:. APOSTILA TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO II

SEP – SEMINÁRIO EVANGÉLICO DE PATOS

TEOLOGIA DO VELHO TESTAMENTO – II

Prof. Pr. Edson Poujeaux Gonçalves

 

Disciplina:                             Teologia do Velho testamento II

Dept.:                                     Teologia Sistemática

C.H.Semanal:                        02h

C.H. Total:                            30h

Créditos:                               02


I - Ementa:

                        - Revelação como base do estudo: No período Mosaico e no Período Profético.

II - Objetivo: - Estudar o desenvolvimento cronológico da Teologia do VT;

- Ilustrar o processo deste desenvolvimento através do estudo das doutrinas principais.

III – Conteúdo Programático:

UNIDADE I - Recapitulação da História da Teologia do VT

UNIDADE II – O Ato Como Revelação de Deus

                        - O Deus de Israel

                        - Os Meios de Revelação no VT

- Propósito de Deus na Revelação

                                   - Revelação através da Criação

                                   - Revelação através da História/Teofanias

                                   - Revelação através do Nome - Javé, o nome revelado, e outros nomes

                                   - Revelação no período profético.

                        - A Lei de Deus e as implicações Teológicas do Decálogo

                       

 

            UNIDADE III – A Eleição de Deus

 

- Eleição de Um Povo – Israel

- Aliança com Israel

- Limitações do Concerto Antigo

 

            UNIDADE IV – A Salvação

 

- Juízo e ira de Deus

- Arrependimento e Perdão

- Sistema Sacrificial do VT e Expiação

- Papel Teológico do Sacerdócio

- As funções das leis rituais e de pureza

 

UNIDADE V – Formas de vida obediente no VT

 

- O culto no VT

- Visão Missionária do VT

- Natureza da Fé no VT

 

            UNIDADE VI – Messianismo no VT

 

                        - O Messias prometido

                        - O Reino do Messias

 

            UNIDADE VII – Imortalidade e Ressurreição

 

            UNIDADE VIII – O Espírito Santo

 

IV – AVALIAÇÃO:

                        Duas provas escritas e um trabalho individual.

 

V – Metodologia:

                        Exposições didáticas e trabalhos em grupos.

 

VI – Bibliografias: Vide última página

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEP – SEMINÁRIO EVANGÉLICO DE PATOS

TEOLOGIA DO VELHO TESTAMENTO – II

Prof. Pr. Edson Poujeaux Gonçalves

 

 

1.1 - COMENTÁRIOS INTRODUTÓRIOS

   Teologia do Velho Testamento "É o estudo das declarações dos autores do Velho Testamento sobre Deus e suas relações com a humanidade, com o propósito de por essas declarações numa linguagem contemporânea e inteligível e com a intenção de preservar o que elas significam para as pessoas que as aceitaram originalmente.

   Podemos dizer, também, que a Teologia do Velho Testamento “É o estudo dos atributos de Deus e o propósito das suas atividades na história e na vida do povo de Israel, de acordo com a doutrina da revelação divina nos livros sagrados deste povo”.

   Esta definição distingue a Teologia do Velho Testamento da História da Religião do povo de Israel. Convém manter esta distinção, reconhecendo que as duas ficam naturalmente entrelaçadas.

   A História da Religião de Israel é a matéria que trata do desenvolvimento religioso do povo de acordo com a seqüência cronológica dos seus períodos históricos e das influências religiosas recebidas dos vizinhos.

   A Bíblia não sistematiza os seus ensinos, mas a ciência teológica trata das doutrinas distintivas e persistentes das Escrituras na ordem lógica ou teológica que se julga mais conveniente. Discute a revelação de Deus aos profetas e procura determinar a relevância dela para a teologia cristã.

   A fonte de pesquisa para se construir uma Teologia do Velho Testamento é a Bíblia e, em particular, o próprio Velho Testamento, é óbvio. Assim, crer nas Escrituras como inspiradas e verdadeiras é fundamental para o desenvolvimento dessa disciplina.

   Estamos, no desenvolvimento dessa disciplina, interessados na revelação bíblica e é importantíssimo que saibamos utilizá-la e que creiamos na sua inspiração, infalibilidade e inerrância (2 Tm. 3:16; Rm. 3:2; 2Pd. 3:16; Mt. 15:6; Jo. 10:35; Hb. 4:12).

   Existem vários formas de nos posicionar quanto à Bíblia. Entre elas citamos:

a) Racionalismo. Em sua forma extrema, nega a possibilidade de qualquer revelação sobrenatural. Em sua forma moderada admite a possibilidade de revelação divina, mas essa revelação fica sujeita ao juízo final da razão humana.

b) Romanismo. A Bíblia é um produto da igreja e por isso não é autoridade única e final.

c) Misticismo. A experiência pessoal tem a mesma autoridade da Bíblia.

d) Neo-ortodoxia. A Bíblia é uma testemunha falível da revelação de Deus na Palavra, Cristo.

e) Seitas. A Bíblia e os escritos do líder ou fundador de cada seita possuem igual autoridade.

f) Ortodoxia. A Bíblia é a nossa única base de autoridade.

   A Bíblia não é um livro de regras para ser obedecido. É preciso aceitar o fato de que no Velho Testamento há muitas coisas que não têm aplicação prática na igreja atual. Foram situações aplicáveis ao povo de Israel. Porém toda passagem bíblica possui uma mensagem teológica. (È o que também é chamado de “Princípio Bíblico”).

   Precisamos, portanto, com a teologia do Velho Testamento descobrir o que é normativo e o que é temporal no Velho Testamento, ou seja: a distinção entre a norma e a forma.

   Por exemplo: O culto hebreu tem uma norma dentro de uma forma. Aceitamos a lei moral (normativa) e rejeitamos a lei cerimonial (formativa).

   Levítico 25 e o uso da terra - ano sabático - ano jubileu. As leis foram dadas numa época histórica e com caráter específico. Contudo ela revela o caráter de Deus e isso é norma. O que a TVT ensina são as normas teológicas do VT.

   Além disso, é bom termos em mente a diferença entre o que é inspiração e o que é iluminação.

   Entende-se por inspiração o método verbal e plenário, utilizado por Deus, para conduzir os escritores da Bíblia a registrarem nela tão somente a Sua vontade. Uma vez que o Cânon da Bíblia está completo, crê-se também que a inspiração, conforme entendida teologicamente, não existe mais. A inspiração verbal e plenária é atestada pela própria Bíblia (2 Tm 3:16; 2 Pd. 1:20-21; Ex. 17:14; Jr. 30:20; Mt. 15:4; At. 28:25; Mt. 5:17; Jo. 10:35; 1 Tm 5:18; 2 Pd. 3:16; 1 Cor. 2:13; 1 Pd. 1:11-12). Ora, sendo a Bíblia a expressão da vontade de Deus, é conclusivo que ela seja inerrante, pois Deus não comete erros (Jo. 17:3; Rm. 3:4; Mt. 5:17; Jo. 10:35; Gn. 3:16; Mt. 22:31-32).

   Por iluminação entende-se a capacitação dada pelo Espírito Santo de Deus, autor da Bíblia, aos seus servos para que interpretem, segundo a vontade de Deus, as palavras das Escrituras Sagradas. A iluminação atual em relação aos não-salvos (1 Co. 2:14; 2 Co. 4:4; Jo. 16:7-11) e aos salvos (1 Co. 2:10-12; 3:2; Jo. 16:13-15).

   A teologia do Velho Testamento é a primeira divisão da teologia bíblica e esforça-se para expor, da forma mais ordenada possível, as grandes declarações da verdade divina que ocorrem nos escritos do Velho Testamento.

   O Velho Testamento não contém uma lista sistematizada das declarações teológicas como é próprio da teologia sistemática. Porém possui um farto material sobre a manifestação de Deus e seu relacionamento com o universo.

   Para se formular uma teologia do Velho Testamento há de se considerar o significado que as palavras e os escritos tinham na época em que foram formulados. Daí o método da teologia do Velho Testamento deve ser o histórico-teológico. Este método deve levar em conta a progressão da revelação de Deus até resumir-se numa forma escrita definitiva. Além disso, a teologia do Velho Testamento não se restringe aos feitos de Deus junto ao povo de Israel, mas é abrangente e expansiva, ou seja, o relacionamento de Deus com Israel é para ser visto como o princípio de um relacionamento com toda a humanidade.

   Deve-se manter o devido equilíbrio entre um método de investigação histórico objetivo e o conceito de uma revelação autorizada e definitiva de Deus em forma escrita.

   O pensamento dos escritores do AT não deve restringir-se aos interesses que dizem respeito à religião ou à vida dos hebreus antigos. Deve ser considerado como parte da revelação contínua de Deus - que chega ao seu ponto culminante na proclamação neotestamentária da sua graça redentora em Cristo, o Messias de Israel e o Salvador da humanidade.

 

UNIDADE II – O Ato Como Revelação de Deus

 

1 – O Deus de Israel

   Os ensinos que dizem respeito à pessoa e à natureza de Deus começam aceitando como fato axiomático a Sua existência. Deus é o fundamento de toda a existência, e se revela de modo criativo por atos tais como a criação do mundo e da humanidade, bem como pela comunicação verbal da sua natureza e vontade. Enquanto Deus é ser necessário, tendo existido desde a eternidade, a terra e seus habitantes são entidades contingentes ou criadas, e dependem do poder do Cristo para existirem.

   Embora sua natureza seja de espírito infinito, Ele permite que seja descrita periodicamente em termos antropomórficos. (grego - Antropos+morfo, homem + forma = Forma semelhante ao homem).

  

   Deus tem, portanto:

a) Um rosto que diz respeito à sua presença, da qual as pessoas podem ser escondidas mediante a alienação do pecado (Gen 4:14), mas a qual também age para salvar seu povo da escravidão e levá-lo à segurança (Ex. 33:14).

b) Mãos, com as quais cria as Suas obras maravilhosas (Sl. 143:5).

c) Voz, que pode ser ouvida diretamente (Ex. 3:4) ou por intermédio dos profetas quando a sua palavra é proclamada (Is. 8:1; Jr. 1:4; Ez. 31:1).

d) Forma física, às vezes, e assume a atividade de um mensageiro (Gn. 22:15-18; Is. 63:9), embora a diferença seja suficiente para possibilitar que o mensageiro seja distinguido do Criador (Gen. 24:40).

e) Nomes que expressam Sua personalidade – (Ver abaixo Nomes e Títulos de Deus).

 

 

2 – Os Meios de Revelação de Deus no VT

2.1. - Propósito de Deus na Revelação

 

      Revelação quer dizer desvendamento, manifestar o que estava oculto. A revelação bíblica é uma iniciativa de Deus. Deus se revela livremente, por sua genuína vontade e não seria conhecido se assim não o fizesse. A possibilidade da revelação está no fato de Deus ser criador, nós sermos criaturas e podemos supor que Deus nos fez com um propósito.

   Ainda, a Bíblia revela o Deus que é cheio de amor por sua criação e assim como um pai amoroso jamais se ocultaria de seu filho, Deus não se ocultou dos homens.

   Os quatro aspectos da imagem de Deus no homem:

· Somente o homem tem um espírito imortal através do qual pode ter comunhão com Deus (ruah = espírito imortal) – (nishmat haym = sopro de vida).

* O homem é um ser moral, tem livre arbítrio e consciência e pode dominar os seus instintos.

* O homem é um ser racional, capaz de pensar no abstrato e formular idéias.

*.· O homem tem domínio sobre a natureza e sobre os seres vivos.

   Tudo isso implica no conhecimento do propósito de Deus ao criar o homem: ter um ser com o qual pudesse relacionar-se mais intimamente (só o homem tem “ruah”, pois recebeu o “nishmat hayim” de Deus), ter um ser capaz de ser mordomo de toda a criação, ter um ser capaz de refletir as ações, atitudes e o comportamento de Deus. Daí, a necessidade e o propósito de Deus em REVELAR-SE ao homem.

 

   Dentre outros meios de revelação de Deus no AT, para efeito de estudo, abordaremos os seguintes:


A) Revelação através da criação;

B) Revelação através da História - Teofanias;

C) Revelação através do Nome – Javé, o nome revelado e outros nomes;

D) Revelação no período profético.

 

  
A) Revelação através da criação:

Rm. 1:18-21 – “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.20  Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;21  porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato”.

Sl. 19:1 – “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”.

 

B) Revelação através da História:

 

B.1 - A Revelação de Deus na Manifestação da Inocência (Gn. 1,2)

   Considera-se dispensação da inocência o período entre a criação e a queda do homem. Nesse período o relacionamento entre Deus e homem e entre o homem e Deus era completamente livre de quaisquer obstáculos. Havia completa pureza na natureza do homem, de tal maneira que nada ofuscava a santidade de Deus, contribuindo para uma aproximação perfeita. Neste ambiente de relações humanas com Deus e de relações divinas com o homem, os autores do Velho Testamento encontram campo fértil para retratar a personalidade de Deus, sua natureza, suas ações e atitudes, bem como a natureza do homem e sua dependência de Deus.


B.2.- Revelações de Deus EXPLÍCITAS em Gn. 1 e 2

a) Elohim - El=Deus, divindade. Elohim é o plural majestático de Deus que sempre emprega o verbo no singular quando Elohim é o sujeito. O plural também se refere à plenitude de Deus. Na forma hebraica, o plural às vezes expressa intensidade e plenitude. É a forma como Deus foi conhecido ao relacionar-se com o universo e difere do nome revelado diretamente ao povo de Israel (YHAWEH). Elohim revela o Deus criador e majestoso.

b) Bara' – Põe à mostra o poder criador de Deus, vendo-o como criador, agente da ação, capaz de trazer à existência tudo o que existe. Este conceito de criação é conhecido como EX NIHILO (do nada). (Sl. 90:2; Neemias 9:6; Is 40:26; Am. 4:13; Mat. 19:4; At. 17:24-26; Rm. 1:25; 1 Cor. 11:9; Col. 1:16; Ap. 4:11 - Ex nihilo: Gen. 1:1ss; Sl. 33:6; Jo. 1:3; Rom. 4:17; Hb. 11:3). O verbo Bara' se refere sempre às atividades criadoras de Deus. No Velho Testamento é utilizado sempre relacionado a Deus. Está presente nos versos Gênesis 1:1, 1:21, 1:27. e se refere à criação da matéria, da vida animal e do ser humano. Significa cria do nada ou criar algo completamente novo, sem precedentes.

c) "A terra era sem forma e vazia (...) e disse Deus..." - Caracteriza a surpreendente capacidade de organização em Deus. Sua mente organizada, bem como o seu poder e o seu propósito definido, demonstram um início e um fim previamente elaborado no processo de criação. (Salmo 19:1-6; Rom. 1:18-20). Revela ainda o Deus estético, que prima pela estética.

d) "o Espírito de Deus se movia (estava se movendo)" – revela a personalidade dinâmica de Deus e seu cuidado protetor e sustentador (um esboço da revelação do Deus onisciente, onipotente e onipresente). (Is. 40:12-14; Sal. 139:1-6, 7, 8-16).

e) "E viu Deus que era bom" – Existe algo de emocional na natureza de Deus, pois o seu estado emotivo se altera ao contemplar a criação. Entretanto, esta emotividade deve ser diferenciada da emotividade humana no que diz respeito ao controle e à pureza das emoções divinas. Deus é capaz de alegrar-se como também de entristecer-se, contudo a alegria de Deus é pura e sua tristeza não descamba para a prostração ou para a depressão. A Bíblia não fala de um Deus depressivo (Neemias 8:10; Sof. 3:17; Ef. 4:30).

f) Gênesis 1:26-31; 2:4-25 – Deus não é um déspota, embora possamos ver que Ele toma para si a responsabilidade paterna por sua criação e a responsabilidade da provisão a fim de manter aquilo e aqueles os quais criou. Essa atitude de Deus não pode ser vista como paternalismo humano, pois todos os homens são finitos e falhos na tarefa da provisão e da educação, entretanto Deus sabe que sua criatura e criação não sobrevive sem Ele. Assim, sua atitude ao colocar-se como Pai e Provedor, demonstra uma personalidade responsável, amorosa e consciente.

g) Gen. 1:26-27, 2:7 - revela o Deus que é capaz de compartilhar sua própria natureza com a humanidade. O plural: "Um de nós" está em concordância com o nome de Deus: Elohim, visto que o discurso está na forma direta. A teoria de que os anjos estivessem ativamente presentes na criação é duvidosa se comparada com Isaías 40:14 40:14; João 14:23 (17); Jó 38:1-10ss. Na queda o plural de plenitude também é utilizado e se for pensarmos nos anjos presentes, Deus estaria colocando-os em igualdade a si mesmo.

   A imagem de Deus, conhecida como "imago Dei", outorgada ao homem na criação refere-se à capacidade de conhecimento, à inteligência pessoal, à consciência moral, à perfeição moral original e à imortalidade. Não existe distinção entre os termos "imagem e semelhança". No hebraico não existe no texto a conjunção "e", tornando os termos sinônimos, um paralelismo hebraico. (Selem=imagem, demut=semelhança; eikon=imagem, homoiosis= semelhança), estes termos afirmam que o homem foi feito à imagem de Deus, e que Jesus Cristo, o Filho divino, é a imagem essencial do Deus invisível (Gen 1:26,27; 5:1,3; 9:6; 1 Co. 11;7; Col. 3:10; Tg. 3:9).

   Contudo isso não quer dizer que os homens sejam ou tornar-se-ão deuses. Em Gênesis 2:7, vê-se claramente a distinção entre Criador e criatura: "formou (yasah) o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente".

   Deus é o agente de todas as ações expressas pelas formas verbais do texto: "formou, soprou-lhe" e o homem é o paciente sobre o qual recai as ações dos verbos e a conseqüência dessas ações fez do homem "alma vivente". A forma física provém da elaboração de Deus, a matéria provém da criação de Deus, o fôlego da vida (nishmat hayim) também provém de Deus. A natureza do homem, como manifestação da imagem nítida do seu Criador, é vinculada de modo consistente no AT com o conceito de Deus como Criador. O conceito de uma imagem pretende demonstrar que o homem não é divino como Deus, mas que ele manifesta na sua natureza um grau suficiente de divindade para lembrar aquele que o vê de que o homem reflete o Criador de uma maneira sem paralelo com qualquer outra coisa na criação. Nesse contexto, o salmista podia enaltecer o homem por ele ser um pouco inferior a Deus (Sl. 8:5). Quando, entretanto, a pureza do homem foi maculada pelo pecado da desobediência à vontade de Deus, a imagem de Deus no homem, concomitantemente, foi ofuscada. Já não é possível, pois, demonstrar a natureza de Deus como uma mera referência à natureza do homem. Agora, a Deidade só pode ser refletida com mais exatidão pela própria Deidade, fato este que as narrativas do AT tornam claro.

 

B.3. – Revelações de Deus IMPLÍCITAS em Gn.1 e 2:

a) "No princípio" (Gen. 1:1) - Deus se mostra “fora” do princípio, isto é, transcendente ao princípio, ulterior a todas as coisas. Manifesta sua transcendência. Antes de criar Ele já existia. Causa primária. Alfa e ômega. Princípio e fim. (Sal. 90:2). Ora, o princípio não apenas demonstra o início da criação, coma também da história e do tempo. Assim, sendo Deus ulterior ao “princípio” o é também à história, à criação e ao tempo. Sua eternidade, portanto, está em evidência, bem como sua auto-existência. Deus é o Ser necessário, enquanto todos os outros, inclusive nós e os anjos, somos contingentes.

b) Revela o Deus gracioso - sua obra criadora tem um propósito definido: uma relação de amor (“hesed”) com toda a criação, principalmente para com o homem. Demonstra uma relação altruísta. (Gen. 1:31; 2:7, 15-17, 18).

c) Revela o Deus pessoal - que é capaz de criar, mover-se, ordenar, elaborar, organizar, agir, pensar. Deus se revela como uma pessoa. Em Gênesis 2:4ss Deus se revela como YHWH-ELOHIM (Javé Deus). Já aqui Deus é revelado como o Deus do pacto, da graça. O nome Javé é revelado a Moisés e isso mostra que Moisés, sendo o autor de Gênesis, demonstra que o Deus pessoal assim se revelara para Adão e Eva. Isso também exclui qualquer teoria que diz ter sido o universo criado por deuses.

d) Revela o Deus que se compraz com o bem-estar, com a felicidade de suas criaturas: o Éden, a bênção, a mulher, os conselhos, tudo indica a orientação divina para aquilo que constrói. A provisão de Deus é sempre oriunda de ações construtivas e edificantes.

e) Revela um ser livre e moralmente perfeito - não há qualquer registro que mostra Deus sentindo-se obrigado a criar, nem tampouco que, criando livremente, tenha usado de arbitrariedades. O poder de Deus permitia-lhe criar seres que jamais se afastassem da sua vontade, entretanto, a perfeição moral de Deus não pode estar em conflito com o seu poder. Assim, criar seres livres, ainda que optem pela desobediência, é mais correto moralmente do que criar seres subservientes que não sabem por que servem e obedecem.

f) Caracteriza a primeira "revelação antropomórfica" sobre Deus: "no sétimo dia Deus descansou". (Isaías diz que Deus não se cansa - 40:28). Sábado quer dizer descanso. Na introdução desta apostila falamos do antropomorfismo na linguagem usada pelos escritores do Velho Testamento ao escreverem a revelação de Deus. É comum Deus ser retratado como se tivesse as mesmas faculdades humanas, inclusive como se tivesse um corpo como o nosso.


B.4. - A REVELAÇÃO DE DEUS DEPOIS DA QUEDA (GÊNESIS 3, 4)

   A única vez que encontramos o verbo “cair” no período que descreve a criação do universo e a formação do homem no Velho Testamento é quando o relato bíblico diz que: “Deus fez cair um pesado sono sobre Adão”. Entretanto essa ação de “cair” é para erguer algo novo, a mulher, que deveria ser a companheira de Adão.

   Todavia, após a desobediência no Éden, o verbo “cair” toma outro sentido e se torna comum no Velho Testamento. Quase sempre este verbo descreve uma ação contrária à vontade de Deus, um movimento contrário à direção do céu. O “cair” acentua a distância entre o homem e Deus.
No período da inocência, o relacionamento de Deus com a humanidade e da humanidade com Deus era totalmente desprovido de barreiras. Era um relacionamento íntimo e cheio de amor e realizações plenas. Entretanto, após o pecado, esse relacionamento ficou seriamente prejudicado, pois entre a humanidade pecadora e o Deus santo estava, agora, o pecado.

   Deus, embora conhecedor de todas as coisas, criou homens livres, moralmente responsáveis, inclusive livres para desobedecê-lo. Entretanto, Deus não os deixou sem conhecimento daquilo que lhes ocorreria caso optassem pelo pecado. Deus não se revela como paternalista, MAS COMO O DEUS QUE ZELA PELA SUA CRIATURA.

   O homem tinha consciência da santidade de Deus e da sua nova natureza: pecador. Assim Deus se revela como aquele que não deixa passar o pecado impunemente. A presença santa de Deus não pode ser compartilhada com homens que se rebelam contra ele e por isso, pecam. (Gênesis 3:8).

   Diante da realidade do pecado no mundo, Deus insiste com Adão e Eva, em forma indagações, sobre o que havia acontecido e que mudou tanto o relacionamento entre o homem e Deus. Estas perguntas não demonstram o desconhecimento de Deus sobre o que o casal haveria de fazer, mas sim APONTAM PARA A NECESSIDADE DE QUE TODO PECADO SEJA CONFESSADO (Gen. 3:9-13). O pecado é contra a natureza essencial do homem e mantê-lo oculto acarreta sentimentos de culpa, consciente e inconscientemente, o que nos prejudica física, psicológica e espiritualmente. (Salmo 32; Prov. 28:13; Tiago 5:13-16; 1 João 1:9-10; Salmo 51:3; Gênesis 32:9,23-24, 33:3-4; Êxodo 32:6-10, 30-35; ainda temos as experiências de Davi, do filho pródigo e tantos outros).

   Deus se revela como o Deus justo, que pune o mal e exalta o bem (Gen. 3:14-20). Nem mesmo a natureza e a criação irracional foi poupada por causa do pecado.

   Deus se revela como o Deus provedor do meio pelo qual a humanidade voltaria a ter comunhão com ele. Deus permitiu o mal, mas não o deixará impune e nem lhe permitirá vitória (Gen. 3:15).

   Deus se revela como aquele que tem disposição para perdoar os pecados (Gen. 3:21). O verbo "vestir" tem sentido idêntico ao de "cobrir" (Kaphar - Kipper) que é o termo usado para perdão dos pecados (cobrir os pecados).

   Deus se revela como o Deus de amor que, utiliza-se do sofrimento físico a fim de levar-nos a conquista do maior bem (Gen. 3:16-20). O sofrimento passou a ser um limitador da maldade.

   Deus se revela como o único que detém o conhecimento do caminho da vida eterna. Há disposição para revelá-lo aos homens que o quiserem. (Gen. 3:22-24, 15). O ofício sacerdotal nada mais era do que um preparo para conduzir muitos à presença santa de Deus. Jesus, como o sumo-sacerdote, pela cruz, conduziria muitos à presença de Deus eternamente.

   No episódio de Caim e Abel, Deus se manifesta:

a) ADONAI - o nome revelado YWHW passa a ser temido e em seu lugar aparece ADONAI, uma forma que significa "Meu Senhor", um título de respeito, devoção e adoração. (Gen. 4:1)

b) Deus se revela como o Deus que aceita e participa do culto que lhe prestamos (Gen. 4:2-4). O culto passou a ser a forma de comunicação entre o homem e Deus.

c) Deus se revela como o Deus que está interessado muito mais na motivação interior do ofertante que na espécie da oferta. Deus demonstra que toda oferta é apenas meio (imperfeito no VT) de restabelecer uma comunicação entre Deus e o homem. A oferta é por causa do homem e não por causa de Deus. Tudo Deus faz para reaproximarmo-nos dele. (Gen. 4:5-7).

d) Deus se revela como alguém que busca a recuperação do homem (Gen. 4:6-7)

e) Mais uma vez Deus exige a confissão de pecados e se revela como quem não tolera o pecado, mas ama o pecador a ponto de ser-lhe misericordioso (Gen. 4:9-16).

 

 

 

 

B.5.- A REVELAÇÃO DE DEUS A ABRAÃO (GÊNESIS 11-50)

   A revelação de Deus a Abraão é acentuadamente teofânica.

   Teofania é uma revelação através de uma linguagem a respeito de Deus e refere-se às suas manifestações visíveis ou audíveis, quando Deus se apresenta de diversas formas concretas. Entre elas podemos citar: fenômenos da natureza, a glória de Deus, a face de Deus, o Anjo de Deus.
   A revelação teofânica possui uma forma literária específica assim demonstrada por Kuntz: "Inclui uma introdução (Javé apareceu), a auto-asseveração de Deus ("Eu sou o Deus de Abraão, teu pai), a pacificação do temor humano ("Não temas"), a asseveração da graciosa presença divina ("Eu sou contigo), hieros logos ("palavra santa": "abençoar-te-ei"), e a descrição final ("levantou ali um altar"). Este exemplo completo está em Gênesis 26:23-25. Todavia, observe que, nem sempre, as teofanias apresentam todas estas fazes especificamente. Assim, Deus se revela a Abraão como o Deus da eleição e da providência.

   Algumas revelações teofânicas de Deus a Abraão são: Gênesis 12:7; 15; 16:7-14; 17:1-8; 18:1-10; 21:17-21; 22:11-19.

   Outras revelações importantes de Deus a Abraão e aos seus familiares:

a) O Deus que elege (Gen. 12:1-3);

b) O Deus da aliança (Gen. 12:2-3);

c) O Deus altíssimo - El Elyon (Gen. 14:19,20,22)

d) O Deus que vive e vê (o Forte que vê) - El Roi ( Gen. 16:13)

e) O Deus todo-poderoso - El Shaddai (Gen. 17:1)

f) O Deus da aliança (Gen. 17:9-15)

g) Antropomorfismo (Gen. 18:21)

h) Antropomorfismo (Gen. 22:12)

i) O Deus da provisão - Javé Jireh (Gen. 22:14)


   Além de todos esses aspectos da revelação de Deus a Abraão, encontramos na história deste servo de Deus a forma como Deus lapida o caráter que caracteriza o seu povo. A principal mensagem que extraímos do relacionamento de Deus com Abraão é que Deus leva os seus escolhidos ao limite de suas possibilidades para que aprendam a viver na dependência de Deus. Assim, Abraão deveria ser o pai de uma grande nação, mas casou-se com uma mulher estéril, foi desafiado a imolar seu filho amado, teve que abandonar Agar e Ismael no deserto, teve que sair da terra prometida para não morrer de fome.


B.6.- A REVELAÇÃO DE DEUS A MOISÉS

   À Moisés Deus se revela como o Deus eterno, fiel e salvador. Também aqui são muitas as forma teofânicas de revelação:

a) Através do Anjo do Senhor ou Anjo de Deus, literalmente “Mensageiro de YHWH (Ex. 3:2-6; 14:19-22). Segundo Davidson, angeologia avançada não aparece senão nos livros apocalípticos do Velho Testamento (Ezequiel, Daniel e Zacarias), assim seria melhor traduzir a palavra “anjo” como “mensageiro” e deixar ao próprio contexto a decisão quanto à natureza do mensageiro, se é humano, sobre-humano ou uma referência reverente ao próprio Deus, como no caso do texto citado;
b) através do fogo (Ex. 3:2-6); Ex. 6:1-8;

c) nuvem e fogo (Ex. 13:21);

d) nuvem, troves, relâmpagos, clangor de trombetas, fogo, erupção vulcânica, fumaça (Ex. 19:16-25);

e) pedras preciosas (Ex. 24:9-10);

f) a glória do Senhor (Kavod - doxa) (Ex. 16-18);

g) os atributos de Deus (Ex. 34:5-8);

h) nuvem (Num. 9;15:17);

i) o fogo do Senhor (Num. 11:1-3);

j) nuvem (Num. 12:5-10);

k) a face de Deus (Ex. 33:11; Num. 6:25; Deut. 4:37, 34:10)


    Outras importantes revelações a Moisés:

a) O nome de Deus revelado - YHWH (Ex. 3:14)

b) O Deus salvador (Ex. 12:1-14)

c) O Deus misericordioso e gracioso (Ex. 12:22-36)

d) O Deus soberano (Ex. 14:4)

e) O Deus que cura - Javé Rafá ( Ex. 15:26)

f) O Deus que nossa bandeira - Javé Nissi (Ex. 17:15)

g) O Deus da aliança (Ex. 24:1-8)

h) O Deus do perdão (Ex. 34:9-10)


   É acentuada a revelação da misericórdia de Deus sob o povo hebreu na liderança de Moisés. Textos como Êxodo 9:18-25; 17:1-7, 8-15; etc, mostram que Deus sempre se mostra provedor, apesar das murmurações.

   A maneira como Deus preservou a vida de Moisés, mostra o quanto Deus é soberano, onisciente, onipotente. Seu conhecimento é inerrante, por isso, seus planos são infalíveis. Deus colocou Moisés dentro do palácio de Faraó para utilizá-lo, no momento oportuno, contra o próprio Faraó e em favor do seu povo.

 

C) Revelação através do Nome – Javé, o nome revelado e outros nomes:

   A revelação bíblica de Deus foi progressiva e utilizou-se de diversos métodos. O nome revelado de Deus mais os títulos que o povo de Israel ou o próprio Deus lhe conferiu faz parte desta revelação progressiva de Deus, revelando o seu ser, a sua essência e sua relação com sua criatura de forma geral. O Velho Testamento, pela natureza da religião monoteísta dos hebreus, caracteriza Deus na pessoa do Pai. Entretanto os nomes de Deus revelam a essência de Deus dentro desta revelação progressiva, ainda que no Velho Testamento tais nomes estejam relacionados às ações de Deus na pessoa do Pai, pois para o hebreu não havia ainda uma teologia da Trindade sistematicamente formulada e nem tampouco uma doutrina clara nesse sentido.

   Ao estudarmos os nomes de Deus, precisamos ter em mente a natureza teológica desses nomes e não suas formas simbólicas. O nome na cultura hebraica estava relacionado às características intrínsecas das pessoas e não ao aspecto da beleza do nome em sua forma escrita. Alguns personagens bíblicos, pela experiência profunda que tiveram com Deus também tiveram seus nomes mudados: Abrão para Abraão, Jacó para Israel, etc., e todos os nomes estavam de certa forma relacionados às experiências dos pais com Deus ou às circunstâncias dos nascimentos dos filhos: Moisés, Samuel, etc. Assim, precisamos entender os nomes de Deus dentro do pensamento cultural hebreu a fim de chegarmos ao conhecimento mais profundo da natureza e da essência de Deus.

   Em todo o AT o conceito de Deus é o de um Ser onipotente (Gn. 18:14) que possui uma personalidade completa e que pode ser conhecido plenamente como Deus em cada etapa do processo histórico. Ele é onisciente (Pv.15:3) e tem conhecimento total de todos os eventos futuros até ao fim dos tempos (Is. 46:10). Seus propósitos e atos são caracterizados por amor ou misericórdia (HESED), que cerca igualmente a criação e as criaturas (Sl.145:9) e que acha sua expressão nas atividades altruístas da bênção e da redenção. A idéia de Deus como Pai do seu povo está ligada com o estabelecimento da nação da aliança, cujos membros se tornam Seus filhos adotivos, e também se relaciona com a obra do Messias, que finalmente aumentará a família dos fiéis mediante a Sua obra de redenção.

 

- NOMES E TÍTULOS DE DEUS

a) 'EL - Gen. 33:20 - força (ser forte), poder (ser poderoso), ligar. Este é o nome mais primitivo de Deus e está relacionado ao nome genérico de Deus e que diz respeito à sua essência, manifestando o seu poder , sua transcendência e imanência.

b) ELOHIM - Gen. 1:1ss - plural de 'EL. É usado sempre com o verbo no singular. Expressa a relação de Deus com o universo e com os povos não israelita. Expressa Deus como criador e a forma plural é majestática, mostrando a profundidade e sublimidade do ser ao qual se refere.

c) 'EL ELYON - Gen. 14:20 - "Deus Altíssimo". Não traduz a idéia de espaço, pois Deus é onipresente, mas traduz o conceito de transcendência, superioridade, soberania, distinção.

d) 'EL SHADDAI - Ex. 6:3 - "Deus Todo-Poderoso". Revela o ser ilimitado no poder e que corresponde ao atributo da onipotência. Este nome foi manifestado pelo próprio Deus, antes de revelar-se como YHWH. Com exceção do nome revelado a Moisés, todos os demais nomes derivados de YHWH partem da relação do homem com Deus que, devido às ações de Deus, vão cada vez compreendendo a natureza, a essência e o ser de Deus.

e) YHWH - Ex. 3:14-15 - "Eu Sou" - O nome revelado a Moisés. Expressa a relação de Deus com o povo de Israel. Possivelmente derivado da raiz do verbo "ser" (hava), o substantivo JEVEH (1a pessoa do singular do verbo ser) significa "eu sou". Conotação: O DEUS PRESENTE (a presença de Deus foi garantida a Moisés - Ex. 3:12-14)); O DEUS LIVRE ou A LIBERDADE DE DEUS; A ETERNIDADE DE DEUS; O DEUS DA ALIANÇA (Ex. 19:1-8).

f) JAVE JIREH - Gen. 22:13-14 - "O Senhor Proverá". Surge da experiência profunda de Abraão com Deus e de sua fé inquestionável num momento de dura provação.

g) JAVE NISSI - Ex. 17:15 - "O Senhor é Minha Bandeira". Surge da experiência do povo hebreu com Deus, onde Ele atua com aquele que luta e vence pelo seu povo.

h) JAVE SHALOM - Jz. 6:24 - "O Senhor é Paz". Livre da condenação da morte pela consciência de que vendo Deus o homem morreria, Gideão entende que Deus não se interpõe como inimigo do homem, mas como aquele que busca um relacionamento harmonioso.

i) JAVE SABAOTH - 1 Sm 1:3 - "O Senhor dos Exércitos". É o nome expresso na experiência de Elcana e Ana que, embora não tivessem filhos, serviam a Deus de contínuo, expressando a submissão àquele que comanda os exércitos dos céus e da terra e, portanto, é soberano e a Ele servimos incondicionalmente.

j) JAVE MACCADESHKEM - Ex. 31:13 - "O Senhor que te Santifica". Na experiência do povo hebreu com Deus, ficou claro que Deus é santo e esse lhe um atributo próprio porém comunicável aos homens e só pela sua absorção chegamos diante de Deus.

k) JAVE RAAH - Sl. 23:1 - "O Senhor Meu Pastor". Expressa a dependência do homem e o grande amor e poder de Deus.

l) JAVE TSIDKENU - Jr. 23:6 - "O Senhor Justiça Nossa". Jeremias, na sua vidência de profeta, antevê o Renovo que procede de Davi como aquele que justificaria o povo de Israel. Esse é um atributo que diz respeito à justiça de Deus e suas exigências. Esta é uma profecia messiânica que mostra em quem a justiça de Deus seria satisfeita a fim de justificar os pecadores.

m) JAVE 'EL GMOLAH - Jr. 51:56 - "O Senhor Deus da Recompensa". O Senhor, por causa da sua justiça, é justo juiz. Seus juízos são perfeitos e estão relacionados ao seu amor, santidade e justiça.
n) JAVE NAKEH - Ez. 7:9 - "O Senhor que Fere". O pecado suscita a ira de Deus e os seus juízos contra os ímpios e rebeldes. A Deus pertence a “vingança” pois seus juízos são perfeitos.

o) JAVE SHAMMAH - Ez. 48:35 - "O Senhor que Está Presente". Pressupõe a onipresença de Deus.
p) JAVE RAFÂ - Ex. 15:26 - "O Senhor que te Sara". Sua soberania e seu poder fazem dele o médico dos médicos, pois, como Criador, conhece a natureza humana totalmente.

  

D) Revelação no Período Profético - No período profético, os profetas falavam em nome de Deus, movidos pelo Espírito de Deus. Assim, as formas anteriores de Deus se revelar foram mudadas pela voz profética. Durante o período profético, são escassas as aparições do anjo do Senhor. As teofanias, os antropomorfismos, o discurso direto, o sacerdócio, todas estas maneiras de revelação mudam para a voz profética e multiplicam-se as visões. No período profético, portanto, predominam as revelações pelo Espírito de Deus e por visões aos profetas que foram levantados pelo próprio Deus para revelarem a sua vontade e o seu caráter.

 

- A Lei de Deus e as implicações Teológicas do Decálogo

   Deus revela Sua vontade, no tocante ao procedimento do homem, por meio dos mandamentos que lhe apresenta.  O propósito da lei é fazer com que os homens sintam sua necessidade de Jesus Cristo e do Seu evangelho de perdão.  Pela lei vem o conhecimento do pecado. Os homens precisam buscar a Deus, reconhecendo-se pecadores, ou seja, criaturas que sabem ter desobedecido a lei e o governo de Deus, reconhecendo-se verdadeiros inimigos do próprio Deus pelo desrespeito às Suas leis.

   Algumas pessoas dão ênfase à distinção entre mandamentos ‘morais’ e mandamentos ‘cerimoniais’. As exigências ‘morais’ são aquelas que em si mesmas são justas e nunca podem ser revogadas. Ao contrário, as leis ‘cerimoniais’ são aquelas sobre observâncias, sobre o cumprimento de certos ritos, por exemplo: os mandamentos acerca dos holocaustos e o incenso. . . . As leis ‘cerimoniais’ podem ser ab rogadas na mudança de dispensação, mas não as leis ‘morais’.

 

A lista dos valores divinos

 

Texto bíblico: Êxodo 20

 

            A lista dos Dez Mandamentos foi didaticamente formada para auxiliar o povo de Deus a manter vivos na mente e no coração os valores divinos. Este recurso de escrever as leis em breves sentenças era muito necessário, já que não era fácil, em tempos tão remotos, o registro e a popularização dos documentos e dos livros históricos. De uma forma geral, o conhecimento era passado oralmente (de pai para filho e de vizinho para vizinho) e, por isso, a forma breve de escrever os valores divinos era tão relevante, pois assim as pessoas poderiam memorizar e ensinar às outras gerações.

            Existem várias listas de valores divinos no Antigo Testamento visando aos objetivos mencionados. Nas listas predominam a comunicação resumida dos conteúdos (valores) por meio da formulação de sentenças negativas ou imperativas. Estas listas não detalham os delitos e, tampouco, descrevem as penas e/ou punições. O objetivo era tornar simples o conhecimento do que se devia fazer na prática da vida diária.

 

 

1. Qual a função da lista?

 

            A lista com os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17 e Dt 5.6-21) apresenta, numa visão geral, dois focos para orientar a vida do povo de Deus: valores religiosos (Êx 20.1-11 e  Dt 5.7-15) e valores da vida em sociedade (Êx 20.12-17 e Dt 5.16-21). Os valores religiosos se embasavam na experiência libertadora pelo poder do Deus Javé com a saída do Egito e apontavam para a adoração exigente que este Deus prescrevia para o seu povo. Os valores religiosos constituíam-se como uma novidade para aquelas pessoas, pois elas conviviam com outras manifestações religiosas bastante diferentes em sua relação com a divindade ou divindades. Os valores sociais destacavam a honra e a proteção à família, a proteção à vida, a prática da justiça no julgamento de causas na sociedade e o respeito ao próximo e às suas propriedades.

 

 

UNIDADE III – A ELEIÇÃO DE DEUS

 

1 - ELEIÇÃO DE UM POVO - ISRAEL


   BERITH é a palavra hebraica que é traduzida por aliança ou concerto no Velho Testamento.
A origem etimológica de BERITH pode vir de Gen. 15:9-11, onde a forma da aliança com Abraão tem algo em comum com "cortar". Pode vir da palavra "agregar" ou "agrilhoar". Ou ainda da palavra "comer" pressupondo uma refeição que era servida após a formação da aliança, por exemplo, após a aliança no Monte Sinai, Moisés e os anciãos subiram ao monte e lá comeram e beberam (Êxodo 24:11).

   É a palavra que identifica a aliança que Deus fez com Moisés no Monte Sinai. É usada também com o concerto que Deus fez com Abraão. Os títulos das duas divisões da Bíblia, Novo e Velho Testamentos têm suas origens na palavra BERITH e DIATHEKE (testamento). Entretanto traduzir a palavra BERITH por aliança, testamento, concerto ou pacto a torna menos do que significou no conceito hebreu. Uma aliança ou contrato em nossos dias é feito em comum acordo com ambas as partes, onde os acordados procuram iguais vantagens no pacto celebrado. O próprio casamento exige de ambos os cônjuges iguais benefícios no pacto celebrado e, certamente não haveria aliança onde uma das partes não estivesse compromissada a assumir suas responsabilidades. A aliança que Deus fez com o povo de Israel é inédita porque Deus a fez sem consulta ao povo, os termos foram fixados por Deus e o povo apenas teria de aceitá-la ou não. Por outro lado as vantagens eram todas do povo, pois este sim, tinha necessidade de uma aliança com Deus.

  

   A aliança deuteronômica tem uma forma que pode ser expressa da seguinte forma:

a) Preâmbulo ou introdução

b) Recitação histórica

c) Declaração dos propósitos

d) Obrigações

e) Invocação de Deus

f) Bênçãos e maldições

As alianças feitas no Velho Testamento foram as seguintes:

a) Aliança com Noé (Gen. 9:8 ss.)

b) Aliança com Abraão (Gen. 12:1-3, 15, 17)

c) Aliança com Israel (Ex. 19-24)

d) Aliança com Davi (II Sam. 7)


   A aliança feita por Deus foi motivada por outras duas palavras extremamente significativas no grande concerto: HESED e `AHABA.


   HESED é ainda mais difícil de ser traduzida que BERITH e, por isso mesmo, é normalmente utilizada sem tradução. Pode-se encontrar na Bíblia diversas traduções para HESED, tais como: bondade, beleza, glória, benevolência, beneficência, benignidade, amorável benignidade, misericórdia e compaixão. Mas HESED está mais próximo de AMOR ETERNO e que se aproxima bastante da GRAÇA DE DEUS. HESED expressa a fidelidade dos pactuados (I Sam. 20:14-16), um pacto feito com HESED do Senhor jamais poderia ser desfeito. HESED, portanto, é o amor fiel e imutável de Deus no cumprimento das suas promessas feitas a Israel no concerto.


   `AHABA é tido como o amor eletivo de Deus. Quando associamos o HESED com o `AHABA de Deus podemos perceber a intensidade da aliança que Deus fez com Israel. O profundo significado do amor do Senhor pode ser percebido quando se associa o amor inabalável (HESED) com o amor eletivo (`AHABA) com o favor divino (HEN), com a fidelidade (`EMETH), com a justiça (TSEDEQ) e com a compaixão (REHUM) de Deus (Jer. 2:2; Sal. 103:8); 89:24; 36:10).


   Embora Deus amasse seu povo com seu HESED e `AHABA, Israel não cumpriu os termos da aliança, porém Deus não deixou de amor seu povo (Os. 11:1-9). A quebra da aliança foi por parte do povo e não de Deus, os que quebraram a aliança foram considerados não-povo. Devido a desobediência do povo os profetas foram cada vez mais perdendo a esperança de uma aliança com a totalidade do povo e começaram a proclamar uma aliança feita com os remanescentes o “toco de Jacó”, os que sobraram dentre o povo sem quebrar a aliança (Jer. 23:5, 33:15, Is 1:9, Ez 6:8-10, Zc 8:11), neste restante Deus haveria de cumprir sua aliança e os profetas, com essa visão, começaram a profetizar o reino messiânico e uma nova aliança cuja natureza não seria mais um sinal externo, mas no interior do coração (Jeremias 32:38-40).


 

 

UNIDADE IV – A SALVAÇÃO

 

1 - JUÍZO E IRA DE DEUS - O DIA DO SENHOR


   Possivelmente os profetas menores Joel e Sofonias, são os que mais diretamente se expressam sobre o dia do Senhor.

   Alguns comentaristas fazem distinção entre, "o dia do homem ou tribunal humano" (1 Cor. 4:3 - domínio do governo dos homens), "o dia de Cristo" (Filip. 1:6 - a volta de Cristo ou o arrebatamento), "o dia do Senhor" (tribulação e reino messiânico), "o dia de Deus" (1 Cor. 15:28 - habitação eterna com Deus). Aqueles que assim pensam, o fazem devido a necessidade de ver as promessas de Deus para Israel serem cumpridas. Para eles o dia do Senhor será o período do derramamento do juízo de Deus e a implantação do reino messiânico em Israel.

   Conforme Joel, Sofonias e, ainda, Obadias, o Dia do Senhor é o dia de juízo do Senhor. Nas versões portuguesas da Bíblia, a palavra juízo é considerada como sinônima de justiça, mas freqüentemente significa também os estatutos de Deus e as ordenanças da lei. No sentido do julgamento do Senhor, o termo refere-se ao julgamento dos atos dos homens e das nações na história, e também no fim da história. Joel antevê este julgamento no "vale da decisão" ou de Josafá. O Dia do Senhor é a vindicação da justiça e dos justos.

   Os israelitas, em geral, tinham a tendência de pensar, por muito tempo, que eles eram os justos, em virtude da sua eleição como o povo do Senhor. Em certos casos esta opinião recebe apoio nas Escrituras e assim se justifica, em parte, especialmente quando a vida moral e religiosa dos israelitas é comparada com a de seus vizinhos. É deste ponto de vista que se entende o significado do Dia do Senhor na profecia de Obadias. Neste dia de julgamento a maldade das nações cairá sobre a cabeça delas, mas para os da casa de Jacó haverá livramento (vv. 15-17). De igual modo pensa Joel.

   No tempo de Amós, o povo do Reino do Norte desejava o Dia do Senhor (5:12). Mas o povo sofria por causa de seu preconceito teológico. O povo de Israel pensava que o Dia do Senhor significava o estabelecimento do seu governo benéfico sobre o povo escolhido. Mas não entendia a justiça de Deus, que exige a justiça do povo do seu reino. Nesta profecia, o Dia do Senhor será um dia de julgamento de Israel. Contrário ao pensamento popular, a eleição e os privilégios especiais de Israel não podem isentá-lo do julgamento, mas pedem antes o castigo de todas as suas injustiças (cap. 3). Não pode haver esperança nenhuma para Israel no Dia do Senhor. "Será como se um homem fugisse de diante dum leão, e lhe saísse ao encontro um urso; ou como se entrasse em casa, e encostasse a mão á parede e o mordesse uma cobra" (5:19).

   Sofonias descreve o castigo terrível que cairá sobre Judá e Jeremias no Dia do Senhor:

"Dia de indignação é aquele dia, Dia de angústia e ânsia,Dia de alvoroço e assolação,Dia de trevas e escuridão,Dia de nuvens e de densas trevas" (1:15).

   O Senhor derramará toda a fúria de sua ira sobre as nações, e toda a terra será devorada; mas apesar deste terrível castigo, um restante de Israel e das nações escapará, receberá do Senhor o dom de uma língua pura e servirá no estabelecimento do novo reino mundial do Senhor (3:8,9).
Segundo Ezequiel 30:3-10, Egito, Pute, Lude, Etiópia e outras terras seriam desoladas no terrível Dia do Senhor.

   Isaías também descreve a terribilidade do Dia do Senhor (13:6-22). Será um dia cruel, com furor e ira ardente, fazendo da terra uma desolação, com a destruição dos pecadores. A terra será sacudida do seu lugar, o sol ficará escurecido, a lua e as estrelas não darão a sua luz.

   Joel declara que o Senhor se assentará no vale de Josafá para julgar as nações. O Egito e Edom serão castigados por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, mas o Senhor será o refúgio do seu povo (3:11-13).

   Os profetas assim entenderam que o Dia do Senhor é o dia em que Deus haveria de julgar os povos e as nações com justiça, e estabelecer o seu reino eterno em todo o mundo.

 

2 - O ARREPENDIMENTO E O PERDÃO


   A doutrina do pecado é fartamente citada no Velho Testamento. Os livramentos de Deus junto ao povo de Israel estavam sempre relacionados ao pecado do povo. Havia um binômio constante nesta relação: castigo/graça. A doutrina do arrependimento e do perdão pode ser vista em inúmeras referências (Jer. 31:34; Isaías 43:25; 44:22; Miq. 7:18-20; Salmo 51:7,9,10; etc). A necessidade do arrependimento e do perdão está relacionado ao pecado praticado pela Nação e/ou pelos indivíduos.

   O conceito de pecado no Velho Testamento é obtido pelo estudo de palavras tais como: HATA`(errar o alvo - Prov. 8:36; II Sam. 19:20; Ex. 3:30-33; Jó 1:22; 1:5; Salmo 78:32; Is. 43:27,28); `AVON (iniquidade, culpa - Jó 15:5; Jer. 11:10; Is. 5:18; 43:24); SHAGAG e SHAGA (errar, extraviar-se, vaguear, pecar - Lev. 4:2, 22, 27; Num. 15:27); SUR e SUG (virar, desviar, afastar, abandonar, revoltar - Jui. 2:17); NATASH e AZAB (abandonar - Deut. 32;15; 29:25); porém a palavra que retrata o pecado no seu sentido mais profundo é PASHA' (rebelar-se ou revoltar-se - I Reis 12:19; Is. 1:2; Os. 8:1). PASHA' mostra que o pecado, na sua essência, é mais do que a violação de mandamentos e proibições. O pecado é revolta da vontade do homem contra a vontade de Deus. Diante desta farta referência ao pecado, destaca-se a necessidade do arrependimento e do perdão. O arrependimento é o desvio do pecado e é a condição humana para o perdão de Deus (Ez. 18:30). O perdão é a resposta divina, motivada pelo amor de Deus e efetivada pelo quebrantamento do homem (2 Crônicas 7:14). O perdão divino é descrito por palavras tais como: NASA' (levantar, carregar, tomar, tirar, levar embora - Gen. 50:17; Miq. 7:18; Sal. 32:5 e 85:2); SALACH (perdoar - Jer. 31:34, 33:8; Sal. 103:3); YASHA' (salvar das conseqüências e do poder do pecado - Jer. 17:14; Ezeq. 36:29); RAPHA' (cura física e espiritual - Is. 19:22; Jer. 17:14). Assim, perdão significa passar por cima, esquecer, apagar, riscar, cancelar, obliterar (Sal. 51:9; Is. 43:25; 44:22; Salmo 85:2).

 

3 - A DOUTRINA DA REDENÇÃO


   Redenção é palavra comum na Bíblia e não somente a doutrina da redenção, mas sua própria história encontram profundas raízes no Velho Testamento. A redenção envolve a idéia do pagamento de um resgate e pode denotar livramento temporal, físico ou espiritual. As palavras que denotam redenção no Velho Testamento são: PADÃ e GA'AL traduzidas para o grego na Septuaginta como: LYTROUSTHAI e APOLYTROSIS.

   No Velho Testamento tanto os bens como a vida poderiam ser redimidas mediante o pagamento de um preço apropriado. Deus tinha direito, a partir da libertação do Egito, quando Deus poupou os primogênitos, sobre a vida dos primogênitos e cada um deles precisava ser redimido por pagamento em dinheiro (Ex. 13:13-15).

   Encontramos a idéia da redenção dos bens materiais em textos como (Lv. 25:25-27, 47-54, Rt. 4:1-12).
   A libertação do povo da escravidão no Egito é tida como redenção (Ex. 6:6, 15:13), por isso Deus é tido como o Redentor de Israel (Sl. 78:35). O preço pago seria, talvez, o grande poder de Deus manifestado na libertação do povo.

   No cativeiro babilônico mais uma vez a libertação ficou conhecida como redenção divina (Jer. 31:11; 50:33-34). O próprio indivíduo é mencionado no AT como objeto da redenção divina, como no caso de Jó e sua esperança no Redentor (Jó 19:25; Pv. 23:10-11).

   O ponto alto da redenção no Velho Testamento é sua conexão com a libertação do pecado (Salmo 130:8; Is. 59:20; Is. 44:22). A pequena quantidade de referências sobre a redenção do pecado se explica pelo fato de que quase todo o tipo de redenção efetuado por Deus foi em conseqüência de pecados praticados pelo povo de Israel (Is. 40:2), além do mais o sistema sacrificial foi a proclamação sempre viva da necessidade da redenção dos pecados.

 

 

4 - SISTEMA SACRIFICIAL NO VT E EXPIAÇÃO

 

   A lei cerimonial foi um meio de separar o povo escolhido do mundo para o serviço do Senhor. Esta nação santificada e assim preparada para o serviço é designada como um reino de sacerdotes. Todos os homens da nação sacerdotal tinham o privilégio de aproximar-se de Deus no serviço. Como intermediários entre o povo e Deus, os sacerdotes tinham que chegar perante o Senhor no serviço. Tinham que ser semelhantes, tanto quanto possível, ao Senhor no seu caráter e nos seus motivos. O ideal da santidade do sacerdote não podia ser perfeitamente realizado, mas podia ser representado simbolicamente, para ensinar ao povo um entendimento cada vez mais claro do ideal. O sumo sacerdote, representando as virtudes e a santidade de toda a casta sacerdotal, era o único que podia entrar no lugar santíssimo, como intermediário entre todo o povo e o Senhor, porém, apenas uma vez por ano.

   O sistema sacrificial culminava no grande dia de expiação. Este era o dia mais santo e mais importante na vida religiosa do povo de Israel. Todo o possível era feito para por em relevo o significado da expiação de todos os pecados de todas as pessoas da coletividade do povo do Senhor. O tabernáculo, o altar e o sacerdote tinham que ser ungidos "para os santificar" para o serviço (Lev. 8:10-12).


5 - O OBJETIVO DO SISTEMA SACERDOTAL

- PAPEL TEOLÓGICO DO SACERDÓCIO


   O resultado conseguido pelo sacrifício oferecido pelo sacerdote em favor do povo era o perdão dos pecados. A palavra hebraica KAPHAR, em várias formas, é usada para descrever o efeito da oferta apresentada em qualquer tempo em favor do pecador, ou em favor de todo o povo pecaminoso, quando apresentada pelo sumo sacerdote, no santíssimo lugar, no grande dia de expiação. O sentido etimológico de KAPHAR é duvidoso. O substantivo KOPHER é usado em muitos lugares no sentido de resgate ou preço da vida (Ex. 21:30; Jó 33:24; Prov. 6:35; Is. 43:3). O piel, ou intensivo KIPPER , é usado no sentido de resgatar, expiar, propiciar, reconciliar, cobrir.

   Os sacrifícios visavam apenas os pecados cometidos por ignorância ou por enfermidade. As ofertas cobriam os pecados de pessoas que pertenciam ao povo do concerto, a fim de reter, ou manter, a comunhão desembaraçada com o Senhor.

   O efeito do sacrifício era apenas símbolo do arrependimento que o acompanhava, e por si só não tinha qualquer eficácia, senão no espírito do ofertante, segundo o esclarecimento da religião puramente ética ou espiritual, pelos profetas. A oferta teve o efeito de aliviar o espírito do ofertante do sentimento de culpa. Não há diferença essencial entre o ato de cobrir o pecado pelo sacrifício, e o de conseguir por meio de oração que o Senhor esconda a sua face do pecado.


6 - O SACRIFÍCIO - A FUNÇÃO DO SACRIFÍCIO


   O povo de Israel, libertado e escolhido pelo Senhor, apresenta-se, desde o Monte Sinai, como povo salvo pela graça de Deus, separado, escolhido ou eleito e dedicado, segundo o concerto, ao serviço do Senhor. Mas nem o amor imutável (HESED) do Senhor poderia prender qualquer israelita contra a sua própria vontade. O livre-arbítrio dos israelitas fez com que alguns escolhessem rebelar-se contra o Senhor e perderem o seu lugar entre o povo escolhido.

   O sistema sacrificial nunca se apresenta em qualquer lugar como meio de salvação. "Os sacrifícios foram assim oferecidos a Deus, que estava em relações de graça com o seu povo. Não foram oferecidos para alcançar a sua graça, mas para retê-la, ou para evitar que a comunhão existente entre Deus e o seu povo fosse interrompida ou terminada pelas imperfeições ainda inevitáveis do seu povo, quer seja de indivíduos, quer seja do povo inteiro."

 

7 - A FUNÇÃO DAS LEIS RITUAIS E DE PUREZA

 

   Morando em um ambiente politeísta, e associados com vizinhos corrompidos, os israelitas tinham que lutar para manter a fidelidade ao seu Senhor. Reconhecendo que o povo, na sua enfermidade moral, poderia cair em várias qualidades de erros, o Senhor estabeleceu o sistema de sacrifícios e ofertas para fazer expiação dos pecados de enfermidade e ignorância. Assim o sistema ritual foi instituído para tratar de pecados cometidos dentro do concerto. Deste modo, ofereceu ao povo, meios de livrar-se do sentimento de culpa de uma qualidade limitada de pecados. Para os pecados cometidos com alta mão, pecados de rebelião contra Deus, não havia expiação, porque tais pecados eliminavam o pecador do povo do concerto.

   O sistema sacrificial servia ao propósito do Senhor no treinamento espiritual do povo escolhido no período primitivo da história. A graça de Deus operava por intermédio do sacrifício para aliviar o pecador do sentimento de culpa e manter a comunhão com o Senhor. Gradualmente esclareceu e aprofundou o conhecimento da santidade e da justiça de Deus. Servia também para acentuar a gravidade do pecado, que separa o homem da presença de Deus, e para mostrar o amor imutável do Senhor na salvação do pecador.

 

 

O RITUAL EM SI

   O Fiel trazia sua oferta (um animal sem defeito físico tirado da própria manada ou rebanho ou, no caso do povo pobre, rolas ou pombos) até o pátio diante do tabernáculo. Colocava a mão sobre ele para significar que o animal o representava e depois o imolava (sacrificava). Se o sacrifício era público o Sacerdote era quem realizava essa operação. O Sacerdote tomava a bacia com o sangue e com ele espargia o altar, queimando a seguir algumas partes específicas do animal que continham determinadas porções de gordura. O que restava era consumido pelos Sacerdotes e suas famílias ou ainda pelo Sacerdote junto com os ofertantes.

 

   O valor da expiação

   A vítima da expiação devia ser sempre sem defeito para servir de substituto ao pecador. A morte da vítima era a parte mais importante no ritual da cerimônia expiatória porque essa era a pena merecida pelo pecador. Além disso, há muitas alusões ao sangue da vítima como o meio exato da expiação.

1. O sangue foi requerido por Deus para expiação do pecado; (Lev. 17.11). Porque sem derramamento de sangue não há remissão; (Heb. 9.22). O sangue foi o preço pago para libertação dos condenados.

2. O sangue foi requerido diariamente no altar; “Isto é o que oferecereis sobre o altar: dois cordeiros de um ano cada dia, continuamente. Um cordeiro oferecerás pela manhã, e o outro cordeiro oferecerás à tardinha” (Êx. 29.38,39). O sacrifício teria que estar continuamente perante Deus.

3. O fogo teria que arder sem cessar sobre o altar; (Lev. 6.8-13). “Esta é a lei do holocausto: O holocausto será queimado sobre o altar toda a noite até pela manhã, e o fogo do altar arderá nele” (v. 9). O oficiante devia velar pelo fogo constante para queimar o sacrifício contínuo.

4. O sangue da expiação foi requerido anualmente no altar; (Lev.16.29-34). “Isto vos será por estatuto perpétuo: No sétimo mês, afligireis as vossas almas, e nenhuma obra fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós. Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor;” (vv. 29,30).

5. O sangue espargido no altar cobria o pecador, mas não tirava o pecado; (Heb.10.4,11). “Nesses sacrifícios, porém, cada ano se faz comemoração dos pecados, porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados.” E assim todo o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados.” A repetição sacrificial era constante porque não tinha méritos duradouros, nem abrangência universal. Não acontece assim com o sacrifício de Cristo, o qual é valido pela eternidade, sem necessidade de repetição, e tem abrangência universal; (cf. 1 João 2.2).

6. Ora, aquele sangue apontava para algo muito melhor, o sangue do Cordeiro de Deus, que havia de vir para tirar o pecado do mundo; (João 1.29). Foi deste modo que João Baptista interpretou os sacrifícios animais do Antigo Testamento, relacionando-os com o sacrifício neotestamentário do Cordeiro de Deus.

7. Havia, por conseguinte, necessidade de um sacrifício tal que expiasse o pecado universal para sempre; (Heb. 7.26,27). “Mas este (Jesus), havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus;” (Heb. 10.12). Como ao homem isso era impossível, só poderia ser efetuado mediante a ação de Deus, sacrificando o Seu único Filho no altar do mundo. 

   Quatro tipos distintos de sacrifício eram prescritos:

1 - A oferta queimada, significando literalmente "aquilo que ascende":

Lv.1:3-13 – “Se a sua oferta for holocausto de gado, trará macho sem defeito; à porta da tenda da congregação o trará, para que o homem seja aceito perante o SENHOR. 4  E porá a mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação. 5  Depois, imolará o novilho perante o SENHOR; e os filhos de Arão, os sacerdotes, apresentarão o sangue e o aspergirão ao redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação. 6  Então, ele esfolará o holocausto e o cortará em seus pedaços. 7  E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar e porão em ordem lenha sobre o fogo. 8  Também os filhos de Arão, os sacerdotes, colocarão em ordem os pedaços, a saber, a cabeça e o redenho, sobre a lenha que está no fogo sobre o altar. 9  Porém as entranhas e as pernas, o sacerdote as lavará com água; e queimará tudo isso sobre o altar; é holocausto, oferta queimada, de aroma agradável ao SENHOR. 10 Se a sua oferta for de gado miúdo, de carneiros ou de cabritos, para holocausto, trará macho sem defeito.11  E o imolará ao lado do altar, para o lado norte, perante o SENHOR; e os filhos de Arão, os sacerdotes, aspergirão o seu sangue em redor sobre o altar. 12  Depois, ele o cortará em seus pedaços, como também a sua cabeça e o seu redenho; e o sacerdote os porá em ordem sobre a lenha que está no fogo sobre o altar; 13  porém as entranhas e as pernas serão lavadas com água; e o sacerdote oferecerá tudo isso e o queimará sobre o altar; é holocausto, oferta queimada, de aroma agradável ao SENHOR”.  

   Ela produzia um "sabor de satisfação" de modo que do altar, no tribunal da casa de Deus, um fogo perpétuo e o sacrifício pudessem, duas vezes por dia, "simbolizar a resposta do homem à promessa de Deus. Apenas o melhor animal, um macho sem mácula, podia ser oferecido, o que sugere a máxima devoção. A imposição de mãos retratava a identificação completa.

2 - A oferta de manjares era literalmente chamada uma "dádiva". Oferecida junto com a oferta queimada e a oferta pacífica, ela exigia "o sal da aliança do teu Deus": (Lv.2:13) – “Toda oferta dos teus manjares temperarás com sal; à tua oferta de manjares não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas aplicarás sal”. A "porção memorial", queimada com incenso ao Senhor, tinha como objetivo trazer a aliança à lembrança de Deus. O simbolismo sugeria que Deus era o convidado de honra.

3 - A oferta pacífica: Lv.3:6-16 – “6 Se a sua oferta por sacrifício pacífico ao SENHOR for de gado miúdo, seja macho ou fêmea, sem defeito a oferecerá. 7 Se trouxer um cordeiro por sua oferta, oferecê-lo-á perante o SENHOR. 8 E porá a mão sobre a cabeça da sua oferta e a imolará diante da tenda da congregação; e os filhos de Arão aspergirão o sangue sobre o altar, em redor. 9  Então, do sacrifício pacífico trará ao SENHOR por oferta queimada a sua gordura: a cauda toda, a qual tirará rente ao espinhaço, e a gordura que cobre as entranhas, e toda a gordura que está sobre as entranhas,10  como também os dois rins, a gordura que está sobre eles e junto aos lombos; e o redenho sobre o fígado com os rins, tirá-los-á. 11 E o sacerdote queimará tudo isso sobre o altar; é manjar da oferta queimada ao SENHOR. 12 Mas, se a sua oferta for uma cabra, perante o SENHOR a trará.13  E porá a mão sobre a sua cabeça e a imolará diante da tenda da congregação; e os filhos de Arão aspergirão o sangue sobre o altar, em redor. 14  Depois, trará dela a sua oferta, por oferta queimada ao SENHOR: a gordura que cobre as entranhas e toda a gordura que está sobre as entranhas,15  como também os dois rins, a gordura que está sobre eles e junto aos lombos; e o redenho sobre o fígado com os rins, tirá-los-á. 16 E o sacerdote queimará tudo isso sobre o altar; é manjar da oferta queimada, de aroma agradável. Toda a gordura será do SENHOR”.

   Seguindo um ritual preparatório idêntico àquele de quem apresentou a oferta queimada, o ofertante comia o sacrifício com alegria diante do Senhor. Não era permitido que a festa resultante durasse mais que um dia, para garantir que um número de amigos fosse incluído. Ela expressava a plenitude e o bem-estar denotados pela paz de Deus, compartilhada com sacerdotes e amigos.

4 - As ofertas pelo pecado e pela culpa: Lv.4:1-7 – “Disse mais o SENHOR a Moisés:2  Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém pecar por ignorância contra qualquer dos mandamentos do SENHOR, por fazer contra algum deles o que não se deve fazer,3  se o sacerdote ungido pecar para escândalo do povo, oferecerá pelo seu pecado um novilho sem defeito ao SENHOR, como oferta pelo pecado.4  Trará o novilho à porta da tenda da congregação, perante o SENHOR; porá a mão sobre a cabeça do novilho e o imolará perante o SENHOR.5  Então, o sacerdote ungido tomará do sangue do novilho e o trará à tenda da congregação;6  e, molhando o dedo no sangue, aspergirá dele sete vezes perante o SENHOR, diante do véu do santuário.7  Também daquele sangue porá o sacerdote sobre os chifres do altar do incenso aromático, perante o SENHOR, altar que está na tenda da congregação; e todo o restante do sangue do novilho derramará à base do altar do holocausto, que está à porta da tenda da congregação”.

   Distintas das três festas anteriores que eram voluntárias, estas eram exigidas quando um pecador quebrava a lei de Deus e tinha o seu relacionamento interrompido com o Criador. Nem a congregação nem o Sumo sacerdote estavam sem pecado; conseqüentemente, eles precisavam de sangue para ser aspergido diante do véu e aplicado aos dois altares. Uma vez por ano o sangue expiatório tinha de ser levado para dentro do véu. Os objetivos desse sacrifício eram a restauração da comunhão e o acesso à presença de Deus.


8 - O CONCEITO HEBREU DE SALVAÇÃO


   Assim, a doutrina da redenção chega ao seu clímax com o conceito de salvação.
No Velho Testamento o termo salvação abrange todas as qualidades de socorro que os israelitas receberam de Deus. Referida pela palavra YASHA' (fazer largo, viver em abundância, conseguir a vitória, libertar do poder do inimigo, salvar da opressão, do pecado, da aflição, da doença, da morte), a salvação pode ganhar qualquer um dos sentidos da tradução desta palavra. Contudo a salvação era prerrogativa divina (Salmo 3:8). Para o povo de Israel a salvação provem única e exclusivamente do Senhor (I Sam. 14:39; I Cron. 16:35; Sal. 68:28; Is. 32:32).

   Os sacrifícios estipulados por Deus no culto hebreu nunca foram tidos como meio de salvação, nem por Deus e nem pelos hebreus. Os sacrifícios foram apenas expedientes de Deus. A salvação podia ser entendida quase que como justiça de Deus quando Ele livrava o seu povo das mãos dos inimigos e nestes casos “salvar” era como “fazer justiça”. Entretanto a idéia de salvação generalizada foi cedendo espaço à doutrina da salvação de pecados e “salvação” passou a significar não somente o livramento das conseqüências do pecado, mas a libertação do poder do pecado. Reconhecendo a natureza pecaminosa do seu próprio coração, o profeta Jeremias exclamou: “Sara-me, Senhor, e serei sarado; salva-me, e serei salvo” (17:14). De igual modo se expressou o salmista (Sal. 51:7,9,10). Desta forma o Velho Testamento mostra o Senhor como o único Salvador (Isaías 40:18,25; 44:24; 46:5) e a doutrina da redenção dá a esperança e certeza de que o Senhor está pronto e desejoso de salvar aos necessitados (Jer. 50:34; Is. 41:14; 43:1; 48:20; 43:14; 44:6, 22, 23, 24, etc).

 

 

 

UNIDADE V – FORMAS DA VIDA OBEDIENTE NO V.T.

 

1 - O Culto no V.T.

 

A lei judaica determinava que os israelitas servissem a Deus na vida de cada dia, observando os preceitos e as instruções; ou então, mediante o culto celebrado em lugar sagrado e em hora regulamentada. Esta segunda forma, na BÍblia e em muitos idiomas, é denominada "serviço divino". Não apenas uma instituição humana, mas antes uma expressão institucional do relacionamento recíproco entre Deus e o homem. Tanto do lado de Deus como do homem opera-se um agir e um falar. O lugar especial e o tempo certo separam o culto do dia a dia, bem como a presença do sacerdote como intermediário.

O serviço divino assim concebido foi introduzido como fruto maduro da Teofania Sinaítica; ao pé do monte sagrado, o grupo, transfuga do Egito e em caminho pelo deserto, experimentava pela primeira vez a sacralidade de um lugar a par com a palavra de Javé precedente da aparição de Deus, funcionando Moisés como medianeiro (Êx.19).

 

2 - O CULTO PRÉ-MOSAICO

   O culto é patrimônio comum do gênero humano. Em Gênesis 1 a 11 encontramos por duas vezes uma ação litúrgica: os sacrifícios de Caim e Abel, e a oferta de Noé depois do dilúvio. Conclui-se daí com direito ser o culto fenômeno essencialmente humano de acordo também com as pesquisas da História das Religiões. Os sacrifícios descritos em Gênesis 1 a 11 representam dois tipos diferentes quanto à sua motivação. Caim e Abel ofereceram as primícias da lavoura e do rebanho, em ação de graças e para impetrar a bênção para o futuro. Já o sacrifício de Noé teve como fundo a salvação de perigo mortal. Os sobreviventes recomeçam sua vida olhando para o Salvador a quem pertence a vida recém doada. Ambos os motivos conservam seu valor até os tempos atuais. Honra-se ainda tanto o Deus benfeitor como o Deus redentor, no ritmo das solenidades anuais, a par com as ações cultuais motivados por ocasiões peculiares.

   Os patriarcas celebraram o seu culto no seio da família nômade, em lugares improvisados, no alto de um monte, debaixo de uma árvore frondosa, junto a fonte de água. Alude-se apenas a um santuário a ser fundado futuramente (Gn.28), marcando então a transição para outra forma de vida.

   Na inexistência de tempos sagrados festejavam-se certas ocasiões importantes, como a mudança das pastagens (antecipações da páscoa), o nascimento de filhos, imposição do nome à criança. O pai funcionava como intermediário, ele ou a mãe recebiam as palavras orientadoras e promissoras de Deus; o pai administrava a bênção. O sacrifício é motivado por objetivo fortuito, não por instituição regulamentada. A prece, igualmente, nasce da situação concreta (Gn.12:15,32).

 

A JUSTIÇA, A GRAÇA E A FÉ NO VT

 

   Relacionado à doutrina da redenção estão a justiça, a graça e a fé. O Velho Testamento apresenta a justiça de Deus como o atributo relacionado à perfeição moral do Senhor e que caracteriza a sua santidade, a sua natureza, a sua divindade. As duas palavras hebraicas que designam a justiça de Deus são TSEDEQU e TSEDAQAH e são sempre aplicadas à justiça divina em contraste com a justiça dos homens. O Velho Testamento manifesta a justiça de Deus num padrão muito mais elevado que a justiça dos homens (Salmo 98:8-9; Salmo 36:6; Salmo 7:6).

   Os profetas entenderam que Deus, por ser justo, não poderia deixar impunes os pecados do povo de Israel, embora fosse esse o povo eleito por Deus. Isto é, a eleição de Israel por parte de Deus não invalida a sua justiça (Isaías 28:17; Amós 3:2). Os profetas entenderam a natureza pecaminosa do povo de Israel que sempre levava o povo a distanciar-se de Deus. Sendo Deus justo e perfeito em sua santidade, não poderia deixar impunes os pecados do povo de Israel, porém o amor fiel e eletivo de Deus (HESED e `AHABA) impulsionava-o à graça. É desta forma que o HESED de Deus se aproxima muito da graça quando se refere ao perdão dos pecados.

   Assim a graça de Deus, desde o Velho Testamento, é manifesta sobre o seu povo que, merecendo a justa condenação, recebe de Deus a misericórdia (Jer. 2:2; Sal. 103:8). Desta forma a graça de Deus deve ser vista como "favor imerecido" (HEN). Entretanto, mesmo um povo eleito não poderia receber a graça de Deus de forma coercitiva. A graça de Deus era oferecida e o povo deveria apropriar-se dela pela fé. Os que não se apropriavam da graça divina eram, por livre escolha, excluídos da aliança.

   A graça de Deus, favor divino (HEN), manifestava-se no sistema sacrificial do culto de Israel: o pecador oferecia o animal e com ele se identificava no momento do sacrifício e, embora o sangue desses animais fossem impróprios para perdoar pecados, Deus, pela sua graça, aceitava tais sacrifícios, mediante a fé daqueles que os ofereciam.

 

- A Visão Missionária do V.T.

 

Livros

Idéias Missionárias
no AT

Pentateuco

Adão Gn 1.28;3.15
Noé Gn 9.1
Abraão Gn 26.2-4
Isaque Gn 26.2-4
Jacó Gn 28.12-14
Moisés Êx 19.5,6

Históricos

Naamã 2 Rs 5
Raabe Js 2; Hb 11.31
O livro de Ester

Poéticos

Salmos 47; 50; 67; 72; 
89; 96; 98; 104;117.

Proféticos

Is 45.21,22; Jr 3.17; Hb 
2.14; Ag 2.7; Zc 9.10; Ml 
1.11

 

1 - A PERSPECTIVA UNIVERSAL DA BÍBLIA – Missão desde o Início

   Deus tem uma preocupação e interesse universal. O mundo é o alvo de Seu amor. O Senhor do Universo criou “os céus e a terra”, e esse é o palco de missões. Gn 1:1 revela a esfera da atuação do seu amor e Jo 3.16 reforça o alvo do amor de Deus: O mundo.

   Jesus disse aos seus discípulos que fossem a todas as nações, a toda criatura e a toda parte do mundo (Mt 28.19, Mc.16.15). Ao criar o ser humano à Sua imagem, Deus deu a ele a capacidade de governar, sujeitar e dominar. O homem era um embaixador do Rei e Senhor de tudo e sua missão era reinar sobre a criação de Deus, que abrangia o mundo inteiro, mas depois da queda esse domínio dado à humanidade tornou-se uma desordem e o governo de Deus impedido pelo abuso de domínio do homem.

    A restauração do reino de Deus que se estenderia a todas as nações,mais uma vez viria, de acordo com a promessa de Deus em Gn 3.15, do descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente. O cumprimento desta promessa ocorre em Jesus Cristo, em Sua obra de redenção realizada
na cruz do Calvário.

   No relato da criação do mundo e do homem vemos que o foco de Deus é universal. Mesmo que Deus tenha escolhido um povo, Israel, e que a Bíblia venha a se concentrar na história desse povo, Deus sempre teve uma preocupação universal e a Bíblia desenrola de acordo com a promessa de Gn
3.15, a história de um povo que culmina na pessoa de Jesus, o Messias Salvador.

 

2- A PROMESSA PARA ABRAÃO – Povo Escolhido, Povos Benditos

   Misteriosamente Deus separou para si um povo, a fim de abençoar não exclusivamente aquele povo, mas todas “as  famílias da terra”. Israel era o povo escolhido de Deus e ele tinha uma promessa, e essa promessa iria abençoar todos os povos.

   Ao longo de toda a Bíblia Deus se revela como Alguém que faz e cumpre as suas promessas. Nos primeiros onze capítulos de Gênesis vemos que as promessas de Deus se destinam ao mundo todo e, a partir do capítulo doze, as promessas se destinam a um povo que será instrumento de benevolência para
com os outros povos e não diretamente aos outros povos. Esse povo é Israel.

   A promessa que Deus fez a Abraão em Gn 12.1-3 é uma das promessas fundamentais da Bíblia e serve de base para todas as demais e se revela em duas distinções que corresponde em dois imperativos dados para Abraão, primeiro, ser benção e, segundo de abençoar os povos do mundo.

   A aliança de Deus com Abraão em Gn 12 é repetida em várias ocasiões para Abraão e relembrada aos seus descendentes de modo que ela molda a memória litúrgica de Israel através de sua história a até se torna a base lógica da lei que formalizou a aliança entre Deus e o Seu povo.

   O povo de Israel não foi escolhido por mérito próprio, mas simplesmente pelo amor gracioso e imerecido do Deus Soberano. Este povo foi escolhido para alcançar todos os povos com a benção de Deus. Mas é através de um descendente real dos judeus, de Jesus Cristo, que a promessa e a benção de
Deus se realizam. Através dele e por instrumentalidade do Seu povo, a igreja é uma benção de Deus a fim de alcançar todas as famílias da terra.

   A idéia da eleição de Abraão deve ser entendida como um meio e não como um fim. A idéia é antes de serviço de que privilégio. Abraão e os seus descendentes deveriam ser canais e não depositários das bênçãos de Deus para os povos do mundo.

   Abraão adorou ao Senhor (Gn.12:7). A adoração é a resposta última apropriada de missão, tanto para quem “faz” missão quanto Para quem a “recebe”. A adoração universal, e nada mais, é o fim último de missão: “Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Hc. 2:14).

 

3 - A PROMESSA PARA MOISÉS – Povo Peculiar, Povo entre os Povos.

   A aliança que Deus faz com Abraão permanece em vigor para as sucessivas gerações, passando pelos patriarcas e chegando ao tempo de Moisés, quando ela se formaliza na lei dada por Deus no Monte Sinai.

   A aliança de Deus com Israel no Sinai depois da libertação do Egito foi a base do relacionamento contínuo de Israel e Iahweh. Israel responde com adoração e serviço exclusivo a Iahweh. Estas duas instituições, o tabernáculo /templo e a lei, serviam para demarcar Israel como um povo peculiar entre os
outros povos, e sua fé e culto servia de exemplo para esses povos. Israel devia
obediência ao Deus que os tinha escolhido.

   Enquanto o tabernáculo era uma analogia visível e ritual da santidade e da salvação de Deus, a lei era a sua expressão verbal. A lei também refletia a idéia de que Deus exerce soberania real sobre o povo escolhido, em todas as áreas da sua vida. Israel deveria viver a sua fé no meio das nações. Deus
chama um povo específico para manifestar seu caráter de compaixão e justiça
no mundo e assim conclamar o mundo a glorificá-lo.

   Tanto o sistema de sacrifícios quanto o a lei destacam o papel missionário do povo de Deus. Os sacrifícios demonstram que só ele deve ser cultuado e também revelam a distancia do povo em relação a Deus. Seguindo a lei, o povo confirma sua resposta de compromisso com a aliança e reflete o
caráter de Deus ao mundo.

   Tornou-se claro que não poderia haver concessão entre a fé de Israel e as práticas sincretistas e pecaminosas dos outros povos. A Adoração ao Deus de Israel exigia justiça, retidão e exclusiva devoção a Ele. Em certo ponto Israel era contra-cultura, mas havia pontos positivos nas culturas das outras nações.

   Israel usava as mesmas formas enigmáticas e poéticas dos seus vizinhos, para facilitar a comunicação da revelação de Deus entre as nações.

   Precisamos ter cuidado quanto ao sincretismo no processo de contextualização do evangelho.

   Enquanto a contextualização traz o evangelho profundamente ao um contexto específico, dando significado cristão às formas autóctones de dada cultura, o sincretismo deixa o evangelho muito superficial a cultura, dando forma cristã para sentidos e significados pagãos e antibíblicos.

   Existe um desafio missionário para o povo de Deus junto às nações: convidá-los a participar do louvor e a oração do Deus de toda a terra (Sl 66.1-2).

 

4 – A PROMESSA PARA DAVI – Reino Eterno, Luz para as Nações.

   Por causa de desobediência a promessa de benção para Israel passou a adquirir cada vez mais dimensão de juízo. A partir de Davi, Israel foi passando de um conceito quantitativo para um conceito cada vez mais qualitativo.

   De acordo com o Salmo 72.17 haveria um rei, filho de Davi “em que será abençoados todos os homens e as nações” (Gn 12; 22.18). Este filho de Davi seria o Messias, o rei ungido. Ele também é apresentado como Servo sofredor e Filho do Homem, trazendo uma esperança messiânica de salvação e
restauração em Israel.

   Israel seria purificado e Jerusalém seria o centro espiritual e religioso do mundo (Jr 16.19-21; Hc 2.14 e Zc 8.22). Em Is 66. 18-21 e Mq 4.1-4, vemos que Deus ajuntará pessoas de todas as nações para serem salvas e anunciarem a Sua glória entre o mundo.

   A esperança messiânica dos profetas vislumbra até a pessoa de Jesus Cristo e a Igreja tem a incumbência de levar Cristo às nações, e quando ela cumpre essa tarefa, está obedecendo ao mandamento do Novo Testamento e realizando a esperança messiânica dos profetas.

 

UNIDADE VI – MESSIANISMO NO VT


- O Messias Prometido - O reino do Messias


   A promessa do Messias, segundo o pensamento dos profetas, significava o aperfeiçoamento do Reino de Deus, o triunfo final da justiça de Deus no mundo. Este reino aperfeiçoado na sua plenitude seria realizado com a vinda e o governo do Messias, o servo do Senhor.

O pensamento do reino messiânico desenvolveu-se de forma gradual, embora a esperança messiânica esteja relacionada, no pensamento dos escritores do Antigo Testamento, com as várias atividades providenciais do Senhor na história de Israel, desde a chamada de Abraão até o novo concerto de Jeremias e Ezequiel. Desta forma, o conceito de “reino messiânico” é mais antigo do que a frase que aparentemente tem a sua origem na promessa de Deus a Davi (II Sam. 7:11-16).

   A promessa do Messias e o reino messiânico têm que ser vistos à luz da eleição de Israel. A distinção principal da história hebraica é a profecia, e por meio da profecia o Senhor dirigiu a história de Israel de acordo com o seu eterno propósito, que realmente inclui todas as nações e povos do mundo. A promessa de Deus a Abraão é amplamente reconhecida pelos escritores bíblicos. Ela apresenta-se 5 vezes no livro de Gênesis, com pouca variação, e sempre com ênfase na bênção para as nações. Isto é, o reino messiânico seria, a partir de Israel, bênção para as nações. Este é o elemento mais enfático da promessa a Abraão: por intermédio dele e da sua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Esta promessa apresenta-se como eterna e universal na aplicação de seus benefícios (Gen. 17:7,19).
   A eleição de Israel para o benefício das outras nações é reconhecida como passo importante no cumprimento da promessa patriarcal. A missão messiânica de Israel é amplamente reconhecida pelos profetas: “O Senhor te estabeleceu para si como um povo santo, como te prometeu com juramento, se guardares os mandamentos do Senhor teu Deus e andares nos seus caminhos. Todos os povos da terra verão que tu és chamado pelo nome do Senhor; e terão temor de ti” (Deut. 28:9,10).

   O Senhor Javé é Deus de todas as nações, toda a terra é dele, e em tudo que ele fez pelos patriarcas, e mais tarde pelos filhos de Israel, visava o seu propósito eterno de abençoar todas as famílias da terra. É claro para os escritores bíblicos que o Senhor escolheu Israel para servir como meio de conseguir o propósito do Senhor, revelado na promessa patriarcal.


ORIGEM DO CONCEITO DE REINO MESSIÂNICO

   A origem do conceito do “reino messiânico” e a base das profecias messiânicas estão no concerto do Senhor com Davi: “Também o Senhor te diz que ele mesmo te fará uma casa. Quando os teus dias são cumpridos, e te deitas com teus pais, suscitarei depois de ti o teu filho (semente) que sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Ele edificará uma casa para o meu nome, e eu estabelecerei o trono do seu reino para sempre. Eu serei o seu pai, e ele será o meu filho. Quando ele cometer a iniqüidade, castigá-lo-ei com varas de homens, e com açoites de filhos de homens. Mas o meu amor imutável não se apartará dele (não o retirarei dele), como o retirei de Saul, a quem tirei diante de ti. Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; o seu trono será estabelecido para sempre” (II Sam. 7:11-16; I Cron. 17:1-15).

   O reino messiânico não se distingue, no sentido absoluto, do reino de Deus. Para o indivíduo, o reino de Deus é a presença do Senhor no seu espírito, a harmonia da sua vontade com a vontade divina de tal maneira que a sua vida inteira seja divinamente orientada em perfeita harmonia com o Espírito do Senhor. O Reino de Deus, como o reino messiânico, é também social. O reino messiânico é do próprio Senhor. Desde o tempo de Moisés até a fundação da monarquia, o governo de Israel foi uma teocracia ou o governo de Deus.


- A Linguagem do V.T. Sobre o reino Messiânico


   Muitos salmos acentuam o governo futuro do mundo pelo Senhor: 47, 67, 89, entre outros. O grupo dos Salmos 93 a 100 é designado como salmos “teocráticos”, porque são profecias do advento e governo do Senhor em algum tempo indefinido no futuro. O costume de cantar os salmos no culto público mantinha acesa a esperança no Messias vindouro, pois os salmistas, como os profetas, se interessavam na esperança messiânica. O tema do Salmo 93 é a majestade do Senhor como o Rei do universo. O Salmo 94 é um apelo à justiça do Senhor contra os malfeitores.

   O profeta Daniel dá ênfase ao triunfo do reino messiânico na luta com as forças do mal. Todos os reinos que dependem apenas do seu próprio poder são destinados à perdição. Mas o reino messiânico, de origem humilde, será vitorioso sobre todos os reinos da terra. Estabelecido pelo Deus do céu, o reino do Senhor se tornará soberano, universal, indestrutível e eterno (Dan. 2:44,45). O reino do Senhor será estabelecido por intermédio do seu povo escolhido. O Salmo 22 apresenta um exemplo da confiança que os profetas e o salmista tinham de que o reino do Messias haveria de ganhar a adesão de todos os povos do mundo.

   O conceito do Messias não se originou com Davi, mas por causa da sua maravilhosa carreira, escritores bíblicos ligaram a esperança a ele ou à sua descendência, fazendo do seu nome o símbolo do Rei Messiânico.

   A profecia de Isaías 7:14: “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal. Eis a donzela (parthénos, virgem), conceberá e dará à luz um filho, e lhe dará o nome Emanu El... (Deus conosco) Ele comerá manteiga e mel, e quando souber rejeitar o mal e escolher o bem, será desolada a terra ante cujos dois reis tu tremes de medo”, apesar das várias interpretações, revela alguns aspectos importantes:

   1) HÁ’ALMA (virgem) tem o artigo definido, o que preconiza um termo que poderia ser reconhecido pelos contemporâneos do profeta;

   2) o conceito “Deus conosco” era usado no culto, como no Salmo 16: “O Senhor dos Exércitos está conosco”. Outro fato interessante é que manteiga e mel são conhecidos entre os semitas como o alimento dos deuses. O sinal divino e todas as palavras do profeta indicam que não está falando do nascimento de qualquer filho, mas de um filho divino.

   A promessa do Messias fica evidente pelos nomes com os quais o profeta Isaías trata aquele que há de vir como rei: “um menino”, “um filho”, “Maravilhoso Conselheiro”, “Poderoso Deus”, “Eterno Pai”, “Príncipe da Paz”, “Rebento”, “Renovo” (9:6,7; 11:1-5; 10:21; 28:29).

   O Messias de Belém é descendente de Davi (Is. 61:1,2; Lc. 4:18,19; Miq. 5:2-4; Mt. 2:6).

 


UNIDADE VII – IMORTALIDADE E RESSURREIÇÃO

 

   A Bíblia se refere a dois tipos de morte: a morte física, que acontece com todas as pessoas quando param de viver e a morte espiritual, quando elas não mantêm um relacionamento com Deus e Jesus Cristo. O Velho e o Novo Testamento falam da morte de maneira diferente.

   O Velho Testamento fala mais de morte física e o que significava para os israelitas. Todavia, No Livro de Jó, nos Salmos e nos Profetas há referências à crença na vida futura ou na imortalidade.

   O Novo Testamento fala mais de morte espiritual. Conta a história da vida de Jesus Cristo na Terra, que inclui sua morte e ressurreição. Também nos conta que, por causa da morte de Jesus, todas as pessoas têm a chance de viver eternamente nos céus com Deus.


A MORTE NO VELHO TESTAMENTO


   Os israelitas aceitavam a morte como um fim natural da vida. Tinham como objetivo viver uma vida longa e plena, ter muitos filhos e morrer em paz com sua família. Uma morte prematura era vista como o resultado do julgamento de Deus sobre aqueles que Lhe eram desobedientes.

   O Rei Ezequias orou ao Senhor para prolongar sua vida mesmo não tendo sido totalmente obediente (II Reis 20:9).

   Jó quis limpar sua reputação com Deus antes de morrer (Jó 19: 25-26). Mas, registrando um fato-símbolo, o livro de Jó ilustra, de modo vívido, a crença na imortalidade e a correspondente realidade da vida futura. ''Porque eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei  por mim mesmo, os meus  olhos o verão, e não outros''(Jó 19.25-27). Depois de ter sido arrastado à mais profunda miséria - pois perdeu todos os seus bens, os filhos e a saúde - Jó, em meio a dores e sofrimentos indescritíveis, abre a sua boca e entoa o cântico de fé que acabamos de transcrever!

   Apesar de pensarem que a morte era o fim natural da vida, os israelitas nunca a viram como uma experiência agradável.

   Tal como hoje, a morte era um fato triste que afetava profundamente as pessoas. A morte eliminava a pessoa do convívio de familiares e vizinhos. Mais importante ainda é que a pessoa não poderia mais se relacionar com Deus. A morte nunca era vista como um limiar para uma vida melhor no céu.
Quando Deus deu a lei para Moisés e para o povo, afirmou claramente que qualquer desobediência aos seus mandamentos teria como conseqüência a morte. Pelo profeta Ezequiel Deus afirmou que todas as pessoas que O seguissem teriam vida, mas a qualquer que "se desviar da Sua justiça" certamente morrerá" (Ezequiel 18: 21-32). Portanto, toda morte era vista como um mau resultado de seu pecado e desobediência.

   Mais tarde, essa idéia mudou. Os filósofos judeus começaram a desenvolver idéias sobre vida após a morte e ressurreição do corpo. O livro de Daniel traz a primeira referência sobre uma possível ressurreição dos mortos, quando profetiza "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno"(Daniel 12;2).

   Existem outras profecias semelhantes à de Daniel, feitas no período entre o Velho e o Novo Testamento, em que os filósofos judeus acreditavam que a alma era imortal e continuava a existir depois da morte; seu conceito de ressurreição e vida eternamente redimida da morte pôs em cena o trabalho de Jesus Cristo que subjugaria a morte para todas as pessoas.

Enoque e Elias (Gn. 5.24 e II Rs 2.11-12), respectivamente, receberam a bênção da incorrupção, pois não provaram a morte nem os seus efeitos. Na cena da Transfiguração, Elias aparece falando com Jesus, provando, portanto - bem como Moisés -, estar vivo e no gozo de plena consciência, não obstante ter desaparecido deste mundo há muitos séculos. Vejam-se Salmo 49.15 e Salmo 73.24.

Como ''imagem de Deus'', o homem é personalidade que não pode extinguir-se (Gn 1.27), pois ele foi criado para a imortalidade.

   Lembra-se? Somente o homem tem um espírito imortal através do qual pode ter comunhão com Deus (ruah = espírito imortal) – (nishmat haym = sopro de vida).

 

 

UNIDADE VIII - O ESPÍRITO SANTO

   A palavra RUAH possui diversos sentidos no Velho Testamento. Entre outros podemos citar: vento, espírito, respiração forte, sopro. Esta palavra quando significa "vento", traz a idéia de "poder" e denota o poder, a vida e o Espírito de Deus. O RUAH do Senhor em II Sam. 22:16 demonstra como o conceito do Espírito de Deus desenvolveu-se no Velho Testamento.

   A palavra RUAH é empregada 377 vezes no Velho Testamento e em 87 vezes tem o sentido de vento e dessas 87 vezes, 37 se referem ao vento como o agente de Deus que se manifesta com força violenta, e, às vezes, até destrutivo.

   Oséias 13:15 e Isaías 40:7 empregam a palavra RUAH-ADONAI (o vento do Senhor) com quase o mesmo sentido de Espírito do Senhor. Em Ezequiel 8:3, 11:14 e 37:1 o RUAH-JAVÉ é o agente de Deus que age como o próprio Senhor.

   Na revelação de Deus ao povo de Israel, o Espírito do Senhor, progressivamente, vai substituindo as manifestações do Anjo do Senhor e capacitando homens para que falem por Deus. Assim os escritores do Velho Testamento descreveram as atividades de Deus, pelo seu, Espírito no Velho Testamento.



ATUAÇÃO NO VELHO TESTAMENTO


   O RUAH-JAVÉ agiu de forma transformadora sobre o caos antes da criação (Gênesis 1:2). São significantes as operações do Espírito do Senhor no sentido de manifestar o poder dinâmico de Deus (Jó 26:13; Isaías 40:6,7; Ezequiel 37:9-14).

   O RUAH-JAVÉ deu ao homem a vitalidade e a força (Gênesis 2:7). O NEPHESH (alma vivente) em que o homem se tornou, só foi possível por causa do NISHMATH HAYIM (fôlego de vida) soprado por Deus no homem. Deus é a fonte da vida e o seu Espírito é quem a produz e sustenta (Jó 27:3; 33:4). Assim, desde o Velho Testamento, é o Espírito de Deus quem transmite a vida e isso é de suma importância para a teologia da salvação, onde é o Espírito Santo o agente da regeneração. Quando Deus tira o espírito do homem este morre. O espírito do homem lhe é transmitido pelo Espírito de Deus (Sal. 104:29, 30; Jó 34:14,15).
   O RUAH-JAVÉ motivou os homens a dedicarem suas vidas a Deus. A qualidade de vida espiritual dos homens, o amor e a gratidão a Deus são resultados do ministério do Espírito de Deus agindo nos homens (Sal. 51:11; Sal. 143:10; Is. 11:2; Is. 42:1).

   O RUAH-JAVÉ inspirou e controlou os profetas. Foi o Espírito de Deus quem capacitou o profeta Ezequiel (Ezequiel 2:1-3; 3:12-14; 8:3; 11:1-2, 5, 24); foi o Espírito do Senhor quem dirigiu o profeta Azarias (II Crônicas 15:1); foi o Espírito de Deus quem se apoderou do profeta Zacarias (II Crônicas 24:20) e encheu Miquéias do poder para profetizar (Miquéias 3:8).

   O RUAH-JAVÉ capacitou os juízes de Israel (Juízes 15:14).

   O RUAH-JAVÉ ensinou o povo de Deus (Neemias 9:20)

   O RUAH-JAVÉ testemunhou de Deus (Neemias 9:30).

   O RUAH-JAVÉ está intimamente relacionado à Palavra de Deus (Salmo 33;6-7).

   O RUAH-JAVÉ iria agir ativamente na era messiânica (Isaías 11:2; Isaías 61:1; Joel 2:28-32).


A VINCULAÇÃO COM O PAI


   O Espírito do Senhor é o próprio Senhor em atividade. A presença do Espírito de Deus é a presença dele mesmo em essência, pois o Espírito de Deus é a sua essência. "Tudo o que Deus é e tudo que possa significar para o homem, é representado pelo ministério do seu Espírito que é vida e poder. Qualquer conhecimento que o hebreu tenha recebido dos atributos de Deus foi-lhe comunicado diretamente no intercurso do seu espírito com o Espírito de Deus" (Isaías 31:3; Salmo 139:7-10; Salmo 51:10-13). Não é específico no Velho Testamento o desenvolvimento do conceito da personalidade distinta do Espírito do Senhor. Através da história do povo de Israel, o Espírito vai dirigindo suas atividades cada vez mais para as questões éticas e morais, pondo em destaque a santidade e a justiça de Deus. O Espírito do Senhor motivou e aprimorou a revelação de Deus. As atividades do Espírito do Senhor no Velho Testamento eram intermitentes sobre os juízes e os profetas. Assim, o Espírito de Deus era procedente do próprio Deus e em estreita relação com a sua Palavra.

   O RUAH YAHWEH, no VT não é uma entidade separada, distinta; é o poder de Deus - a atividade pessoal na vontade de Deus atingindo um objeto moral e religioso. O RUAH de Deus é a fonte de tudo o que está vivo, de toda vida física. O Espírito de Deus é o princípio ativo que procede de Deus e dá vida ao mundo físico. Também é a fonte de todas as preocupações e indagações religiosas, despertando líderes carismáticos, como juízes, profetas ou reis. O RUAH Yahweh é um termo usado para designar a ação histórica criadora do Deus único, o qual, muito embora desafie a análise lógica, é sempre ação de Deus.
   Obs.: Será realizado um trabalho individual pelos alunos sobre a matéria.


RAÍZES DA DOUTRINA DA TRINDADE


   Visto que no Velho Testamento não está desenvolvida a idéia do Espírito de Deus como pessoa, também a doutrina da trindade não se encontra nitidamente perceptível e nem era algo inerente ao povo de Israel. Entretanto alguns textos no Velho Testamento que nos fazem pensar no Espírito de Deus como pessoa (Ageu 2:5; Zacarias 4:6; Isaías 48:16).

   O termo "Espírito Santo" encontra-se em Salmo 51:11 e Isaías 63:10-11. Certamente não tem o mesmo sentido que no Novo Testamento, mas demonstra que a doutrina do Espírito Santo tem suas raízes na história da experiência religiosa do povo de Israel e é desenvolvida amplamente, colocando o Espírito Santo como a terceira pessoa da trindade, a partir da experiência cristã do Novo Testamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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3 A Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas.

4 A Bíblia Anotada. Editora Mundo Cristão.

5 Bíblia de Referência Thompson. Editora Vida.

6 LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. JUERP

7 MILNE, Bruce. Conheça a Verdade. ABU Editora.

8 HASEL, Gerhard F. Teologia do Novo Testamento. JUERP

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10 HOFF, Paul. O Pentateuco. Editora Vida.

11 JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Edições CPAD. Vol. 1,2 e 3

12 FITCH, William. Deus e o mal. PES. São Paulo, SP. Primeira Edição. 1984.

13 GEISLER, Norman L. e FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia. Edições Vida Nova. São Paulo, SP. Primeira edição. 1983.

14 FEINBERG, John; GEISLER, Norman; REICHENBACH, Bruce e PINNOCK, Clark.

Predestinação e livre-arbítrio. Editora Mundo Cristão. São Paulo, SP. Primeira edição. 1989.

15 CHILDS, B Teologia do Antigo Testamento e um conteúdo canônico. Trad. H. Houston Greenhaw. Seminário Teológico do Norte do Brasil.

16 KAISER, W. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1984.

17 KNIERIM, Rolf. A Interpretação do Antigo Testamento. São Paulo, Editeo, 1990.

18 SAMPEY, John R. O Coração do Velho Testamento. Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1934.

19 VON RAD, G. Teologia do Antigo Testamento. (2º Vol) , São Paulo, ASTE, 1973.

 

 

 

 

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