deve ser visto de modo natural, sem preconceito, etc.
Uma revista de circulação
nacional apresentou extensa reportagem, enfocando duplas de homossexuais,
masculinos e femininos, em companhia de crianças por eles adotados, de modo
irregular, pois no pais ainda não é legal a adoção e registro de crianças por
pessoas do mesmo sexo. Vê-se sem muito esforço que a finalidade da matéria é
passar para os leitores a idéia de que o homossexualismo é algo normal e que é
perfeitamente natural que, não tendo filhos biológicos, passem a buscar filhos
adotivos, com já acontece em alguns países do chamado primeiro mundo.
Percebe-se que não existe a
preocupação seria quanto a formação de uma criança, que é educada numa casa em
que não existe a diferenciação entre os sexos, faltando, assim, a figura do pai
ou mãe, tão importantes na formação da identidade de uma pessoa. A revista
enfatiza que a opinião contrária é preconceito que não deve ser reforçado.
Esse é apenas um dos muitos
fenômenos sociais que levam a sociedade a refletir sobre a ética, a moral, os
bons ou maus costumes. Outros desafios éticos continuam a se acentuar, tais como
o aborto, a eutanásia, a pena de morte, a clonagem de seres humanos e outros que
estão surgindo e haverão de surgir.
Contudo, como a ética da
sociedade é extremamente relativista, em termos de moral e costumes, o terreno é
como um pântano, lodoso e escorregadio, do qual não se sabe onde estão os
limites a serem observados. Cumpre-se o versículo em que Deus condena os
relativistas do tempo do profeta Isaias, que diziam que o amargo era doce, e que
o doce era amargo; que o escuro era claro, e que o claro era escuro – Is. 5:20.
O Cristão, como sal da terra e
luz do mundo, tem dificuldade em se movimentar num mundo em que os valores
morais estão invertidos. Entretanto, tem a vantagem de não adotar como
referencial ético a sociedade sem Deus.
Enquanto os referenciais do mundo
são movediços, instáveis e mutantes, ao sabor do tempo e do lugar, o guia
infalível do crente em Jesus é a Palavra de Deus, que é Lâmpada para os pés e
luz para o caminho.
Assim, um crente fiel não só deve
fazer diferença, mas seu comportamento deve ser um exemplo para a sociedade. É
grande responsabilidade, perante Deus, a Igreja e o mundo. Para o crente em
Jesus a Palavra de Deus é lâmpada e luz para o seu viver.
Unidade I - A
ÉTICA
- Conceituações
Ética
(do grego ethos, significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo
da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e
na sociedade. De acordo com Champlin e Bentes, ética é “ A teoria da natureza
do bem e como ele pode ser alcançado”. Para Claudionor de Andrade, é o “Estudo
sistemático dos deveres e obrigações do indivíduo, da sociedade e do
governo.(Dicionário Teológico, pg.121).
A Ética
diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência a normas,
tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos,
a ética, ao contrário, busca fundamentar o bom modo de viver pelo pensamento
humano.
- O Campo da
Ética
Dessa forma, a
ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens. No entanto a
ética não se confunde com a moral. Isto porque a moral é a regulação dos
valores, normas, e atitudes considerados legítimos por uma determinada
sociedade, um povo, uma religião, costumes, a tradição cultural.
Há muitas
tentativas de justificação dos atos morais. Há entre os criminosos uma regra de
comportamento que se diz moral. Isto significa que a moral é um fenômeno social
particular (Interesses individuais ou de grupos) que não tem necessariamente
compromisso com a coletividade e com a universalidade (exigência de toda teoria
ética) isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens.
Mas qual a
saída para fugir do relativismo moral? Mas então, todas e quaisquer normas
morais são legitimas? Não deveria existir uma forma de julgamento das normas e
validade morais? EXISTE! E essa forma é o que chamamos de ÉTICA.
A ética é
uma reflexão crítica sobre a moralidade. Mas ela não é só teoria. A ética é um
conjunto de princípios e disposições voltados para a ação. É uma referência para
os seres humanos em sociedade, de modo que a sociedade possa se tornar cada vez
mais humana.
- O objetivo da
ética
“Estabelecer
o que é certo e o que é errado”. (Dicionário Teológico, pg.121).
* Problemas
Morais e Problemas Éticos
Podemos
considerar (a partir dos alemães kantianos) que a moralidade possui duas
esferas:
A moral
(do latim moralis que significa costumes) se refere aos costumes, valores,
regras e normas de conduta de uma sociedade ou cultura. (Dicionário Básico de
Filosofia – Japiassú/Marcondes)
A ética
(do grego ethike diz respeito a costumes) tem por objetivo elaborar uma reflexão
sobra a moralidade: a finalidade da vida humana, os fundamentos da obrigação e
do dever, a natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral (Dicionário
Básico de Filosofia. Japiassu/Marcondes)
Dessa forma,
quando o homem enfrenta uma determinada situação que deverá decidir o que fazer,
e quando utiliza uma norma de conduta aceita pela sociedade, estamos na
esfera moral ou prática. Quando o homem reflete sobre seus atos, na
tentativa de julgar se procedeu certo ou não, com justiça ou não, estamos na
esfera da ética ou da teoria.
Nas relações
cotidianas entre os indivíduos, surgem continuamente problemas como estes:
[1] Devo cumprir
a promessa que fiz ontem ao meu amigo, embora hoje perceba que o cumprimento me
causará certos prejuízos?
[2] Se alguém, à
noite, se aproxima de mim de maneira suspeita e desconfio que vá me atacar, devo
agredi-lo primeiro a fim de não correr o risco de ser agredido, aproveitando que
ninguém descobrirá o meu ato?
[3] Com respeito
aos crimes cometidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, os
soldados que os executaram, cumprindo ordens militares, podem ser moralmente
condenados?
[4] Devo dizer
sempre a verdade ou há ocasiões em que devo mentir?
[5] Quem, numa
guerra de invasão, sabe que o seu melhor amigo está colaborando com o inimigo,
deve calar, por causa da amizade, ou deve denunciá-lo como traidor?
[6] Podemos
considerar bom o homem que se mostra caridoso com o mendigo e com instituições,
mas que como patrão explora impiedosamente os operários e os empregados da sua
empresa?
[7] Se um
indivíduo procura fazer o bem e as conseqüências de suas ações são prejudiciais
àqueles que pretendia favorecer, porque lhes causa mais prejuízo do que
benefício, devemos julgar que age corretamente de um ponto de vista moral,
quaisquer que tenham sido os efeitos de sua ação?
Em todos estes
casos, trata-se de problemas práticos, isto é, de problemas que se apresentam
nas relações concretas entre indivíduos ou quando se julgam certas decisões e
ações dos mesmos. Trata se, por sua vez, de problemas cuja solução não concerne
somente à pessoa que os propõe, mas também a outras pessoas que sofrerão as
conseqüências da sua decisão e da sua ação. As conseqüências podem afetar
somente um indivíduo (devo dizer a verdade ou devo mentir?); em outros casos,
trata-se de ações que atingem vários indivíduos ou grupos sociais (os soldados
nazistas deviam executar as ordens de extermínio emanadas de seus superiores?).
Enfim, as conseqüências podem estender-se a uma comunidade inteira, como a nação
(devo guardar silêncio em nome da amizade, diante do procedimento de meu amigo
traidor?).
Em situações
como estas que acabamos de enumerar, os indivíduos se defrontam com a
necessidade de pautar o seu comportamento por normas que se julgam mais
apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas. Estas normas são aceitas
intimamente e reconhecidas como obrigatórias. De acordo com elas, os indivíduos
compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela maneira.
Nestes casos,
dizemos que o homem age moralmente e que neste seu comportamento se
evidenciam vários traços característicos que o diferenciam de outras formas de
conduta humana. Sobre este comportamento, que é o resultado de uma decisão
refletida e, por isto, não puramente espontânea ou natural, os outros julgam, de
acordo também com normas estabelecidas, e formulam juízos como os seguintes: “X
agiu bem mentindo naquelas circunstâncias”; “Z devia denunciar o seu amigo
traidor”, etc.
De um lado,
temos atos e formas de comportamentos dos homens em face de determinados
problemas, que chamamos morais. De outro lado, há juízos que aprovam ou
desaprovam moralmente os mesmos atos. Todavia, tanto os atos quanto os juízos
morais pressupõem certas normas que apontam o que se deve fazer. Assim, por
exemplo, o juízo: “Z devia denunciar o seu amigo traidor”, pressupõe a norma “os
interesses da pátria devem ser postos acima dos da amizade”.
Na vida real,
defrontamo-nos com problemas práticos do tipo dos enumerados, dos quais ninguém
pode eximir-se. Para resolvê-los, os indivíduos recorrem a normas, cumprem
determinados atos, formulam juízos e, às vezes, se servem de determinados
argumentos ou razões para justificar a decisão adotada ou os passos dados.
Tudo isto faz
parte de um tipo de comportamento efetivo, tanto dos indivíduos quanto dos
grupos sociais; tanto de ontem quanto de hoje. De fato, o comportamento humano
prático-moral, ainda que sujeito a variação de uma época para outra e de uma
sociedade para outra, remonta até as próprias origens do homem como ser social.
A este
comportamento prático-moral, que já se encontra nas formas mais
primitivas de comunidade, sucede posteriormente, uma reflexão sobre ele. Os
homens não só agem moralmente (isto é, enfrentam determinados problemas nas suas
relações mútuas, tomam decisões e realizam certos atos para resolvê-los e, ao
mesmo tempo, julgam ou avaliam de uma ou de outra maneira estas decisões e estes
atos), mas também refletem sobre esse comportamento prático e o tomam como
objeto da sua reflexão e de seu pensamento. Dá-se assim a passagem do plano da
prática moral para o da teoria moral; ou, em outras palavras, da moral efetiva
para a moral reflexa. Quando se verifica esta passagem, que coincide com o
início do pensamento filosófico, já estamos propriamente na esfera dos problemas
teóricos morais ou éticos.
Diferentemente
dos problemas práticos morais, os problemas éticos são caracterizados
pela sua generalidade. Se na vida real um indivíduo enfrenta uma determinada
situação, deverá resolver por si mesmo o problema de como agir de maneira a que
sua ação possa ser boa, isto é, moralmente valiosa.
Será inútil recorrer à ética com
a esperança de encontrar nela uma norma de ação para cada situação concreta. A
ética poderá dizer-lhe, em geral, o que é um comportamento pautado por normas,
ou em que consiste o fim visado pelo comportamento moral, do qual faz parte o
procedimento do indivíduo ou o de todos. O problema do que fazer em cada
situação concreta é um problema prático-moral e não-teórico ético. Ao contrário,
definir o que é o bom não é um problema moral cuja solução caiba ao indivíduo em
cada caso particular, mas um problema geral de caráter teórico, de competência
do investigador da moral, ou seja, do ético.
*Ações do Homem e Ações Humanas
Se estamos
estudando a ação, temos antes que estudar o Ser, de acordo com a afirmativa:
"operare sequitur esse" (operar segundo o ser). Nós não agimos em desacordo com
aquilo que nós somos. O Ser Humano é um animal racional. A ação vai seguir isso.
Só que temos que dar ênfase ou ao animal, ou ao racional. Minha ação é
proveniente o animal ou do racional? Se estou andando: é animal. Se eu estudei
como matar uma pessoa: é racional.
Todo ato
humano é também ato do homem, mas nem todo ato do homem é ato humano. Ato humano
é aquele que tem o concurso da razão. Todo ato realizado por influxo racional é
ato humano. Quando agimos por influxo da vontade apenas (sem levar a razão em
conta), nosso ato é do homem, mas não é um ato humano.
As ações
humanas, portanto são provenientes da faculdade sublime do homem, sua
racionalidade. Os atos do homem são aqueles ligados ao animalesco, como
locomoção, alimentação, reprodução etc.
Unidade II –
Ética Cristã
- Definição da
Ética Cristã
Para o cristão, a ética pode ser
entendida como um conjunto de regras de conduta, aceitas pelos cristãos, tendo
por fundamento a Palavra de Deus.
Para os que crêem em Jesus Cristo
como Salvador e Senhor de suas vidas, o certo ou o errado devem ter como base a
Bíblia Sagrada, considerada como “regra de fé e prática”, conforme bem a
definiram Lutero e outros reformadores.
A ética cristã pode valer-se de
argumentos filosóficos, de modo complementar, mas prescinde deles nas definições
do que é certo ou errado.
Os padrões da ética humana mudam
conforme as tendências dos valores morais da sociedade. De país para país,
verifica-se que há o fenômeno chamado de “nova moralidade”, que envelhece em
pouco tempo. Entretanto, na visão de Rudnick, “a nova moralidade” que estamos
experimentando desde os anos sessentas não é o tipo de atualização natural e
necessária dos pontos de vista éticos, com base em nova informação. É, na
verdade, uma revolução ética, na qual os princípios da ética cristã têm sido
agredidos e repudiados por muitos. (Ética Cristã Para Hoje, pág. 18).
Assim, temos que admitir que a
ética cristã tem sua própria lógica e consistência, quando baseada na Bíblia,
pois esta é infalível, imutável e inerrante.
A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO
Desde a Criação do mundo, do
homem, da mulher e a confiança em ambos depositada pelo Criador logo definiu
qual deveria ser o padrão de conduta para merecer o recebimento das bênçãos
Divinas: um compromisso estabelecido, uma palavra dada sempre devem ser
mantidos. Esta é uma entre tantas lições que se aprende do pecado ocorrido no
Éden.
O Dilúvio que devastou o mundo a
fim de purificá-lo com suas águas, poupou um único homem bom e justo, Noé e sua
família, fornecendo uma prova ímpar sobre a importância de quem se conduz com
moralidade no mundo.
Jacó, apesar de tantas vezes ter
sido enganado por seu sogro Labão, homem sem escrúpulos, que trocava um sem
número de vezes sua palavra, cumpriu compromissos mesmo duvidosos afim de manter
intacta sua integridade, o que o levou a sacrificar 20 anos de sua vida
trabalhando sem trégua.
FUNDAMENTOS DA ÉTICA NO A.T.
O caráter ético de Deus
A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho
Testamento fala da existência de um único DEUS, o criador e Senhor de todas as
coisas. Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro.
Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv 11, 45; Sl 99,
9), justo (Sl 11, 7; 145, 17), verdadeiro (Sl 119, 160; Is 45, 19),
misericordioso (Sl 103, 8; Is 55, 7), fiel (Dt 7, 9; Sl 33, 4).
A natureza moral do homem
A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à sua semelhança (Gn 1,
26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do
caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina
no ser humano, não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas
criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).
A Lei de Deus
A lei expressa o desejo que Deus
tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis
no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o
relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores
como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando o
bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.
Os Dez Mandamentos e a Lei Mosaica
A grande síntese da moralidade
bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas
“duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o
seu próximo.
- Extratos da Lei Mosaica
- Se um homem der um soco no olho do
seu escravo ou da sua serva, e, em consequência, eles perderem esse órgão, serão
alforriados como compensação.
- Não se punirá o homicida antes de
ouvidas as testemunhas. Ninguém será condenado pelo testemunho de um só.
- Aquele que ferir seu pai ou sua
mãe será punido de morte.
- Aquele que ferir um dos seus
concidadãos será tratado como o tratou: receberá fratura por fratura e perderá
olho por olho, dente por dente.
Ética nos Profetas
Alguns dos preceitos éticos mais
nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas,
especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética
individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e
oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de integridade com o
semelhante.
Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20;
10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6,
6-8.
Padrão ético em textos
proféticos
Vários textos indicam para o dado
inconteste de que os profetas trabalham com um conceito ético elevado:
- “Fostes vós que devorastes a
vinha, o que roubastes do pobre está em vossas casas. Com que
direito esmagais o meu povo e
calcais aos pés o rosto dos pobres?” (Isaías 3,14-15).
- “Teus chefes são rebeldes,
parceiros de ladrões. Todos gostam de suborno e correm atrás de
presentes. Não fazem justiça ao
órfão e a causa da viúva não chega até eles” (Isaías 1,23).
- “Ai dos que decretam leis injustas
e editam escritos de opressão: para afastar os humildes do
julgamento e privar do direito os
pobres do meu povo, para fazer das viúvas suas presas e roubar
os órfãos” (Isaías 10,1).
- “Ouvi esta palavra, vacas de Basã,
que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos,
explorais os pobres e dizeis aos
vossos maridos: Trazei-nos o que beber” (Am. 4,1).
- “Eles odeiam quem repreende no
tribunal e detestam quem fala com sinceridade. Por isso:
porque oprimis o indigente e lhe
cobrais um imposto de trigo, construístes casas de pedra lavrada, mas não as
habitareis; plantastes esplêndidas vinhas, mas não bebereis o seu vinho. Pois
conheço vossos inúmeros delitos e vossos enormes pecados” (Amós 5,10-12).
- “Ai do que constrói sua casa sem
justiça e seus aposentos sem direito; que faz trabalhar seu
próximo de graça e não lhe paga o
salário” (Jeremias 22,13).
- “Eles não sabem fazer o que é
reto” (Amós 3,10).
Olhando-se esta pequena listagem
de textos, à qual poderiam ser agregados muitos outros textos, constata-se que
os profetas do antigo Israel elaboraram e trabalharam um conceito ético bastante
elevado, que pode ser desdobrado nos seguintes pontos:
a) críticas ao poder por causa de
explorações e opressões relacionadas com o sistema tributário característico
daquela sociedade;
b) ênfase no respeito à ordem
comunitária constituída e na prática da justiça;
c) respeito aos direitos dos
empobrecidos como correspondente ético-moral da pertença à fé em Yahveh, o Deus
de Israel.
A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO
- A ética nos evangelhos, nos
escritos paulinos, nos outros escritos:
1. A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se
fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que
já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases
novas.
2. A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é
ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do
“reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus
é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do
reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.
3. O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus está
contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os
Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia,
integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela
generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como
interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc
7, 21-23.
4. A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o
valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser
humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos
dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro
princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.
5. A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em
Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3,
28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em Cristo, profundamente unido
a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma nova vida, dinamizado pelo
Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não alcançou ainda a plenitude, que virá
com a consumação de todas as coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o
“ainda não”.
6. Tipicamente em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio
de Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a vida
diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)
7. Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta está a
imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). Outro motivo
fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver
ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23).
8. Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da comunidade, o
corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). Ao
mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por quem Cristo morreu (Rm 14,
15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16)
9. Acima de tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu
inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2, 12.

Unidade III -
Ética aplicada
VISÃO GERAL DAS
ABORDAGENS ÉTICAS
Todas as
abordagens éticas partem da necessidade de se responder a questões que envolvem
o que é certo e o que é errado. Por exemplo: Mentir é sempre errado? Há
situações em que deixar de falar a verdade é justificável para o cristão? O
aborto é certo, se uma jovem crente for vítima de um estupro?
O
posicionamento do cristão, neste início de milênio, não é fácil de ser tomado,
face às abordagens e questões éticas contemporâneas. É que, em termos de moral,
de conduta, de costumes, que formam as culturas dos povos, o que se vê é um
verdadeiro terreno escorregadio e pantanoso, em que nãos e sabe onde o certo
termina, e começa o errado. Os limites da moral estão cada vez mais sendo
elastecidos e abolidos. O que era certo há apenas 10 anos, hoje é visto como
errado, o que era errado, agora é visto como certo...
Diante
disso, a sociedade sem Deus, materialista e hedonista, não tem referenciais
seguros, em que se possa confiar.
O profeta
Isaias bem traduziu esse fenômeno, há quase mil anos antes de Cristo, quando
bradou: “AI DOS QUE AO MAL
CHAMAM BEM E AO BEM, MAL! QUE FAZEM DA ESCURIDADE LUZ, E DA LUZ, ESCURIDADE, E
FAZEM DO AMARGO DOCE, E DO DOCE, AMARGO!” – Is. 5:20.
Isso prova que a humanidade, não
obstante o perpassar dos séculos, continua a mesma, em termos de ética e moral,
sob o domínio avassalador dos formadores de opinião; principalmente nos tempos
pós-modernos, com a influência dos meios de comunicação, notadamente da TV e da
Internet, a rede mundial de computadores, que colocam dentro dos lares uma gama
imensa de informações, as quais, na maioria dos casos, não permitem ao
expectador uma filtragem daquilo que é certo ou errado.
Admitindo que tudo isso seja
verdade, como deve o cristão posicionar-se, face às questões éticas e suas
abordagens mais comuns?
A resposta não pode ser tão
simples, mas o cristão tem a vantagem de possuir um código de ética
extraordinário, que é a Bíblia Sagrada, por ele aceita como inspirada a revelada
por Deus, através do Espírito Santo. Ele pode dizer com ousadia, como fez o
salmistas: “LÂMPADA PARA OS MEUS PÉS É A TUA PALAVRA E LUZ, PARA O MEU CAMINH0”
– Sl. 119:105. - Pode confiar no que disse Jesus em relação a sua Palavra: “O
CÉU E A TERRA PASSARÃO, MAS AS MINHAS PALAVRAS NÃO HÃO DE PASSAR” – Mt. 24:34. -
Essa afirmação é fundamental, é alicerce inabalável para o crente em Jesus. Ele
sabe que tudo pode passar neste mundo, os homens, as idéias, as coisas, a moral,
os usos e costumes, mas as palavras de Jesus não passarão.
- PRINCÍPIOS DA ÉTICA CRISTÃ
Um jovem casado há poucos meses,
descobriu que sua esposa houvera adulterado com um amigo de trabalho. Ao
sentir-se traído, ficou frustrado e procurou sua sogra para desabafar e dizer
que iria buscar a separação. A mãe d jovem adúltera procurou consolar o genro,
dizendo que não precisava ficar tão perturbado, uma vez que nos dias atuais isso
é coisa muito comum. Bastava perdoar e conviver. No caso, o rapaz procurou o
caminho do divórcio. É um exemplo simples e claro de que o modo de ver as coisas
muda de geração para geração, mesmo as questões de princípios considerados
consistentes. A sogra do jovem era de uma geração bem mais madura, mas sua forma
de pensar estava ligada ao que é “comum”, “nos dias atuais”. O cristão, nesse
ambiente, tem dificuldade para encontrar seu lugar.
O modo de pensar e de agir, com
base na ética cristã, tem amplo respaldo na Bíblia Sagrada. E dá lugar à
definição de alguns princípios ou parâmetros éticos, que são bem claros e
objetivos. Estes são diferentes dos princípios da sociedade sem Deus, os quais
são inconsistentes, variáveis, mutáveis, e acima de tudo, relativísticos. Até
mesmo as leis, que deveriam servir de fundamento para a conduta do indivíduo,
variam conforme o tempo, a época, os costumes, as inovações e tudo o que mudar
no meio social.
A ética
contemporânea é uma “abordagem ética, segundo a qual, não existem normas
objetivas a serem obedecidas. É a ausência de normas. Tudo depende das pessoas,
e das circunstâncias. Jean Paul Sartre, um dos filósofos, defensores dessa
idéia, diz que o homem é plenamente livre. Num dos seus textos ele escreve: "Eu
sou minha liberdade"... "E não sobrou nada no céu, nenhum certo ou errado, nem
alguém para me dar ordens... estou condenado a não ter outra lei senão a
minha..." (Geisler, p. 30,31). Esse tipo de visão encontra abrigo na mente de
muita gente, principalmente entre os mais jovens, que anseiam por liberdade, sem
refletir muito bem sobre as responsabilidades que nossas ações incorrem. Na
rebelião da juventude, na década de 60, os jovens, na França, bradaram: "é
proibido proibir". Na onda do movimento hippie, muitos naufragaram, consumindo e
consumidos pelas drogas, adotando um estilo de vida paradoxal, que visava, no
entender de seus amantes, irem de encontro à sociedade organizada, passando por
cima de suas normas e de seus valores.
A moralidade
moderna é um pântano lodoso, em que as pessoas, principalmente os adolescentes e
jovens, afundam-se mais e mais. A mídia também dá sua contribuição negativa
para a ética e os bons costumes. Nas novelas, o falso “amor livre” é exaltado. A
fornicação, o adultério, a prostituição, e o homossexualismo são divulgados, nas
programações, ditas culturas, como se fossem algo perfeitamente normal. É comum,
em certos programas televisados incentivarem-se os jovens a levarem seus
namorados ou namoradas para dormir na casa dos pais, sob o argumento (falacioso)
de que é mais seguro do que em outros lugares. É a segurança para a prática do
pecado. Naturalmente, para essas pessoas, com essa mentalidade, não existe
pecado.
No Brasil, durante muito tempo, o
adultério era visto como comportamento criminoso, de traição ao cônjuge fiel. Em
nossos dias já não é mais o caso. É visto pela sociedade e pelos legisladores e
magistrados como um comportamento irregular, mas não criminoso. O chamado “jogo
do bicho” é capitulado, no Código Penal, como contravenção, mas é tolerado, na
prática, em todos os lugares do país.
Em alguns países, o uso de drogas
é considerado crime, até passível de pena de morte, como no meio islâmico. Em
outros é apenas uma contravenção, e, dependendo da droga, não é mais crime, e o
Estado até ajuda ao dependente de tóxicos.
Assim é a
ética não-cristã. Varia conforme o tempo, o lugar, e o que a maioria da
sociedade entende quanto ao que é certo e o que é errado. O cristão, na
realidade, não pode guiar-se por quase nenhuma das abordagens éticas
contemporâneas. O antinomismo não serve como referencial, pois prega a ausência
de normas. Nela, o homem se faz seu próprio deus. A Bíblia diz : "Há caminho
que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Pv.
14.12). "De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus
mandamentos; porque este é o dever de todo homem" (Ec 12.13; ver Pv 4.11,12;
6.23). Depois, é filosofia relativista. Cada um faz o que melhor entende. É o
que ocorria com o povo de Israel, quando estava sem líder: "Naqueles dias,
não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos"
(Jz 17.6; 21.25). Aliás, em muitas igrejas, já impera o Antinomismo, quando
muitos não obedecem a Bíblia, não há respeito a normas, e cada um faz o que acha
melhor. E o servo de Deus não pode ser uma pessoa que vive sem adotar normas de
conduta e de comportamento.
Com o cristão, esse entendimento
não tem acolhida, pois seu código de ética, que é a Bíblia Sagrada, aponta
princípios firmes e permanentes, os quais podem e devem ser considerados e
obedecidos, em todos os tempos, em todas as culturas, e em todos os lugares.
Diante da inadequação das
abordagens éticas contemporâneas, resta ao cristão procurar guiar-se pelos
princípios bíblicos de ética cristã:
- O Princípio da Fé
– Rm. 14:22,23 – “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus.
Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. 23 Mas aquele
que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo
o que não provém de fé é pecado”.
O cristão não precisa recorrer a
paradigmas humanos ou lógicos para posicionar-se quanto a atos ou palavras. Se
tiver dúvidas, não deve fazer, pois “tudo o que não provém de fé é pecado”.
Mas, e se não tiver dúvidas,
pode fazer tudo o que aprova? Depende. Não é só uma questão de aprovar ou não
aprovar. Alguém pode aprovar algo e fazer, por entender que é de fé.
Para exemplificar, temos o caso
daquele irmão, membro de uma igreja tradicional, que gostava de tomar cerveja
nos finais de semana. Indagado, respondeu “não acho nada demais”. Porém, não
soube fundamentar sua opinião na Bíblia. Ou seja, ele aprovava a bebida
alcoólica, mas não fundamentava sua atitude na palavra. Ele acabou enfraquecendo
na fé, seus filhos desviaram-se todos, envolvidos no vício da bebida, nas drogas
e até na prostituição. Já nos ensina o Salmos 42:7 - “Um abismo chama outro
abismo”.
A pergunta a ser feita é: “O que
pretendo fazer ou dizer é de fé, com base na Palavra de Deus, considerados,
evidentemente, os abismos temporais e culturais?”. Se a resposta for positiva, a
atitude será lícita. Se não, deve ser descartada, por ferir a ética cristã.
- O Princípio da Licitude e da
Conveniência - Na
primeira Carta aos Coríntios, vemos Paulo ensinar: “TODAS AS COISAS ME SÃO
LÍCITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVÊM; TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS EU
NÃO ME DEIXAREI DOMINAR POR NENHUMA” – I Co. 6:16 - “TODAS AS COISAS ME SÃO
LICITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVEÊM” – I Co. 10:23a.
Esse critério orienta o cristão a
que não faça as coisas apenas porque são licitas, mas porque são licitas e
convêm, à luz do referencial ético que é a Palavra de Deus. Há quem entenda esse
principio, argumentando que se podemos fazer algo, é porque é licito. À luz da
ética cristã, não é bem assim que se deve argumentar.
Primeiro, diante de uma atitude
ou decisão a tomar, é preciso indagar se tal comportamento está de acordo com a
Palavra de Deus, se tem apoio nas Escrituras.
Segundo, mesmo que seja lícito, se
convém. Por exemplo: é lícito o crente tomar conhecimento de uma falta cometida
por um irmão, e dizê-la a algumas pessoas? Dependendo do caso, podemos responder
que sim. Mas há uma outra indagação: Convém dizer? Essa conveniência envolve não
só a licitude em si, mas também a oportunidade de se dizer ou não. Conveniência
e oportunidade devem juntar-se à licitude na aprovação ou não de uma atitude
cristã.
Tem aquele caso de um irmão que
vendeu um automóvel usado a outro, recebendo a devida importância do comprado,
membro da mesma Igreja local. Uma semana depois, o veiculo apresentou grave
defeito, “Batendo motor”, como se diz na linguagem dos mecânicos. O comprador
diante do prejuízo, procurou o vendedor e reclamou do fato. Este lhe disse que
nada tinha a ver com o caso, pois já houvera vendido o veiculo, e que o
comprador deveria assumir o dano, pois ocorrera em sua mão.
Acontece que, o vendedor sabia
que o carro esta preste a apresentar o problema, segundo um mecânico que
examinara o carro. Mas silenciou quanto a isso, e passou o carro “para frente”,
para um irmão seu em Cristo. Com isso, ele não se pautou pela ética da Palavra
de Deus, e causou grande mal-estar entre as respectivas famílias.
Fosse o vendedor um verdadeiro
cristão, indagaria: “É lícito fazer isso?, e acrescentaria: “Convém a mim, como
cristão, agir dessa forma?”. Decerto, se tais perguntas fossem feitas em oração,
diante de Deus jamais teriam respostas positivas”.
Interessante é dizer que, tempos
depois, o vendedor desonesto sofreu grave acidente em outro veiculo, sofrendo
danos materiais e humanos. Não terá sido uma cobrança do Juiz de toda terra? Não
se deve brincar de ser crente, pois a diz a Bíblia: “NÃO ERREIS: DEUS NÃO SE
DEIXA ESCARNECER; PORQUE TUDO O QUE O HOMEM SEMEAR, ISSO TAMBÉM CEIFARÁ”- Gl.
6:7.
Conforme este principio o cristão
deve indagar: “O que desejo fazer é licito? Convém fazer, segundo a Palavra de
Deus?”. Se a resposta for positiva, diante da Bíblia, pode ser feito. Se não,
deve ser rejeitado. O que é licito e conveniente não fere outros princípios
bíblicos.
- O Princípio da Licitude e da
Edificação - Diz a
Bíblia: “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Co
10.23b).
Com base neste texto, não
basta que alguma conduta ou proceder seja lícito, mas é preciso que contribua
para a edificação do cristão. É um princípio irmão gêmeo do anterior. A ênfase
aqui é na edificação espiritual de quem deve posicionar-se ante o fazer ou não
fazer algo.
Infelizmente, entre as pessoas
que mais dão audiência para programas perniciosos, estão muitos crentes, de
todas as igrejas evangélicas. No horário noturno, muitas irmãs, e até seus
esposos; muitos jovens, ao invés de ir aos templos, cultuar a Deus, estão diante
do televisor, assistindo novelas indecentes, recheadas de satanismo e de
prostituição; milhares de crentes postam-se diante da TV, para assistir ao
famigerado programa, em que pessoas são confinadas numa casa, para serem
acompanhadas em suas reações carnais.
O índice de audiência é
espantoso. As pessoas votam para ver quem vai ser despedido da “experiência” do
reality show. Cada ligação telefônica engorda a renda da emissora de TV.
É lícito? Para o cristão, cremos que não. Edifica? Muito menos. Pelo contrário.
Tal tipo de programação contribui para a destruição dos valores morais, da
família e da fé. Diz o salmista: “Atentarei sabiamente ao caminho da perfeição.
Oh! Quando virás ter comigo? Portas a dentro, em minha casa, terei coração
sincero. 3 Não porei coisa injusta diante dos meus olhos; aborreço o proceder
dos que se desviam; nada disto se me pegará.” (Sl 101.2,3).
Conforme este principio o cristão
deve indagar: “O que desejo fazer é licito? Se é lícito, tal coisa contribui
para minha edificação e dos que estão a minha volta? Convém fazer, segundo a
Palavra de Deus?”. Se a resposta for positiva, diante da Bíblia, pode ser feito.
Se não, deve ser rejeitado. O que é licito e conveniente não fere outros
princípios bíblicos.
- O Princípio da Glorificação a Deus
“Portanto, quer comais, quer
bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co
10.31).
Aqui, temos um princípio ético
abrangente, que inclui não só o comer ou o beber, mas “qualquer coisa”, que
demande um posicionamento cristão.
Esse princípio da glorificação a
Deus é fundamental em momentos cruciais do comportamento cristão. Tenho
orientado a juventude quanto ao comportamento a ser seguido pelo jovem cristão,
por exemplo, no namoro. É grande a pressão do Diabo e da carne, para a prática
do sexo antes do casamento. E há muitas pessoas, inclusive pastores, que
preferem fechar os olhos, e deixar que os jovens pequem, alegando que os
costumes mudaram, que não se pode fazer nada, etc. Ensino que, havendo uma
pressão para a fornicação, basta o jovem ou a jovem indagar: “Posso fazer isso
para a glória de Deus?”A resposta, obviamente, será não, se o jovem tiver um
mínimo de temor a Deus, e respeito à sua palavra.
Diz Paulo: “Foge, também, dos
desejos da mocidade; e segue a justiça, a fé, a caridade e a paz com os que, com
um coração puro, invocam o Senhor” (2 Tm 2.22).
Assim, qualquer atitude ou
decisão a tomar, em termos morais, financeiros, negócios, transações, etc., tudo
pode passar pelo crivo do princípio da glorificação a Deus, e o crente fiel, na
direção do Espírito Santo, saberá responder sem maiores dificuldades.
- O Princípio da Ação em Nome de
Jesus
“E, quanto fizerdes por palavras
ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus
Pai” (Cl 3.17).
A condição do crente para realizar
ou deixar de realizar algo decorre da autoridade que lhe foi conferida pelo Nome
de Jesus. Assim, quando o cristão se vê na contingência de tomar uma decisão, de
ordem espiritual, ou humana, pode muito bem concluir pela ação ou não, se puder
realizá-la no nome de Jesus, conforme orienta o apóstolo Paulo aos irmãos
Colossenses.
Suponhamos que um irmão é tentado
a adulterar com uma mulher, amiga sua. Se ele se descuidar, não vigiando e
orando, poderá cair. Mas, se diante da proposta diabólica, indagar: “Posso fazer
isso ‘Em nome do Senhor Jesus?’” É lógico que, se ele tiver um pouco de
temor a Deus, jamais irá fazer algo pernicioso em nome de Jesus.
- O Princípio do Fazer Para o Senhor
“E, tudo quanto fizerdes, fazei-o
de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.23).
Na vida cristã, surgem
verdadeiras armadilhas, como testes para a fé e a convicção do servo de Deus. Um
exemplo marcante do desrespeito aos princípios éticos tem sido anotado, com
relação à conduta de certos políticos evangélicos, em câmaras municipais, em
assembléias legislativas e até no Congresso Nacional. Em momentos críticos, em
que a nação exigia um posicionamento sério, ante as injustiças e a corrupção,
houve casos em que certos políticos crentes ficaram ao lado daqueles que não
atendiam aos legítimos interesses do povo, e muito menos do povo evangélico. Em
troca de favores, de emissoras de rádio, de verbas públicas, de cargos públicos,
houve casos em que cristãos agiram para agradar aos homens e não ao Senhor. Isso
é antiético e anticristão.
Esses homens esquecem-se do que
fez Daniel, na Babilônia, quando manteve sua fé e conduta, diante de Deus,
permanecendo em oração, mesmo sob a ameaça de uma lei injusta, elaborada pelos
homens ímpios e invejosos. Preferiu ir para a cova dos leões, confiando no Deus
Todo-poderoso, do que se encurvar à vontade de homens maus. Todos nós sabemos a
história desse homem de Deus, que foi um modelo de integridade moral e
espiritual, ao lado dos três jovens Hananias, Misael e Asarias. Estes preferiram
ser lançados na fornalha de fogo ardente, aquecida sete vezes mais, a se
encurvarem diante dos ídolos e dos homens.
- O Princípio do respeito ao Irmão
Mais Fraco
“Mas vede que essa liberdade
não seja de alguma maneira escândalo para os fracos. Porque, se alguém te vir a
ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a
consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos?
E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora,
pecando assim contra os irmãos e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra
Cristo. Pelo que, se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei
carne, para que meu irmão não se escandalize” (1 Co 8.9-13).
No texto bíblico acima, vemos que
o apóstolo ensinava sobre os que comiam coisas sacrificadas aos ídolos. Paulo
diz que os mesmos tinham “fraca consciência” e que os que têm ciência,
sentando-se à mesa no templo dos ídolos, podem induzir o que é fraco a pecar.
“E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu...
ferindo a sua fraca consciência, e pecando contra Cristo”.
Desse texto, podemos tirar várias
lições para a vida do cristão em relação aos outros irmãos mais novos na fé, ou
mesmo antigos, que têm consciência fraca. O apóstolo chega ao extremo de dizer
que se pelo manjar que come, um irmão se escandaliza, nunca mais haveria de
comê-lo.
Devemos sempre lembrar que, no
meio da igreja local, há o “trigo”, que são os crentes fiéis, santos e
cumpridores da Palavra. E há o “joio”, que são os crentes desobedientes, que não
têm compromisso com Deus. Ver Romanos 8.13-20.
- O Princípio da Prestação de Contas
“Mas tu, por que julgas teu
irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos ide
comparecer ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Pela minha vida, diz
o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus.
De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”
(Rm 14.10-12).
Jesus, em seu ministério terreno,
chamou a atenção para a prestação de contas, por ocasião de sua vinda em glória:
“Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então,
dará a cada um segundo as suas obras” (Mt 16.27).
Obras falam de atitudes, de
comportamento, de ação. Em termos da ética cristã, não há dúvida de que cada
pessoa prestará contas a Deus, no seu tribunal divino, do que fizer ou deixar de
fazer. Isso em relação à prestação de contas futura, em termos escatológicos.
Entretanto, aqui mesmo, nesta vida, há muitos de quem Deus tem cobrado a
prestação de contas antecipadamente por causa de seus atos pecaminosos, e há,
também, aqueles a quem o Senhor tem galardoado pelas suas boas obras ou
atitudes.
Diz a Bíblia: “Não erreis:
Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também
ceifará. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o
que semeia no Espírito do Espírito ceifará a vida eterna. E não nos cansemos ide
fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então,
enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos
da fé” (Gl 6.7-10).
- O Princípio do Evitar a Aparência
do Mal
“Abstende-vos de toda aparência
do mal” (1 Ts 5.22).
A aparência do mal pode
prejudicar a reputação de um servo de Deus. A Bíblia, em sua sublime sabedoria,
adverte o cristão para que tome cuidado não só com o mal, mas com sua aparência.
O perigo em desrespeitar esse
princípio reside no fato de se correr o risco de que alguém, imprudentemente,
possa confundir a atitude de um servo ou serva de Deus, espalhando boatos
inverídicos. Quando isso acontece, mesmo que haja um esclarecimento posterior, a
pessoa torna-se alvo de críticas e insinuações malévolas que, uma vez
espalhadas, são como penas que se soltam ao vento. Fáceis de se espalhar;
difíceis de serem recolhidas.
Concluindo, no
mundo atual, em que os absolutos foram todos desprezados, dando lugar ao
relativismo exacerbado, o cristão só pode transitar, e posicionar-se
corretamente, se souber observar os princípios éticos, emanados da Bíblia
Sagrada. Tudo muda no mundo dos homens. Mas, diante de Deus, sua palavra tem
valor absoluto, e pode ser o guia seguro e forte contra os vendavais do
relativismo avassalador, que tem invadido, até, os arraiais das igrejas
evangélicas. Relembrando, disse Jesus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras não hão de passar” (Mt 24.3); disse o salmista: “Lâmpada para os meus
pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119.105).
BIBLIOGRAFIA:
1 - GEISLER,
Norman L. Ética Cristã: Alternativos e questões contemporâneas.
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.
2 - LIMA,
Elinaldo Renovato. Ética Cristã. CPAD, Rio de Janeiro, 2002.
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